Overdose de vida

29 agosto, 2014 às 09:02  |  por Erol Anar

 

Observe nas lojas do shopping…

os bonecos plásticos

apresentam  roupas nas vitrines…

Todos tem um rosto perfeito,

o corpo também…

Porém, são de plástico,

sem almas!

 

Tem gente que prefere só a capa,

não se importa com a alma…

mas na verdade a história real não esta na capa

e sim

dentro da revista…

Pura verdade!

Chega uma hora que

não tem mais como ficar somente lendo a capa,

quem fica na capa fica infeliz,

insatisfeito…

 

Por isso normalmente

os famosos e

ricos

ficam sem almas,

sem amores reais,

sem satisfação…

 

Enfim morrem ainda jovens…

um dia são encontrado na cama…

overdose de vida…

Demoram a se dar conta disso

ou nunca se dão conta…

podem comprar  tudo,

menos felicidade

e sossego…

Fato consumado!

Tudo que falo é verdade,

a fama é um fogo

dando luz pra ela mesma

queimando a pessoa famosa

como se fosse uma vela…

 

Erol Anar

“Os Poemas de Maio”

A curiosidade

28 agosto, 2014 às 16:42  |  por Erol Anar

Dizem que

A curiosidade mata o gato.

_O que tem aí dentro?

Perguntou o homem.

A mulher sem olhar  respondeu:

_Está cheio de merda!

_Posso ver?

-Não!

_Agora fiquei mais curiosa ainda, falou homem.

A Mulher nem olha cara dele

_Vá se foder rapaz!

 

Erol Anar

“Os Poemas de Maio”

 

A mão invisível da vida

21 julho, 2014 às 10:27  |  por Erol Anar

 

- Gosto de ser livre, principalmente.

-Você se sente livre?

Consegue ser livre?

A mulher perguntou assim para o homem na sua frente.

 

O homem pensou e disse:

- Ás vezes sim, me sinto livre,

mas ás vezes não.

Na verdade a vida é muito curta,

não sabemos viver e aproveitá-la completamente.

Pensamos como se ainda tivéssemos mais cinco vidas além…

 

- Pois é! Por isso tem que ser vivida intensamente,

Conheço muitas pessoas que vivem

como se nunca fossem morrer.

 

-Isso mesmo!

Cheirar uma flor,

beber um suco,

fazer tudo intensamente…

 

O homem olhou nos olhos dela e continuou:

-Ás vezes respirar é muito difícil.

Porém, continuamos vivendo…

Uma mão fecha nosso nariz e nossas bocas,

não podemos respirar por um tempo,

depois  de quase morrermos,

ela se afrouxa e nos deixa respirar novamente.

 

 

- É verdade! –  disse a mulher enquanto

jogou  para trás seus cabelos com uma de suas mãos:

- Em menos de um minuto

podemos não estar mais aqui nessa vida,

porém aquela mão sufocante sempre nos deixa se afogar.

Só nos faz sofrer.

Por isso quando algo fecha nosso rosto

Ficamos com a sensação de um escuro,

de um pesadelo sem saída.

 

O homem pareceu pensativo dessa vez:

- Deixo as coisas acontecerem no seu tempo…

Vou observando o rio andar

e vou junto pra onde ele me levar.

Ele parou um pouco e olhou distante:

Se você não esperar nada, não vai se decepcionar…

Quando  era criança

nós tínhamos um riacho, passava atrás do nosso bairro.

Ás vezes fazíamos barquinhos de papel

para seguirem na correnteza dele…

Depois olhávamos para o curso do rio

Na verdade o barco de papel era minha vida

ás vezes era impedido por alguma coisa no caminho,

ás vezes corria para o outro lado …

Então, queria comparar a vida com um barco de papel…

ás vezes frágil,

a qualquer momento pode se afogar,

cair,

mesmo assim anda sempre para a frente,

é uma coisa maravilhosa.

Tanta tristeza passamos,

se fossemos de ferro até poderíamos vencer as ferrugens…

 

Eles estavam na beira de um rio.

Enquanto o home ia contando sua história…

A mulher fez um barco de papel

e o jogou para o rio.

O barco se balançou um pouco depois,

foi pra na frente com a correnteza d´água.

