skank 2

Tributo a Skank reúne 34 bandas da nova geração – 4 são paranaenses

22 março, 2017 às 11:03  |  por Cristiano Castilho

Da batida reggae do início da carreira, até escancararem suas influências de rock inglês e do Clube da Esquina em trabalhos recentes, poucas bandas na história da música pop nacional foram tão bem sucedidas como o Skank. Se você ligasse o rádio há 20 anos, as chances de ouvir a banda mineira seriam enormes. “É Uma Partida de Futebol”, “Eu Disse a Ela”, “Tão Seu” e o megahit “Garota Nacional” estavam invariavelmente entre as músicas mais pedidas. Elas estão no disco “O Samba Poconé”, lançado pelo grupo de Samuel Rosa há duas décadas. O álbum, terceiro do grupo, foi o sucessor de “Calango”, também sucesso de vendas, que trazia “Jackie Tequila” e o cover de “É Proibido Fumar” como unanimidades. 

skank

É essa mistura de musicalidade, inovação, pegada pop e reconhecimento que motivou o site Scream&Yell a produzir a Coletânea “Dois Lados”. Mais que uma homenagem ao Skank, é uma forma de revisitar uma das bandas de maior sucesso da música brasileira, com releituras de 34 artistas da nova geração – Dani Black, Francisco el Hombre, Wado, Graveola e Garotas Suecas estão entre elas.

Quinze estados estão representados – veja lista completa abaixo. Aqui da terrinha, Ana Larousse e Leo Fressato interpretam “Tão Seu”; A Banda Mais Bonita da Cidade canta “Canção Noturna”. Tuyo, que participou do The Voice Brasil, escolheu a música “Três Lados”; e Nevilton ficou com “Te Ver”. A trajetória do Skank foi marcada por um flerte com o pop radiofônico, que os levou ao topo das paradas durante anos e abriu caminho para toda uma nova geração não só de Minas Gerais, mas do país inteiro, entusiasmada pela possibilidade de fazer música de qualidade e com forte apelo popular. 

skank 2

O lançamento de “Dois Lados” está previsto para a primeira semana de junho. Será um álbum duplo, com 30 faixas e 3 bônus track. O produto final será disponibilizado para streaming e download gratuito na página do Scream&Yell e em seus perfis nas redes sociais.

O projeto “Dois Lados” foi idealizado e produzido pelo mineiro Pedro Ferreira, responsável pela homenagem ao Los Hermanos em 2012 (a coletânea “Re-Trato”), e pela homenagem a Milton Nascimento e o Clube da Esquina em 2015 (a coletânea “Mil Tom”). O disco ainda contará com a artista Luyse Costa, ilustradora encarregada pelo projeto gráfico dessas homenagens.

 ==========

Quem participa:

A Banda Mais Bonita da Cidade (PR) 
Ana Larousse e Leo Fressato
 (PR)
Ana Muller (ES)
AnaVitória (TO)
As Bahias e a Cozinha Mineira (SP)
André Abujamra (SP)
Cobra Coral (MG)
Costa Gold (SP)
Dani Black (SP)
Esteban (RS)
Fernando Anitelli (SP)
Francisco El Hombre (SP)
Garotas Suecas (SP)
Graveola (MG)
Ian Ramil (RS)
Jéf (RS)
Lulina (PE) 
Manitu 
(MG)
Medulla (RJ)
Nevilton (PR)
Phillip Long (SP)
Phill Veras (MA)
Quarup (SP)
Rico Dalasam (SP)
Selvagens à Procura de Lei (CE)
Seu Pereira e Coletivo 401 (PB)
Sr. Gonzales (DF)
Teago Oliveira (Maglore) (BA)
The Baggios (SE)
Transmissor (MG)
Tuyo (PR) 
Wado (AL)
Zé Manoel (PE)

O escritor João Carrascoza conversa com a pesquisadora Eliana Yunes na mesa "Ler o Mundo". No sábado, 15h.

Autores latino-americanos debatem literatura em evento gratuito

20 março, 2017 às 11:07  |  por Cristiano Castilho

Mais um evento de literatura se soma a outros como o Litercultura, o Curitiba Literária e encontros na Escola de Escrita, que, vez em quando, fazem da cidade inventada um bom lugar para se discutir aquela velha história de colocar uma palavra na frente da outra. A bola da vez é o Janelas de Leitura. Realizado pela Freguesia do Livro, o evento se propõe a colocar em foco a leitura – e consequentemente a literatura – em suas mais diversas manifestações, “para que se possa discutir, refletir e pensar sobre o seu papel e seu poder de transformação, aproximando as mais diversas áreas do conhecimento, como as artes, a cultura e a educação.”

