Campanha pelo fim das armas nucleares leva o Nobel da Paz

06/10/17 às 21:25 - Atualizado às 21:30 Folhapress

DIOGO BERCITO MADRI, ESPANHA (FOLHAPRESS) - A Campanha Internacional para Abolir Armas Nucleares (Ican) recebeu na sexta-feira (6) o Prêmio Nobel da Paz. A coalizão da sociedade civil promove a implementação do tratado internacional que proíbe esses armamentos. Há 468 organizações envolvidas em 101 países diferentes. O anúncio coincide com a crescente preocupação em relação ao programa nuclear da Coreia do Norte, a que o governo americano tem respondido sistematicamente com ameaças belicosas. Também se insere no contexto de um possível recuo americano na ratificação do acordo nuclear com o Irã, por orientação de Donald Trump. Berit Reiss-Andersen, líder do comitê do Nobel, afirmou que o prêmio foi atribuído como reconhecimento ao fato de o trabalho da aliança "atrair atenção às consequências humanitárias catastróficas do uso de toda arma nuclear". Os esforços internacionais contra armamentos nucleares eram favoritos à láurea —ao menos nos rankings das casas de apostas. Mas se esperava que ela fosse entregue ao chanceler iraniano, Mohammad Javad Zarif, e à chefe de política externa europeia, Federica Mogherini. A dupla esteve por trás do acordo nuclear internacional com o Ir㠗hoje criticado por Donald Trump. Em 2017, o comitê do Nobel da Paz recebeu 318 indicações: 215 de indivíduos e 103 de organizações. A relação é mantida em segredo durante 50 anos. A Ican foi em parte responsável pela instituição do Tratado para a Proibição de Armas Nucleares. Estabelecida em 2007, na Austrália, e hoje com sede na Suíça, a campanha é liderada por Beatrice Fihn. Uma de suas inspirações foi a mobilização que levou à proibição do uso das minas terrestres, em 1997. Fihn afirmou ter recebido um telefonema minutos antes do anúncio do prêmio e ter pensado que se tratava de um trote. O troféu, disse ela, "envia a todos os Estados com armas nucleares a mensagem de que se trata de algo inaceitável". "Não podemos ameaçar matar centenas de milhares de civis em nome da segurança, e ainda mais de forma indiscriminada. Não é assim que se constrói a segurança", disse ela. ILEGALIDADE A agência de notícias Reuters lhe pediu que comentasse a premiação, no contexto das disputas nucleares entre EUA e Coreia do Norte. "Armas nucleares são ilegais. Ameaçar usá-las é ilegal. Ter armas nucleares é ilegal, e [os países que as possuem e se dizem prontos a lançá-las] precisam parar." Uma semana antes, em um comentário publicado em uma rede social, Fihn havia chamado o presidente americano de "idiota". O orçamento anual do Ican gira em torno de US$ 1 milhão (R$ 3,1 milhão), quase o equivalente à recompensa oferecida pelo próprio Nobel, de US$ 1,1 milhão (R$ 3,4 milhões). O completo desarmamento nuclear do mundo é hoje um objetivo distante. Estimativas indicam haver atualmente cerca de 15 mil dessas ogivas. ACORDO BOICOTADO O Tratado para a Proibição de Armas Nucleares foi estabelecido em julho deste ano nas Nações Unidas, apesar do boicote das nove potências nucleares do mundo —Estados Unidos, Rússia, China, Reino Unido, França, Índia e Paquistão, Israel e Coreia do Norte. O texto foi apoiado por 122 países após meses de negociações. Em 20 de setembro, o presidente Michel Temer foi um dos signatários da peça. Três países já a ratificaram: Guiana, Tailândia e o Vaticano.

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