Então, eles ficaram em silêncio

e olharam o papel em forma de barco se afastando dali…

 

A mulher falou :

- Nossas vidas parecem barcos de papéis,

vivemos com tantos riscos,

a cada minuto podemos morrer por causa

de doenças,

ou alguém pode nos matar,

ou podemos morrer num acidente…

O homem balançou sua cabeça concordando:

-Como esse barco de papel,

pode afundar a qualquer minuto…

Como a vida…

O barco de papel foi longe e desapareceu…

Eles ficaram pensando ali sobre suas vidas …

 

Erol Anar

“Os Poemas de Maio” 2012

Os Caminhos de Gaza

19 julho, 2014 às 10:03  |  por Erol Anar

 

Depois de participar da reunião sobre os 50 anos de violações dos direitos dos palestinos, organizada pela Associação LAW, dos direitos dos palestinos, fomos visitar Gaza. Na fronteira entre a palestina e Israel esperamos duas horas para entrar na Palestina e agora estamos nela, à esquerda estão jardins de laranjeiras e a direita, nos acompanhando, o mar. Há um cheiro forte de laranjeira misturado com cheiro do mar. Faz muito, muito calor, mas as laranjeiras e o mar dão uma sensação de frescor. Os rastros da pobreza estão sobre todos os lados, vemos que começam a construir alguns prédios altos, e perto de Gaza estão construindo um aeroporto internacional chamado Yaser Arafat. Assim poderão voar diretamente para a Palestina. Os palestinos lutam há 50 anos para recuperar suas terras ocupadas, eles pagaram caro o preço dessa guerra. Agora essa região está com quatro e meio milhões de palestinos e cinco milhões de judeus. Mas nos outros países há cinqüenta mil palestinos e oito milhões de judeus. Apesar do pacto de Oslo ninguém acredita na paz, há um ar de desesperança e os palestinos querem continuar a luta, isso pode ser visto nos rostos deles. Outra tragédia foi depois de fundarem o governo da palestina, a polícia matou mais de quarenta palestinos nas terras deles. Essa realidade paradoxal foi descoberta pela Associação de direitos humanos palestina.

Nós estamos passeando por um grande campo de refugiados chamado Jebelle, aqui noventa mil pessoas vivem, ao nosso lado centenas de crianças apareceram para tirarmos fotos juntos. Entre 1987 e 1981 havia rebelião (intifada), eles eram pequenos generais palestinos, agora cresceram e tornaram-se meninos e meninas. Mas agora as crianças fazem o “V” de vitória com seus dedos, andam sem sapatos em cima da poeira. Há as crianças empinando pipas pelo céu e mulheres sentadas em frente as portas nos sorriem timidamente. Estou sentindo a profunda pobreza aqui. Os nomes das ruas são de nacionalistas e guerrilheiros palestinos mortos. Por exemplo, uma das maiores ruas da cidade é Omer El Muhtar, o líder nacional da Líbia. No dia 09 de junho foi assassinado um menino palestino pelo exército israelita. Os palestinos fizeram manifestações contra isso. Quando estávamos em Gaza escutamos que em Jerusalém aconteceu uma passeata feita por pacificadores, mas foram atacados pelos policiais e ficaram machucados. Uma mulher americana representante de uma associação de direitos humanos me contou que durante a Intifada (rebelião), ela viu como o exército matou uma criança.

Na mesma noite abandonamos a Palestina e voltamos para Jerusalém, quando estava caindo o cansaço de uma noite sob as laranjeiras, enquanto as ondas cinzentas carregavam as canções de tristezas para as praias, testemunhas de muitas coisas. As crianças pisavam em seus sofrimentos em baixo dos pés descalços e ficaram para trás. Gaza parece um passarinho de “ebabil” (um passarinho de fábulas). Nos campos ficaram os refugiados pobres e lutadores, as laranjeiras…isso tudo é o passarinho “ebabil”com as asas sangrando. Agora está bem escuro, não vemos mais laranjeiras, o mar e nem as crianças, pois eles ficaram para trás, mas os seus sofrimentos ainda permanecem na nossa frente.