Totalmente gratuito, o Janelas de Leitura terá palestras, mesas de debate, oficinas e presença de importantes nomes da literatura da América Latina, caso do escritor argentino Mempo Giardinelli, criador de uma fundação dedicada à leitura; a carioca Eliana Yunes e o paulista João Carrascoza; e os pratas da casa José Carlos Fernandes, Etel Frota, Luci Collin, Luís Henrique Pellanda e outros.

O escritor João Carrascoza conversa com a pesquisadora Eliana Yunes na mesa "Ler o Mundo". No sábado, 15h.

O escritor João Carrascoza conversa com a pesquisadora Eliana Yunes na mesa “Ler o Mundo”. No sábado, 15h.

O primeiro encontro acontece às 20 horas da próxima quinta-feira (23), com a palestra “Uma Nação de Leitores”, proferida por Mempo Giardinelli. A programação segue até domingo (26), com destaque para a mesa “Caminhos Para a Leitura no Brasil”, com José Castilho, Zoara Failla e José Carlos Fernandes.

As oficinas ofertadas, também gratuitas, são “Microcontos: Um Vasto Mundo”, “Formação de Mediadores de Leitura” e “Clarice: Uma Aprendizagem”. O grupo Garibaldis e Sacis faz o show de encerramento, no domingo. Todos os eventos acontecem no espaço “Encontro da Amazônia” – Rua Nilo Peçanha, 1907, no Bom Retiro.

Mais informações e o formulário para se inscrever nas palestras e debates você encontra aqui.

Crédito: Paulo Rorschach

Hounds divulga clipe e lança álbum por selo inglês

9 março, 2017 às 12:06  |  por Cristiano Castilho

Folk cigano e americano, a musicalidade suja dos cabarés europeus e uma pitada de música brasileira. Disso é feita a banda Watch out for the Hounds, que nesta quinta-feira, a partir das 7 da noite, na deliciosa Casa 102, lança o clipe de “Gasoline”, single do álbum “XIII”, que sai no dia 23 de março pelo selo inglês Rare Candy. Além da première do clipe, os Hounds prepararam um show especial para a ocasião, no aconchegante casarão do bairro São Francisco. Drinks e camisetas da banda, assinadas pelo artista Daniel Imaeda, estarão à venda no local.

Crédito: Paulo Rorschach

Crédito: Paulo Rorschach

Dirigido por Bernardo Rocha e Carol Winter, o vídeo foi gravado ao vivo em fevereiro do ano passado, durante um show da banda no porão de uma casa na Rua Trajano Reis. O áudio foi captado durante a apresentação e virou uma das faixa do novo álbum – tive o privilégio de ouvir a música, e está finíssima.

A Watch out for the Hounds é formada por André ‘Sid Hound’ Osna nos vocais; Nikolas ́Niko Hound’ Quadros no violão e banjo; William ‘Will Hound’ França no violão, bandolim e banjo; Carolina ‘Caro Hound’ Pisco na bateria e percussão e Roberta ‘Betchenka’ Semchechen no violino e gaita. As letras, em inglês com alguns momentos em português, falam sobre a vida noturna e a busca sem fim pelo autoconhecimento no hedonismo.

Em 2013, acompanhei uma das primeiras apresentações da banda, num sábado, no Sebo Acervo, na Rua Saldanha Marinho – o relato está aqui. Percebi influências de Tom Waits em comunhão com Jack White, Laura Marling, Gogol Bordello, Flogging Molly e até Andrew Bird – o fantástico whistling man foi homenageado com um cover digno naquela tarde de sol.

Com destaque no sul, os Hounds também já se apresentaram em São Paulo em endereços festejados como o Clube Secreto. O videoclipe de “Not Far Enough, parte do EP “Release the Hounds” (2014), recebeu os prêmios Gold Favorite A&R, Gold Song A&R e Gold Video A&R pelo site Beat100.

 

*********

SERVIÇO:

Watch Out For The Hounds – show e lançamento do clipe “Gasoline”

Data: 09 de março, quinta-feira, 19h

Entrada gratuita

Local: Casa 102 – Rua Julia da Costa, 102, São Francisco

cena 1

Cena Paisagem: desenhos musicais na liquidez do cotidiano

8 março, 2017 às 14:12  |  por Cristiano Castilho

A cidade é o maior dos palcos. Cenário instável, de encontros improváveis e desencontros premeditados. Da liquidez do nosso tempo, pouco apreendemos do que nos cerca – por mais que lutemos contra o sufoco daquilo que nunca para.

