Brasil tem queda em pódios na largada do ciclo olímpico

21/10/17 às 07:00 - Atualizado às 08:14 Folhapress

PAULO ROBERTO CONDE SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Diante do cenário de crise com a prisão e posterior renúncia de Carlos Arthur Nuzman do comando do COB (Comitê Olímpico do Brasil), o esporte nacional teve em 2017 número de conquistas semelhante ao dos Jogos do Rio, mas que decaiu na comparação com o início do ciclo anterior. Nesta temporada, competidores do país obtiveram 19 medalhas em provas que integram o programa esportivo da Olimpíada em Mundiais ou equivalentes, tidos como referência na análise. Foram três ouros, oito pratas e oito bronzes. Os carros-chefe foram o judô, que saiu do Mundial de Budapeste, no mês passado, com cinco pódios, os vôleis de quadra e praia e os esportes aquáticos. Como os judocas David Moura e Rafael Silva foram ao pódio na mesma categoria pesado, o COB considera apenas uma láurea —só um atleta do país pode competir por peso no judô nos Jogos Olímpicos—, o que faz a medição cair para 18 medalhas. Até o final do ano ainda serão disputados outros Mundiais, mas com pouca chance de pódio para o país, como os de handebol feminino. As 19 medalhas em 2017 igualam o obtido pelo país na Rio-2016 (sete ouros, seis pratas e seis bronzes). Porém, representam decréscimo de 29,6% no cotejo com as 27 de 2013, ano em que o esporte olímpico nacional teve seu ano mais prolífico, no início do ciclo para a Rio-16. Na época, todos surfavam na onda de investimentos de mais de R$ 4 bilhões do governo federal, Forças Armadas, estatais e outros entes na preparação olímpica. Com o fim dos Jogos do Rio, o contexto mudou. Houve retração e fuga de patrocinadores privados e públicos, como por exemplo a Petrobras, que cortou todo seu incentivo. Para atletas, técnicos e dirigentes, até pelo arrocho financeiro, os resultados da temporada foram razoáveis. Salvo 2013, nos demais primeiros anos de ciclos olímpicos deste século a quantidade de pódios foi menor. Em 2001 foram obtidas sete medalhas. Em 2005, 11. E em 2009, nove. Nesses três casos não havia a impulsão dos Jogos de 2016, que despejou bilhões na preparação. "Alguns atletas foram muito beneficiados com dinheiro no ciclo passado, o que não foi meu caso. Eu sempre tive dificuldade em arrumar patrocínio. O que fiz foi continuar a treinar e competir, e o resultado veio", disse o marchador Caio Bonfim, 26, bronze na prova de 20 km no Mundial de Londres, em agosto. Ele, a canoísta Ana Sátila e os skatistas Kevin Hoefler, Pedro Barros e Letícia Bufoni foram algumas das novidades que despontaram com medalhas na temporada —surfe e skate farão suas estreias olímpicas em Tóquio-2020. No geral, contudo, poucos novos talentos apareceram e as medalhas ficaram concentradas em nomes conhecidos. A natação, que não obteve nem sequer um pódio na Rio-2016, saiu com duas pratas em provas olímpicas no Mundial de Budapeste: no 4 x 100 m livre e nos 50 m livre. Foram, ainda, obtidas outras três medalhas em provas ausentes do programa olímpico. Quase todos os que foram ao pódio são "veteranos" de Mundiais e Olimpíadas. "Estamos satisfeitos, mas com pé no chão para não sermos hipócritas", disse Alberto Pinto da Silva, treinador-chefe da seleção masculina. Para Silva, é preciso caminhar na direção de revelar mais talentos, apesar das restrições de verba. "Para o futuro eu quero que tenhamos um programa que possibilite subir degraus na elite internacional. Vamos atrás disso." Jorge Bichara, gerente de performance esportiva do COB, afirmou que o resultado do ano foi satisfatório, mas poderia ser ainda melhor se medalhistas olímpicos ou outros atletas de ponta do país estivessem em condições. Ele citou o ginasta Arthur Nory, bronze na Rio-2016 e que passou por duas cirurgias que prejudicaram seus objetivos para o ano, e o boxeador campeão olímpico Robson Conceição, que se profissionalizou ainda em 2016. "O ano pós-olímpico carrega características diferentes, como atletas que aproveitam para se recuperar ou 'baixam a bola'", afirmou o dirigente. Bichara lembrou que nomes importantes passam por má fase, como o saltador Thiago Braz, ouro no Rio que devido aos resultados foi sacado do Mundial de Londres. "Como é o primeiro ano do ciclo, prefiro encarar que a falta de pódios de atletas como Thiago ainda não é algo preocupante", disse. O perigo é que medalhões demorem a retomar o ritmo e a falta de recursos se prolongue. "O impacto financeiro pode ser grande. Resta sermos criativos com recursos e ser eficiente", completou.

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