Gaza
Junho de 1998

“O Amor Já Acabou”de Erol Anar

Erol Anar, Gaza-Palestino, 1998

Erol Anar, Gaza-Palestina, 1998

As vidas em segunda mãos

17 junho, 2014 às 14:22  |  por Erol Anar

Estamos vivendo

as vidas que em  segunda mãos

como se vivesse as vidas dos outros

não temos almas ou

temos almas segunda mão

falou a mulher

 

O homem esta pensando

riu de repente e

seu dente quebrado apareceu

Assim ele parece horrível

Perguntou:
Então os ricos e famas vivem o que

 

A mulher sorriu e fala

Eles vivem  amores segunda mãos

assim semi novos

 

O homem riu

seu dente quebrado apareceu de novo

Então falou

Eu prefiro viver as vidas quebradas

do que viver amor segunda mão

 

A mulher beijo nele da boca e diz

Eu também baby

 

Erol Anar

“Os Poemas de Maio”

Fadime (II)

5 junho, 2014 às 13:16  |  por Erol Anar

 

O trem está correndo na sua direção…

Eu estou dentro dele…

Enquanto ele chega mais perto de você, Fadime

Eu vou para mais longe …

O trem, você e eu

estamos correndo em direções diferentes…

O trem está correndo numa velocidade cruel e arriscada

e arrasta até você no meu coração…

 

Ver ou não ver,Fadime

eis a questão!

Tocar em suas mãos, cabelos…

perder-me nas ruas do seu coração…

Porém, a indecisão é uma égua cujas crinas flutuam ao vento,

ela corre no meu sangue…

Ver ou não ver, Fadime!

Como morrer e não morrer,

eis a questão!

 

Você é meu nirvana, Fadime…

Eu me sinto em liberdade nas montanhas que existem dentro de você

Estou com saudade do seu rosto que nunca vi,

Das suas mãos e cabelos também…

Não posso esquecer seu cheiro…

Porém, como eu disse:

o que estou buscando não é você,

e é você…

Estou feliz,  Fadime…

No seu jardim de tristeza

Com minha melancolia

cor de cereja…

 

O trem de Paris para Strasbourg

Erol Anar

 

Monet

Monet

 

 

 

 

 

O mar para todo mundo lhes parece um oceano

3 junho, 2014 às 08:59  |  por Erol Anar

Queridos sonhos distantes,

 

Eu sei o seguinte, quem ultrapassa seus precipícios vai conseguir ultrapassar também os precipícios entre ele mesmo e as outras pessoas. O que é a vida? É o total dos precipícios! Haverá certo equilíbrio se você conseguir andar em cima da corda bamba, mas se você não conseguir não terá recuperação você irá cair.

 

Depois que conversamos sobre as complicações do ser humano, você disse: _ “O ser humano tem um metabolismo complicado. Se eu fosse realmente humano e quisesse entender a vida com meu coração e meu corpo, poderia me comunicar com as pessoas ao meu lado e respirar profundamente, então, a vida seria carregada pelos meus ombros. A vida me daria problemas e eu ficaria com eles encontrando soluções”.

 

Você tem razão, talvez, mas a vida não nos dá apenas problemas, ela nos dá soluções eternas. Nós temos que entender os problemas primeiramente, sem pensar na solução, o mais importante é entender o problema do que solucioná-lo. Falamos que para cada um, seu mar parece um oceano, isso é verdade, cada pessoa fica com seus problemas e vive sua vida a seu modo, porém muito poucas pessoas embarcam no seu navio para o oceano maior das possibilidades que estão dentro deles como recursos.

 

Sim, nossos navios estão ainda nos esperando, mas eles não vão esperar eternamente.

 

Com amor,

Ancara, 01 de agosto de 2001

 

“Café da Manhã Existencialista” de Erol Anar

 

Minha entrevista com o cartunista brasileiro Carlos Latuff

28 maio, 2014 às 08:57  |  por Erol Anar

Carlos Latuff é um  cartunista e ativista político brasileiro.Latuff iniciou sua carreira como ilustrador  em 1989 numa pequena agência de propaganda  situada no centro do Rio de Janeiro. Tornou-se cartunista depois de publicar sua primeira charge  num boletim do Sindicato dos Estivadores, em 1990 e permanece trabalhando para a imprensa sindical até os dias de hoje. Infelizmente ele foi ameaçado de morte diversas vezes.

 latuff

Olá Carlos. Obrigado por ter aceitado minha entrevista com você. Você é  ativista do sindicato e caricaturista, qual a conexão dessas atividades  para você?  O que você pode falar sobre isso?

Comecei minha carreira de cartunista em 1990 na imprensa sindical, para a qual trabalho até hoje, a princípio porque outras portas haviam se fechado, mas hoje tenho uma identificação também ideológica com estes veículos.

 

Caricatura é uma arte revolucionária; ela é sempre a respeito de uma oposição e ao mesmo tempo uma crítica. Falando uma verdade grande e simples, internacionalmente. Por que você escolheu ser uma caricaturista?

