AMANDA NOGUEIRA
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Era o ano de 1977 e o punk ganhava contornos mais concretos com “Never Mind the Bollocks, Here’s the Sex Pistols”, primeiro e único álbum de estúdio da banda inglesa.
As 12 faixas com vocais furiosos de Johnny Rotten, letras que destilam ceticismo e performances deliberadamente provocativas se opunham à moda da new wave.
“Quando eu escutei [o disco] pela primeira vez pensei: ‘está materializado o punk rock'”, diz Ariel Uliana, vocalista da Restos de Nada, pioneira do gênero no Brasil, criada durante a ditadura.
Em uma época sem internet e redes sociais, o movimento se espalhou como se fosse “geração espontânea” ao redor do mundo, define Ariel.
“Surgiu na cabeça de um monte de moleque revoltado, não precisava nem ser com a política, mas com as regras de casa, com as da escola e as do trabalho, a gente era punk antes de ter o nome.”
Quatro décadas depois, o Sesc Pompeia, em São Paulo, celebra a trajetória do punk com apresentações de bandas que deram os primeiros passos do movimento no país e de outras que foram influenciadas por ele.
O evento, que começou no sábado (18), segue até domingo (26) com shows das pioneiras Restos de Nada e Ai5, das veteranas Ratos de Porão e Lixomania e das de pós-punk As Mercenárias e Patife Band.
FIM DO MUNDO
O encerramento relembrará o festival O Começo do Fim do Mundo, organizado por Antônio Bivar, no mesmo Sesc Pompeia, em 1982.
O show reunirá músicos que se apresentaram na ocasião —na época, conta Ariel, tocaram de graça, em troca da gravação de um LP que será a base do repertório de agora.
“Éramos jovens dispostos a tudo, mostrando a sujeira da sociedade, e isso incomodou”, diz Ariel. Para ele, o confronto com a polícia ao final do evento não foi culpa dos músicos. “Foram 4.000 punks e, fora um tapinha ou outro, não fizemos grande encrenca.”
Uma das bandas que tocaram no evento foi a Ratos de Porão, grupo criado em 1981 que se tornaria um das mais duradouras do país —a maioria teve vida curta ou hiatos. Jão, guitarrista e membro fundador, atribui isso à diversidade de estilos incorporados.
“O Ratos nunca perdeu suas raízes de contestação, mas na parte musical incluiu coisas que vão além do punk e isso trouxe uma abertura maior para tocar por aí”, diz.
O rigor ao movimento fica mais atrelado, para Jão, à atitude. Para ele, não há espaço para o politicamente correto nessa cena. “Esses salvadores de tudo estão no lugar errado, o punk é pra ser agressivo, ofensivo, é pra ser rebelde.”
Ariel, por sua vez, reafirma o punk como “foco de resistência”. “Em 1982, a gente teve todas as músicas censuradas”, lembra. “Hoje as pessoas estão pedindo opressão, o punk é ainda mais necessário, mas a juventude está acomodada e as formas de luta não acompanharam os tempos.”

40 ANOS DE PUNK
Quando: até dom. (26)
Onde: Sesc Pompeia, r. Clélia, 93, tel. (11) 3871-7700
Quanto: de R$ 6 a R$ 20
Classificação: 18 anos