12º

Palavras que destroem e redimem em "Desejo e Reparação"

07/02/08 às 00:00   |  Luiz Carlos Merten - Agência Estado
Contam os detratores de "Desejo e Reparação", a suntuosa adaptação que Joe Wright fez do romance "Atonement" ("Reparação", no Brasil), de Ian McEwan, que o diretor sequer havia lido o livro ao ser sondado para realizar o filme. Pode até ser verdade, posto que o próprio Wright o disse, ao participar do Festival de Veneza. Mas ele também conta outra coisa muito interessante no dossiê de imprensa que, na verdade, é outro livro, agora sobre o filme. Durante os dois anos que consumiu para realizar sua adaptação, Wright teve tempo de ler muitas vezes o livro de McEwan. Debruçado continuamente sobre o original, ele o (re)descobria a cada leitura. Coisas que estavam escondidas ganhavam um novo significado e, com ele, era toda a história, o próprio conceito da adaptação que ele queria fazer, que mudava.

"Um livro é uma ilusão, um monte de signos e símbolos numa página que criam uma narrativa em nossa mente. Podem existir tantas versões deste livro quantas são os seus leitores. Eu fiz a adaptação que fui construindo em minha cabeça enquanto o lia", diz Wright. "Desejo e Reparação" foi o vencedor do prêmio de melhor filme dramático e melhor trilha sonora no Globo de Ouro.

O filme concorreu também ainda na categoria de melhor atriz coadjuvante de drama, mas o colegiado da Associação dos Cronistas Estrangeiros de Hollywood preferiu indicar a garota Saoirse Ronan à veterana Vanessa Redgrave. Ambas fazem a mesma personagem, Briony, uma na infância, outra na terceira idade. Há uma terceira atriz que também faz o papel - Romola Garai. Ela interpreta Briony aos 18 anos.

Briony é a pedra de toque sobre a qual se constrói o filme. No início, ela é esta jovem impressionável que imagina ter visto alguma coisa e cuja afirmação destrói muitas vezes. Briony adulta, mas ainda não madura, tenta consertar o estrago que produziu na vida da irmã, Cecília (Keira), e de seu amado Robbie (McAvoy). Mais tarde, já idosa, ela encontra na literatura a possibilidade de redenção. Como diz Joe Wright, seu filme é sobre o poder de destruição e redenção contido no ato de contar histórias. Parece simples. Durante 1001 noites, Xerezade inventava uma história por vez, para distrair o sultão que poderia matá-la. Mas o processo pode ser, e muitas vezes é, mais complicado. Joe Wright já havia feito uma boa adaptação de Jane Austen, "Orgulho e Preconceito" - e a escritora lhe fornece a epígrafe para "Reparação", retirada da fala para a senhorita Morlan que discute justamente as aparências, em Northanger Abbey

Mas ele tem consciência do que este filme representa. Define-o assim: "A jornada criativa mais importante da minha vida, até agora."

Tudo o que você escutar de ruim sobre "Desejo e Reparação" - a fotografia é bonita demais, a música é adocicada - pode ser usado a favor do filme. É melodramático? Luchino Visconti, o grande diretor italiano, dizia que Verdi e o melodrama eram suas grandes paixões e, quando os críticos reclamavam do perfume melodramático que encontravam em seus filmes, na verdade, mesmo que quisessem desmerecê-lo, estavam a elogiá-lo, porque era este perfume que ele perseguia. A referência a Visconti é apenas isto, uma frase pinçada entre as muitas que o artista disse. Pois "Desejo e Reparação", apesar da beleza das imagens - aquele campo de papoulas vermelhas pelo qual avançam os soldados será uma lembrança do Claude Chabrol de "Quem Matou Leda?" -, e da música - o tema de Briony foi trabalhado antes pelo diretor com o compositor Dario Martinelli, uma frase musical, plangente, ao piano que se desenvolve numa melodia que reproduz, percussivamente, o ruído de uma máquina de escrever - é muito duro, na sua elegância, para ser melodramático.

Nem Martin Scorsese, ao filmar as esquinas perigosas da aristocracia nova-iorquina nos salões de "A Idade da Inocência", foi mais violento. Toda a tragédia de "Desejo e Reparação" não é só produto da imaginação delirante da garota Briony, mas também é conseqüência da sociedade de classes britânica. Já era assim na adaptação de "Orgulho e Preconceito", mas agora ainda mais. O grito da mãe de Robbie, quando o filho vai preso - ela é interpretada por Brenda Blethyn -, representa a angústia e a impotência dos humildes diante das injunções caprichosas do poder. A palavra de Robbie vale menos do que a de Briony e este é um dos temas de "Desejo e Reparação". Stanley Kubrick via na crise da palavra a dissolução do único elo que une os homens. A palavra que destrói vira literatura que traduz o desejo de reparação de Briony, mas se fosse apenas isto o filme seria, talvez, acadêmico, porque estaria sendo submisso ao livro, desenvolvendo apenas uma reflexão de segunda mão.

Há uma outra reflexão, que vai além da do livro - e da própria sociedade de classes - em "Desejo e Reparação", o filme. Ela se refere ao próprio cinema. O poder destruidor de uma imagem mal interpretada tem de ser resgatado por uma outra imagem que traduz o desejo de reparação. A imagem e o som, sobre os quais se constrói a estrutura audiovisual do cinema, são trabalhados aqui como conceito, não apenas beleza. A decisão de Joe Wright de filmar a cena dos soldados em Dunquerque num só plano, uma longa seqüência de câmera fluida - steadycam -, não nasceu apenas de um capricho ou de uma vontade de mostrar malabarismo técnico. O plano, preparado das 6 da manhã e executado às 6 da noite, em três tomadas, descreve o teatro de operações que vai selar o destino de um dos personagens. Mas o movimento prossegue em relação a um cinema em que está sendo exibido um filme - "Cais das Sombras", de Marcel Carné, com Jean Gabin e Michèle Morgan.

O filme sobre o poder regenerador da literatura vira sobre o poder do cinema. A partir daí, "Desejo e Reparação" toca o sublime. Os cinco minutos finais com Vanessa Redgrave trazem para o trabalho de Joe Wright o ‘pathos’ da própria atriz, a riqueza que sua persona imprime ao que está dizendo. O roteirista ("Ligações Amorosas", de Stephen Frears) e diretor ("Carrington") Christopher Hampton considera "Reparação" um dos melhores livros dos últimos 20 ou 30 anos. Preservar suas qualidades, trabalhando num meio como o cinema, ele diz, foi, mais do que um desafio, uma responsabilidade. O próprio Ian McEwan, que acompanhou o processo, sem interferir, diz que Hampton e Wright fizeram um trabalho de demolição. Foi preciso reduzir um texto de 130 mil palavras num roteiro com menos de 20 mil. A dificuldade era tanto maior porque o romance é muito interior. Passa-se na consciência de vários personagens.

Você pode até continuar preferindo o romance, como se pode preferir "O Processo" de Franz Kafka ao de Orson Welles e o "Leopardo" de Giuseppe Tommaso di Lampedusa ao de Luchino Visconti. Desonesto é levar o próprio preconceito ao limite de não reconhecer que Joe Wright - e seu elenco e o roteirista Christopher Hampton - conseguiu a grandeza de McEwan em excelente cinema, atingindo um público maior que o do romance. 
Publicidade
0 Comentário