Inicialmente pensava em fazer quadrinhos de ação, mas o mercado brasileiro só reproduzia o que vinha de fora, pouco criava e quando criava não tinha espaço porque o mercado estadunidense da Marvel e DC Comics já tinha tomado conta. Mas hoje percebo que fui talhado para a charge, já que em quadrinhos de heróis eu não poderia exercer o mesmo tom crítico e ácido que aplico em minhas charges.

 

Na Turquia, durante a resistência do Gezi, foram publicadas suas caricaturas políticas nos jornais ou web sites de oposição esquerda. Você esta ficando conhecido na Turquia. O que você vê olhando a Turquia do lado de cá?

Estive em Istambul em 2010 e pude ver com meus próprios olhos que a Turquia é um estado policial nos moldes classicos. Um sujeito como Erdogan, um discurso paternalista, que manipula a religião a seu favor, que usa a polícia contra a oposição de esquerda e os Curdos, que tem uma cara para os Palestinos e outra para Israel. A Turquia é um lugar perigoso para quem pensa diferente do establishment. Me surpreende como os cartunistas turcos conseguem fazer as críticas que fazem sem serem presos ou mortos.

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No Brasil, vejo muitos artistas, jornalistas, caricaturistas que só interessam a respeito de atualidades do Brasil. Você fez caricaturas sobre o oriente médio, Estados Unidos, Egito, Ucrânia, Rússia, Europa, Brasil… Por que você se interessa para além da realidade brasileira, mas pelo mundo inteiro?

Sempre achei a realidade fora do Brasil mais interessante para retratar. Temas internacionais sempre foram os meus favoritos, desde quando era adolescente e ouvia notícias da Radio Moscou pelo rádio de ondas curtas.

 

Os protestos dos povos do Brasil e da Turquia ocorreram quase ao mesmo tempo no passado. O que manda os povos para rua para protestar com tanta força contra os seus governos? Capitalismo, neoliberalismo? O que você  diz sobre isso?

Insatisfação. Estes protestos são a prova que, a despeito da propaganda oficial, as pessoas NÃO estão satisfeitas.

 

Vi algumas de suas caricaturas. Você também critica o governo de Dilma no Brasil e o governo do Erdogan na Turquia, tem coisas em comum entre eles, o que você pensa?

Não são regimes idênticos, a Turquia não é o Brasil, e vice versa. Podemos falar sim de algumas semelhanças, principalmente no que se refere a violência policial. Posso afirmar que, atualmente, o Rio de Janeiro, por exemplo, é um estado policial, só que não tão evidente como em Istambul. Porém, quando tratamos da realidade das favelas do Rio, podemos até mesmo traçar um paralelo entre as ações militares turcas contra os curdos. A polícia do Rio se assemelha a tropas de infantaria, só não usam RPGs e mísseis, mas de resto, possuem fuzis, metralhadoras, blindados e mesmo helicópteros militares modelo UH1H.

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Como um caricaturista enxerga quando olha a realidade, ampliando seu olhar pelo mundo?

Percebo que seja em Istambul, nas favelas do Rio ou nos campos de refugiados palestinos, o inimigo é o mesmo. Mudam-se os nomes, as religioes, as culturas, a geografia, mas o inimigo é sempre o mesmo.

 

As Esculturas

26 maio, 2014 às 11:08  |  por Erol Anar

Éramos duas esculturas,
nos reclinávamos,
você e eu,
lado a lado…
Numa praça tumultuada
de uma cidade velha,
Nós fomos para o abrigo
dos pombos machucados,
Nossa estrutura de pedra sangrava por dentro
sem parar,
Apesar disso
Sorriamos…

Do livro “Amores e solidâo” Erol Anar

The Kiss by Gustav Klimt OSA211

The Kiss by Gustav Klimt 

 

Uma escada quebrada

21 maio, 2014 às 09:16  |  por Erol Anar

Eu subi até você por uma escada quebrada,

mas todas as portas estavam fechadas

para o amor, o tempo e a vida…

Parecia uma matruska ,

você estava escondida  dentro de você mesma…

Mas eu sou uma pessoa

que  aprende enquanto perde,

E que quando  erra tenta de novo,

que lembra enquanto esquece,

que quando vai para longe

ao mesmo tempo fica mais perto…

Eu sou um viajante que ainda não sabe seus segredos

e  me movo continuamente,  no caos que existe dentro de mim…

 

Do livro “Amor e Solidão” de Erol Anargustav-klimt-painting2