14º

Garçom do "Programa do Jô" driblou a timidez para estar na TV

Em rede nacional Alex ganhou espaço no programa justamente pela discrição

22/09/08 às 00:00   |  Agência Estado
Um bom garçom sabe o seu lugar. A premissa repetida pelo chileno Luis Alexandro Rubio Bernales, 45 anos, soaria subserviente não fosse pelo patrão que tem: há 17 anos, ele serve a ninguém menos que Jô Soares. Em rede nacional. Alex, como ficou conhecido graças ao apresentador da Globo, ganhou espaço no programa justamente pela discrição. Parecia que, quanto mais sua timidez saltava aos olhos, mais Jô se interessava em colocá-lo em frente às câmeras. Com o tempo, o incômodo se converteu em fértil visibilidade. Tanto que, hoje, Alex só tem a dizer "gracias" para o chefe.

É que as pontas no "Programa do Jô" mudaram seu status fora da Globo. Como sempre gravou às segundas, terças e quartas, Alex reservava os demais dias para completar a renda como garçom. Só que a fama - e as saias justas decorrentes dela - o fizeram repensar a carreira de garçom freelancer. "Numa ocasião, uma senhora me reconheceu e pediu para eu dançar música latina com ela. Fiquei sem graça, mas dancei, mas só um pouquinho senão o marido dela me matava. Claro que o maître ficou chateado comigo", conta, às gargalhadas. Desde então, aumentou o cachê e modificou o tipo de serviço que oferece. Usou o potencial de "latin dancer" que a senhora da festa descobriu, por conta do sotaque hispânico, para se tornar um garçom de luxo, com direito a ser barman e apresentar eventos.

O sotaque, aliás, está amenizado. Ele veio de Santiago para o Brasil em 1985 e logo conheceu sua mulher até hoje, a também chilena Elisabeth - a única a desfrutar de seus dotes de dançarino na noite paulistana. Moram no bairro do Ipiranga, em São Paulo, onde quase sempre ele passa despercebido.

A mesma invisibilidade, reforçada pela timidez "traumática", é reproduzida no estúdio de gravação. Alex é daquele que só conversa quando chamado, e olhe lá. "No começo, ficava roxo e gago (quando Jô o abordava no ar), hoje fico menos nervoso." Suas atitudes quando a câmera está desligada são semelhantes, apesar de dar boas risadas ao lado de Bira e companhia, com as tiradas de Jô. Mas para por aí. "Teria medo de perguntar o que Jô pensa sobre mim e escutar uma resposta que não me agrade. Poderia não me recuperar nunca mais", fala, rindo. Alex sequer se atreve a revelar o conteúdo da caneca célebre que leva ao balcão. "Quebraria o princípio básico do garçom se contasse. Posso dizer que é líquido, refrescante e não alcoólico."

O garçom só escorrega na discrição quando explica porque considera Jô um amigo, a despeito da reverência. "Dizem que você sabe se uma pessoa é seu amigo quando ela te empresta dinheiro, não é? Então posso dizer que o Jô é meu amigo, porque até isso ele já fez por mim." Alex jura que só não tem mais proximidade com o apresentador por ele ser "um homem público, que precisa de privacidade".

O discurso cheio de bom-mocismo tem a ver com a história de Alex Ainda "cru" como garçom, entrou por fatalidade para a equipe de Jô Soares. Seu primo, com quem morava, ocupava o posto de garçom do "gordo" até ser assassinado em 1991. A ironia foi que, no próprio velório, Alex recebeu o convite para substituir o falecido. Enxugou as lágrimas e topou na hora. "O show continua, né?" Continuou. Desde então, jamais recebeu proposta de outra emissora ou teve pretensões artísticas. No máximo, gostaria de montar um restaurante próprio. Mas deixar de servir a caneca de sei-lá-o-quê para Jô, jamais.
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