Novo lançamento do selo Onça Discos – com exclusividade aqui no Pista 1 – o EP “Lusco Fusco”, primeiro do grupo Cena Paisagem, faz um recorte ao mesmo tempo sensível e crítico deste tempo novo, em que urgência é retratada na batida do rap e a reflexão concebida por meio do jazz e da música brasileira – fugas sempre possíveis.

cena 1

Cena Paisagem (ouça abaixo) é o encontro de Rodrigo Pinto (voz), Kelvin de Souza (teclado, synth, beats e desenho de som), Matheus Mantovani (adlibs, guitarra e violão) e Hudson Müller (saxofone e trompete). Um som legitimamente contemporâneo, que flerta com a música concreta ao mesmo tempo que soa sexy e insinuante.

As cenas vão surgindo a partir de lembranças, conclusões, jogos de palavras que vão se encaixando”, explica Rodrigo Pinto, que faz as letras e dá voz ao grupo. O desenho do som, diz Kelvin de Souza, começa com uma base simples. Tempo e dinâmica são apresentados, e aí são trabalhadas variações sobre a letra e o “flow”.

cena 2

Cena Paisagem é o resultado de um encontro natural. “No começo as músicas eram feitas de uma maneira mais individual. Me preocupava mais com os arranjos de violão e guitarra. Quando eu e Rodrigo começamos a morar juntos, e com o Kelvin sempre aqui, passamos a compor e a escrever de forma mais coletiva”, conta Matheus. Os ensaios e as gravações acontecem nas alturas. O grupo transfigurou a casa em estúdio. Camas e armários dividem o ambiente com teclados, controladores, monitores de som, pedestais, microfones e outros instrumentos. O apartamento, no 13º andar de um prédio perto da Praça Rui Barbosa, também é sede do Onça Discos - selo do qual fazem parte artistas e bandas como Gabriel Gariba, Francisco Okabe, Ireno e Cão Baleia. A casa/estúdio é frequentada por compositores, músicos e artistas locais. E dia desses rolou até uma festinha para reunir todos os envolvidos neste rolê autoral. 

Ouça o EP “Lusco Fusco”, do Cena Paisagem:

ceu

Entrevista – Céu: “Kraftwerk é uma referência enorme para mim”

20 fevereiro, 2017 às 14:54  |  por Cristiano Castilho

Céu ouvia o disco “Refazenda” (1975), de Gilberto Gil, antes de atender o telefone para conversar com este repórter. A quatro dias do Festival Psicodália, a paulistana de fala curta reverbera o que já se sabe sobre o evento de música e cultura (e utopismos bem-vindos neste mundo já tão estranho): “Dizem que tem uma vibe maravilhosa, um clima meio Woodstock. Para nós, que estamos no palco, é a melhor energia. Estou empolgada”, diz a cantora, que se apresenta às 20h de terça-feira (28) no Palco Lunar.

>> “Psicodália: o que levar e como ser feliz”, um guia do Defenestrando

Tropix” (2016) é o álbum a ser ouvido por lá. Se o ponto de partida de sua carreira foi “Céu” (2005), disco influenciado pelo samba indicado a três Grammy, se em “Vagarosa” (2009) se inspirou na música jamaicana e o cinematográfico “Caravana Sereia Bloom” (2012) a levou a fazer mais de 300 shows em 20 países, “Tropix” é uma espécie de rallentando sintético dessa carreira em constante evolução.

ceu

Noturno porém reluzente, o álbum é um mergulho num universo de texturas artificiais que atravessa diferentes experimentos sonoros da segunda metade do século 20 – o trip-hop dos anos 90, a discoteca do final dos 70, o R&B dos 80 e o casamento quase sempre pacífico entre o hip hop e a música eletrônica. O ponto de partida para essa viagem particular, quem diria, foi o Kraftwerk.

Na época em que pensava no próximo disco estava lendo a biografia do Kraftwerk [“Kraftwerk Publication”, de David Buckley]. É uma referência enorme para mim. E também ouvindo krautrock e coisas como Sonic Youth e The Cure”, conta Céu. Ela admite que não são sonoridades que conversam necessariamente com seu universo musical, mas que mesmo assim quis trazê-las à tona, em sua própria linguagem “orgânica e tropical.”

