Conheça o casal paranaense que pretende velejar pelo mundo

Ana Paula e Dymphnus não tinham experiência náutica nenhuma, mas construíram do zero

08/02/18 às 23:00 - Atualizado às 11:09 Rodolfo Luis Kowalski
Dymphnus e Ana Paula, no veleiro ancorado em Itajaí: estilo de vida (foto: Arquivo pessoal)

Construir no quintal de casa um barco que pesa 13 toneladas e possui 44 pés de comprimento certamente não é das tarefas mais fáceis. Se você é alguém que não tem experiência nenhuma em construção naval, então, o processo pode se transformar em uma tarefa hercúlea, mas não impossível. Pelo menos foi isso o que demonstraram os paranaenses Ana Paula de Lima e Dymphnus Vermeulen Júnior.
Em dezembro de 2012, quando moravam em Carambeí, na região central do Paraná, os dois iniciaram o processo de construção do veleiro Bello, um dos maiores barcos (talvez até o maior) já construído em casa, de maneira amadora, no Brasil. Quase cinco anos depois, finalmente finalizaram o projeto, que ‘consumiu’ o carro e a casa da família. Há três meses, moram na Marina de Itajaí, no litoral de Santa Catarina, e agora se preparam para iniciar uma aventura pelo mundo.
A odisseia do casal teve início anos atrás, quando deixaram o município de Mandirituba, na Região Metropolitana de Curitiba onde Ana Paula tinha um salão de beleza, para morar em Carambeí e cuidar do pai de Júnior, que estava doente.“Ficamos dois anos cuidando dele e depois que faleceu fomos para a Ilha do Mel descansar um pouco. Ficaríamos alguns dias, mas acabamos ficando meses e lá descobrimos que viver de calção e chinelo é muito bom”, recorda Júnior.
Ana Paula, então, tomou a iniciativa e o marido acabou gostando da ideia de fazer tudo diferente e mudar de vida. A ideia inicial era comprar um barco, mas as opções que encontravam ou estava fora do orçamento do casal ou era uma embarcação muito ruim.
“Foi quando descobrimos que lá fora o pessoal construía o próprio barco. Compramos então um projeto da Austrália e mandamos imprimir numa gráfica. Deu 23 quilos de papel e fomos executando passo a passo, pesquisando na internet e conversando com gente do ramo, que foi nos auxiliando”, conta o analista de sistemas, que hoje trabalha de seu barco.
Após cinco anos trabalhando no projeto, em novembro do ano passado a embarcação finalmente ficou pronta e foi realizada uma ‘operação de guerra’ para que o veleiro batizado de Belo pudesse entrar em Itajaí.
“Quando chegamos aqui, descobrimos que o caminhão era muito alto para entrar na cidade. Ficamos uma semana morando num posto de gasolina na rodovia até o pessoal ver como fazer para gente entrar. Foi uma operação de guerra”, afirma ele.
Superadas as dificuldades, o casal agora faz os últimos ajustes antes de iniciar no próximo mês uma aventura pelo mundo com o veleiro. “Começaremos pela costa do Brasil, em 2019 vamos para o Caribe e depois para onde o mar nos levar. Não temos mais carro nem casa, nos desfizemos de tudo. Moramos no barco e resolvemos viajar. O fim da história não sabemos ainda, não está programado”, comenta Júnior.

Morar num barco é mais barato que morar numa casa
A Marina de Itajaí, onde moram Ana Paula e Júnior, tem se tornado referência para os velejadores brasileiros que, a exemplo do casal paranaense, pretendem morar em velereiros – prática comum em outros países e que está crescendo no Brasil.
Na Marina, os ‘moradores a bordo’ contam com toda uma estrutura de proteção, com água, luz, restaurante, lanchonete e outros. Para uma embarcação do tamanho do veleiro Belo, o custo mensal para permanecer no local fica em torno de R$ 1 mil, segundo Júnior. Colocando tudo na ponta do lápis, porém, ainda sai mais barato do que morar numa casa em terra firme.
“Quem mora noi barco não tem conta de luz, conta de água, e ainda tem uma diminuição grande nos “Is” - IPTU, IPVA e outros. No final, sai muito mais barato morar num barco do que numa casa”, afirma Júnior. “Quer sair, viajar, pode levar tua casa junto. E o melhor: longe das estradas. É como se fosse um motorhome, mas sem ter de pegar estrada”.

Uma vida de desapego e sem estresse
A palavra-chave para quem deseja morar em alto-mar é ‘desapego’. Na contramão da sociedade de consumo, morar num barco acaba por se tornar uma vida alternativa. “Por outro lado, como você tem essa vida, também não se cobra. Não vou comprar um caro, uma bicicleta é mais útil para mim”, explica Júnior.
Além disso, a vida a bordo também é sinônimo de uma vida sem estresse e com grande liberdade. Só na Marina de Itajaí são cerca de oito famílias que moram em embarcações, tendo desde casais mais velhos até casais com filho pequeno e que saem para trabalhar de manhã. “Todos os estresses que a gente tinha simplesmente desapareceram. Se a pessoa toma algum remédio, vai parar de tomar. É uma baita opção”, finaliza o analista de sistemas.

Do ‘vocês são loucos’ ao ‘quero ser como vocês’

Quandocomeçaram a construir o barco, recorda Júnior, a primeira reação das pessoas era dizer ‘você é louco’, seguido do desalentador comentário ‘isso não vai dar certo’. Até mesmo a mãe de Ana Paula duvidava do êxito na empreitada, sempre ressaltando que jamais iria visitá-los no barco por conta do medo. Hoje, a situação já é totalmente diferente, ao ponto de muitos desejarem seguir os passos do casal.
“Recentemente a minha sogra veio a primeira veaz aqui e passou o dia com a gente. No dia seguinte nos ligou dizendo que adorou e já avisou que vai ficar mais três dias”, conta um orgulhoso Júnior. “As pessoas são muito céticas. Somos criados dentro de um quadrado e qualquer coisa fora disso gera insegurança. Hoje, aquelas mesmas pessoas que duvidavam curtem horrores aqui quando nos visitam, dizem que é muito bom e falam que também querem mudar de vida”, complementa.

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