A herança da gestão Bacellar: o Coritiba no vermelho

Com o atual presidente, receitas cresceram 23,7% e dívida a curto prazo foi controlada. Mas clube acumula déficits e situação fica ainda mais preocupante com rebaixamento

05/12/17 às 23:00 - Atualizado às 18:27 Rodolfo Luis Kowalski
O presidente Bacellar: aumento nas receitas do clube (foto: Geraldo Bubniak)

O gol marcado por Túlio de Melo no último minuto da partida disputada no domingo (3), na Arena Condá, selou o desfecho trágico não só de um ano repleto de agonia ao torcedor coxa-branca, mas também de uma gestão que, mesmo tendo sido eleita no final de 2014 com o apoio de 62% dos sócios votantes, nunca conseguiu entregar o que do clube se esperava dentro de campo.

Fora dos gramados, porém, a situação que o presidente Rogério Portugal Bacellar deixa para seu sucessor, cujo nome será conhecido no próximo sábado, é “menos pior” (na ausência de um termo mais adequado) do que aquela com que se deparou ao tomar posse, no dia 18 de dezembro de 2014.

Numa primeira análise, a afirmação acima pode soar estranha. Afinal, os balanços de 2015 e 2016 do Coritiba apontam um déficit de R$ 27,5 milhões nos dois exercícios, com o patrimônio líquido do clube (a diferença entre o valor dos ativos e dos passivos) saltando de um negativo de R$ 16,6 milhões ao final da gestão de Vilson Ribeiro de Andrade para R$ 44 milhões negativos. O endividamento total também cresceu, passando dos R$ 229,1 milhões em 2014 para R$ 254,8 milhões em 2016 (variação de 11,2%).

Entretanto, o endividamentto de curto prazo do clube (passivo circulante) foi fortemente reduzido, passando de R$ 104 milhões para R$ 46 milhões (queda de 55,8%) no balanço mais recente, Aliado a uma receita operacional líquida de R$ 102 milhões, o clube conseguiu manter as contas em dia e dar um respiro maior às finanças do clube, com o prolongamento do prazo de pagamento de grande parte de seu passivo. 

Um dos principais fatores envolvidos neste "respiro" que o clube conseguiu é relacionado a dívida fiscal, estimada em R$ 98 milhões. Com o Profut, programa de renegociação de dívidas com o governo por até 20 anos, o clube conseguiu estender o prazo de pagamento em condições favoráveis, sendo obrigado a repassar mensalmente R$ 400 mil ao programa. As dívidas bancárias também foram reduzidas, passando de R$ 43 milhões ao final de 2014 para R$ 13,6 milhões ao final do ano passado.

O grande problema é a dívida trabalhista, referentes a salários atrasados, em R$ 50 milhões, valor que se manteve estável ao longo da gestão Bacellar. Nos últimos meses, inclusive, o Coxa teve de oferecer o seu CT como garantia de pagamento de uma dívida reclamada pelo ex-meia Lincoln, em valor estimado pela defesa do atleta em R$ 9 milhões.

Além disso, é urgente a necessidade de o clube do Alto da Glória encontrar novas fontes de receitas, como inclusive apontam os responsáveis pela auditoria das contas do clube, da Uhy Auditores Associados. "Em 31 de dezembro de 2016, o Clube apresentava um patrimônio líquido negativo de R$ 44.078.327 e deficiência de capital de giro de R$ 35.120.852, evidenciando a necessidade de aporte de recursos financeiros. A continuidade operacional do clube dependerá do sucesso das ações de sua administração, para a geração de novas receitas e equacionamento de suas despesas, custos e de seu endividamento,"

Tal incremente de receita deverá vir da transferência de jogadores, essencial a qualquer clube do futebol brasileiro. Nos últimos anos, o Coxa não tem feito grandes negócios, ao ponto de o valor recebido com transferências de jogadores (R$ 21,2 milhões) ser insuficiente para cobrir os investimentos em categorias de basefeitos no triênio da gestão Bacelar

2018
Rebaixamento pode “sangrar” as finanças do clube
Se em termos financeiros o Coritiba apresentou bons resultados nos últimos anos, por outro lado o rebaixamento do clube à Série B ameaça fazer tudo ir por água abaixo. É que o descenso deve reduzir fortemente as receitas de patrocínio, premiações em competições, sócios e bilheterias.

Desde 2014, por exemplo, o clube tem sofrido uma sangria com relação aos seus associados, fruto dos fracos resultados do time dentro de campo. A receita oriunda do sócio-torcedor, que chegou a ser de quase R$ 22 milhões em 2015, já havia caído para R$ 18 milhões em 2016, uma redução de 20,9%.

Já as receitas oriundas dos direitos de transmissão, principal fonte de recursos do clube, não deverão ser impactadas inicialmente, já que no primeiro ano de Segundona a cota de televisionamento permanece inalterada, em R$ 35 milhões. O problema, porém, é que o único contrato a partir de 2019 é com o Esporte Interativo, e o clube só terá direito a receber a cota se estiver na primeira divisão do campeonato nacional.

O que dizem os candidatos

“Para falar da parte financeira, o Renato Follador Junior vai trabalhar conosco como assessor, 24 horas por dia. Ele já trabalha na reestruturação financeira do Coritiba e me disse: 'não se preocupe com o problema da dívida do Coritiba. Estará equacionada em 20 anos'. O furo hoje é no futebol. São 71 atletas, temos de trabalhar isso, reduzir o elenco e fazer um investimento maciço na base, trazendo um treinador que saiba trabalhar com jovens”
João Carlos Vialle, candidato pela chapa Sangue Verde


“Estabelecemos um perfil de profissionais que queremos no clube. Um dos integrantes do nosso G5 será o economista Glenn Stenger, especialista em finanças, que trabalhará de forma mais efetiva nessa grande dívida que temos e no planejamento a longo prazo. Mas essas dívidas não podem ser justificativa para não termos um futebol competitivo, até porque o futebol é nosso produto principal”
Pedro Guilherme de Castro, candidato pela chapa Novo Coritiba


“O Coritiba, de 2011 para cá, tem um prejuízo acumulado de R$ 97 milhões, que é basicamente orçamento descumprido. Hoje o clube tem três dívidas importantes: a tributária, que está parcelada para pagamento em 20 anos, a dívida do Protork, também de longo prazo, e o passivo cível e trabalhista, que são o grande desafio. Por isso, um dos pilares da nossa chapa é o cumprimento do orçamento, para que o clube tenha equilíbrio financeiro, até porque isso afeta o dia a dia do futebol”
Samir Namur, candidato pela chapa Coritiba do Futuro

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