A cozinha continua a mesma: Pupilo, maestro e baterista da Nação Zumbi, e o baixista Lucas Martins. Mas, em vez da guitarra, Céu queria um power trio com teclado. Por isso chamou o francês Hervé Salters, grande responsável pelo conceito de “Tropix”. Líder do grupo de funk eletrônico General Eletricks, Hervé tocou com Femi Kuti (filho mais velho de Fela Kuti), Mayer Hawthorne e DJ Mehdi e passou por São Francisco na virada do século, quando começou a trabalhar com a cena de hip hop local (com nomes como Blackalicious). Sua sensibilidade sintética – e notória compulsão por colecionar teclados e instrumentos eletrônicos antigos – já lhe rendeu o rótulo de “Ennio Morricone do século 21”.

Além de ser um músico brilhante, Hervé traz também um olhar afastado do Brasil. Quando a gente está dentro, muito inserido num sistema, acabamos por perder algumas nuances. Ele foi importante por me fazer ver o que eu não conseguia enxergar”, resume a paulista, que não deixou de buscar inspiração em sua própria trajetória para compor “Tropix”. No álbum, há letras íntimas como a da caribenha “Varanda Suspensa”, que recria os nostálgicos encontros com seu avô no litoral de São Paulo; e a de “A Menina e o Monstro”, composta quando Céu percebeu o susto que a filha teve quando começou a aprender a ler – ao perceber que tudo ao redor dela era texto. “Eu não sei compor de outro jeito. É sempre um retrato sobre algo que estou pensando, refletindo, sonhando…”

Há outra curiosidade sobre “Tropix”: a releitura de “Chico Buarque’s Song”, do obscuro grupo alternativo paulistano Fellini, um universo lo-fi dos anos 80 recém-descoberto pela cantora. “Sou da década de 80, ouvi muito esse tipo de instrumentação. Aqueles teclados com notas meio desconstruídas… eram coisas que queria trazer para o ‘Tropix’. Por isso, acho, o disco tem um perfume retrô.”

Quem mais?

Outras atrações confirmadas para o Psicodália são Ney Matogrosso, Sá & Guarabyra, Erasmo Carlos, Cálix, Perota Chingó, Recordando o Vale das Maçãs, Metá Metá e Trombone de Frutas, com a participação de Di Melo.

Serviço

Psicodália 2017

24/02 a 01/03/2017

Fazenda Evaristo, em Rio Negrinho (SC)

Mais informações: www.psicodalia.com.br

 

onça-discos

Selo curitibano Onça Discos promove domingo autoral

9 fevereiro, 2017 às 09:32  |  por Cristiano Castilho

Raça, alguns perrenguezinhos intrínsecos à proposta e muita vontade de fazer acontecer. Criado no ano passado, o projeto Onça Discos lança obras de artistas com repertório autoral. Sim, é um selo curitibano. Mas vai além. A ideia de Kelvin de Souza, Matheus Mantovani (estes integrantes da banda Ireno) e Rodrigo Ribeiro Pinto é também promover eventos culturais que, para além da prosa e da cervejinha, apresentem novos sons a quem não tem os ouvidos domesticados.

Exemplo é o que acontece no próximo domingo (12), a partir das 15 horas, no quintal do Empório Veg Veg, em Curitiba. O samba de Davi Kalo, o rap de Castanha e BFace e a música instrumental de Chico e Mila são parte do Onça Discos Apresenta #6.

onça-discos

 

No quintalzinho, com direito a cadeiras de praia, guarda-sóis e toalhas de piquenique, haverá também feira de prints, adesivos, roupas, maquiagem especial e corte de cabelo, tudo feito por artistas locais. A comida vegana da casa estará à disposição. Veja abaixo a programação completa. E cola lá.

 

==========

Atrações:

// MÚSICA //

Chico e Mila (instrumental)

Castanha e Bface (rap)

Davi Kalo (samba)

 

// FEIRA DE IMPRESSOS //

Hoje/Luque Ramos (prints, adesivos e esculturas)

PAC e Jéssica Luz (publicações, prints, gravuras e adesivos)

Porco Espinho (publicações, prints, gravuras, camisetas e bolsas)

Victoria Françóia (desenhos e prints)

Merch Onça Discos (adesivos e bottons)

 

// ESTILO //

581 Ateliê (roupas)

Amanda Audi e Julliana Bauer (maquiagem e glitter)

Artemisa (acessórios)

Kaíla Pelisser (corte de cabelo)

Tropical (roupas)

 

Serviço:

