A explosão de “Bibis” na última década

18/10/17 às 00:00 Karlos Kohlbach | karloseak@gmail.com

Eu não gosto de novela. Não assisto. Mas as redes sociais, especialmente, assim como o noticiário, me levaram ao encontro de Bibi Poderosa. Inicialmente, o contato não foi com a verdadeira, mas com a atriz Juliana Paes que interpreta a tal Bibi na novela. Importante lembrar que a saga da atriz global é inspirada na história real de Fabiana Escobar – a real “Bibi Poderosa”. Embora o sobrenome remeta àquele que já foi considerado o maior traficante do mundo, Pablo Escobar, a verdadeira Bibi foi casada com Saulo de Sá Silva, o Barão do Pó. Sem entrar muito em detalhes, comecei este Papo Reto falando da novela, da Bibi real e da ficção para mostrar uma triste constatação: vivemos na última década no Brasil uma explosão de “novas Bibis” – de mulheres ligadas ao tráfico e que, invariavelmente, vai mexer na estatística de gênero dentro dos presídios brasileiros.
Quer ver? Um levantamento divulgado recentemente pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) revela que de 2000 a 2016 o número de mulheres presas no Brasil subiu quase 800%. Se no ano 2000 o sistema penitenciário do país registrava a presença de 5.601 detentas, 16 anos depois o número de encarceradas saltou exponencialmente para 44.721 – aqui reproduzo dados repassados pelo Departamento Penitenciário Nacional (Depen) do Ministério da Justiça ao CNJ. Isso quer dizer que a representação das mulheres na massa prisional passou de 3,2% para 6,8% no período. No Paraná a taxa se mantém na casa dos três pontos percentuais (19.500 homens e 650 mulheres, aproximadamente), mas muito em função do Estado aderir ao projeto Cidadania nos Presídios do próprio CNJ.
O que explica essa explosão de novas “Bibi’s”? Em resumo, sem entrar aqui no mérito de diversos estudos sérios e competentes realizados sobre o tema, percebeu-se que o envolvimento das mulheres, especialmente no crime de tráfico de drogas, estava vinculado ao parceiro/marido/companheiro.
Cita o CNJ que cerca de 60% das detidas em todo o Brasil respondem a crimes ligados ao tráfico de drogas. E a maioria delas, contudo, não tem ligação com grupos criminosos e tampouco ocupa postos de chefia, sendo apenas coadjuvantes. Manter esta mulher encarcerada, neste cenário, é justo? Para ao 2º vice-presidente do CNJ, Marcos Roberto Fuchs, a resposta é não. Aliás, a manutenção delas nas carceragens, na concepção de Fuchs, é desumano, cruel e covarde.
Há, claro, exceções. Uma delas atende pelo nome de Adriana Ancelmo. Ex-primeira-dama do Estado do Rio de Janeiro, casada com o ex-governador Sérgio Cabral – hoje enrolado até o pescoço com os processos derivados da Lava Jato. Adriana Ancelmo pode até declarar desconhecimento das atitudes do marido, mas é inegável que a fortuna amealhada por Cabral com dezenas de esquemas de corrupção foi usada, e muito bem usada, por ela.
Dentro do cenário do sistema penitenciário brasileiro, a mulher de Cabral ajudou muitas presas a deixarem as penitenciárias. Depois que Adriana Anselmo foi solta por decisão judicial arguindo “ser mãe de duas crianças que precisam de cuidados”, os tribunais receberam uma enxurrada de pedidos de habeas-corpus reivindicando o mesmo direito – afinal de contas, não faltam detentas que são mães. Tanto é que os dados revelados pelo CNJ, sobre a população carcerária feminina no país, estão anexados em um pedido de habeas corpus coletivo em favor de todas as presas grávidas, puérperas (que deram à luz há até 45 dias) ou com filhos de até 12 anos de idade sob sua responsabilidade em prisão cautelar, bem como das próprias crianças. A ação, do Coletivo de Advogados em Direitos Humanos (Cadhu), tramita no Supremo Tribunal Federal (STF).
Assim, a tendência é a massa de “Bibis” encarceradas diminua. Aliás, o destino da Bibi (a personagem de Juliana Paes) será contado nesta semana com o fim do folhetim. Não vou assistir, mas com certeza as redes sociais me farão saber. Sou da época da novela “Que Rei Sou Eu” lá nos idos de 1989. A telenovela brasileira era uma repleta ironia sobre a situação política brasileira. E relembrando a história, a reprise do folhetim cairia como uma luva nos tempos atuais. Perceba: a novela mostrava uma conspiração para derrubar o governo para instituir uma sociedade menos opressiva, já que o reino, na ficção, era corroído pela corrupção de seus governantes e injustiças sociais. Enxergou algumas semelhanças com nossa realidade? Mais mulheres nas cadeias. Uma explosão de “Bibi’s”. Governos marcados por corrupção na telinha e, infelizmente, na vida real. É a arte que imita a vida. Ou seria a vida imitando a arte?

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