Ainda sobre preconceitos

20/11/17 às 00:00 Adriane Werner | contato@adrianewerner.com.br

Impressionante a repercussão que teve a divulgação do vídeo em que o jornalista William Waack pronuncia, em tom de agressividade jocosa, frases racistas contra negros. Em pouquíssimo tempo, o vídeo foi compartilhado por milhares de pessoas e comentado por outras tantas, na velocidade assustadora de que só as redes sociais em tempos de internet são capazes. As declarações foram feitas há um ano, mas só foram divulgadas agora, no dia 8 de novembro.

A repercussão foi tanta que a Rede Globo se viu obrigada a afastar o jornalista do comando do Jornal da Globo, que era apresentado por ele, além de emitir uma nota oficial destacando que não compactua com declarações de cunho racista. Também não tardaram a aparecer os defensores do jornalista, como colegas de trabalho que frisaram que ele sempre teve conduta amistosa, sempre foi bom colega, etc e tal. As frases pronunciadas em alto e bom som por William Waack, criticando alguém que buzinara atrás dele, “atrapalhando” a concentração de quem se preparava para entrar ao vivo (“Eu sei quem fez isso!”, “Isso é coisa de preto!”) causaram polêmica.

Pois é, polêmica por quê? Nem deveria, já que é difícil acreditar que alguém poderia defender o uso dessas frases. Mas, sim, houve polêmica. Muita gente se pronunciou nas redes sociais pra dizer que essas declarações são comuns, que “todo mundo fala assim”, que “isso é da nossa cultura”. Pior é que é! O pior de tudo é perceber que, pelo senso comum, essas pessoas têm razão ao lembrar que as frases preconceituosas ainda fazem parte dos nossos costumes. Tanto são comuns, que mesmo entre celebridades outros preconceitos semelhantes já “vazaram” em outras gravações.

Em 1998, durante a apresentação do programa “Fantástico”, uma voz em off “escapou” no ar, durante a exibição de uma reportagem sobre ballet, dizendo “isso é coisa de veado”. Todos reconheceram a voz como sendo de Pedro Bial, que apresentava o programa na época, mas ele sempre negou. Em 2009, foi a vez de Boris Casoy deixar escapar uma série de ofensas a garis que haviam gravado uma mensagem de fim de ano na TV Bandeirantes. “Que ‘m…’: dois lixeiros desejando felicidades do alto das suas vassouras. O mais baixo da escala do trabalho”, disse o âncora, pensando que sua voz estava fora do ar, sem saber que estava sendo propagada em alto e bom som para todo o país. Casoy pediu desculpas, mas ele e a emissora foram condenados a pagar indenização ao gari ofendido.

William Waack segue afastado do comando do Jornal da Globo e corre o risco de ser demitido da Rede Globo. De acordo com o jornalista Felipeh Campos, do programa A Tarde é Sua, a emissora teria dado duas opções ao jornalista: ser correspondente internacional, trabalhando na apuração e produção, sem aparecer nas reportagens, ou rescindir o contrato.

Se podemos tirar alguma lição desses tristes acontecimentos, é a de que devemos abandonar de uma vez por todas esse péssimo hábito cultural ainda encalacrado em nossos dias, que faz com que alguns se julguem melhores, superiores, no direito de subjugar pessoas por sua cor de pele, condição social, profissão, orientação sexual ou qualquer outro traço de sua vivência ou personalidade. Mas, pelo visto, este não foi o primeiro e não será o último caso de presunção preconceituosa entre supostos ícones da nossa sociedade.

 

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