Onça Discos Apresenta #6

Data: 12/02/2017

Horário: das 15h às 22h

Entrada: 10 reais (com nome no evento do Facebook) ou 15 reais na hora

Local: Empório Veg Veg | Rua Visconde de Nácar, 655 – Mercês |  Curitiba, PR

Informações: facebook.com/oncadiscos | (41) 999-012-764

Link do evento: https://www.facebook.com/events/914864565317922/

julien 3

Entrevista: Julien Guimarães e suas canções infinitas

7 fevereiro, 2017 às 10:19  |  por Cristiano Castilho
O músico e cineasta goiano Julien Guimarães vive em Curitiba há 11 anos. No final de 2016, lançou “Benvirá”, seu primeiro EP. Ao se inspirar em temas oníricos e com a ajuda de uma poesia ao mesmo tempo contemplativa e atenta, fez da coletânea de 5 faixas uma ótima surpresa. Em parceria com os músicos Luis Otávio, Isaac Dias, Yasmine Matusita e Luciano Faccini, Julien criou desenhos melódicos que resgatam tradições: de contadores de histórias e causos, dos menestréis de outros tempos. Mas tudo com uma identidade presente e contemporânea. Com o Clube da Esquina debaixo do braço, Julien voa com os pés no chão. 

Preste atenção, por exemplo, na beleza celestial de “O Náufrago”. Na faixa-título, a percussão, aos poucos, dá corpo à música – cuja letra é mais impressionista do que realista. Precisamos sonhar, nos avisa Julien, após as cinco canções. O músico concedeu uma entrevista por e-mail ao Pista 1. Em tempos de discussões superficiais, é ótimo se deparar com respostas assim, reflexivas e dispostas – por isso ela está na íntegra. Julien fala sobre Curitiba, cidade que pode ser “generosa e acolhedora, mas repelente e repulsiva”; o processo de composição do EP “Benvirá” (“quase uma dramaturgia”); suas influências para o disco (Violeta Parra) e as letras, cujo caminho de criação vão na contramão “da sintaxe, do academicismo e da subjetividade. Um disco para ouvir e ler – o link está lá embaixo, após a entrevista.

Qual a última música que você ouviu antes de responder a esta entrevista?

Escutei algumas coisas meio por curiosidade, clicando aqui e ali, mas por livre e espontânea vontade foi “Dark Was the Night, Cold Was the Ground”, do Blind Willie Johnson, aqueles blues que não falam nada e dizem tudo:
Pode contar um pouco da sua trajetória, como cineasta e músico (artista, enfim)?
O cinema foi meu grande foco até o “Benvirá” começar a se concretizar. Sempre fui mais ligado às visuais, desenhava muito quando criança e adolescente, e a transição pro cinema pode ter saído muito daí, do meu gosto pelas narrativas visuais no geral. Uma coisa que me intriga na minha caminhada é como sempre, de alguma forma, tentei responder às coisas que absorvia produzindo na mesma mídia. Quando lia quadrinhos, eram os desenhos. Teve uma época que lia muito, no final do ensino médio (durante maioria das aulas, inclusive), quando escrevi alguns contos e uma novela que nunca verá a luz do dia, para o bem de todos. Como músico, componho desde os 15 anos, quando ganhei um violão da minha mãe (que é o mesmo que tenho hoje, e de onde saem minhas canções). Como nunca tive educação formal além de tortuosos quatro meses de violão clássico, a música acabou resistindo paralelamente, sem muita pressa ou pretensão. Nesse período mais ligado ao cinema fiz bastante coisa, cineclubes, mostras, participei de produções como roteirista, diretor e ator, e tive um curta independente, o “Caleidoscópio”, circulando em alguns festivais. Em 2013 resolvi gravar algumas das minhas canções em casa, pra mostrar pra algumas pessoas próximas e ver se tinha mesmo alguma coisa ali. A resposta foi boa, e pouco depois conheci o Luciano Faccini, um cara que foi e é absurdamente importante nesse meu desvio pra música. Foi ele que botou gás pra eu gravar o disco e topou participar.
Você nasceu em Goiânia e mora em Curitiba há 11 anos. É isso? O que Curitiba te deu, e o que ela exigiu de você?
Vim pra Curitiba em 2006, brinco que vim foragido, mas quanto mais o tempo passa, mais vejo como Goiânia e o meio de onde vim afetam meu trabalho hoje. Curitiba é uma personagem curiosa. A bipolaridade dela vai além do clima, no quão generosa e acolhedora, e quão repelente e repulsiva ela pode ser. O que sinto é que embora tenha me adaptado muito rápido e naturalmente ao ritmo, aos espaços, a cidade nunca me deixou confortável o suficiente pra chamar de minha. Teve uma época em que andava bastante pelos bairros, com prazer, meio sem rumo,de não fazer a mínima ideia de onde estava e como voltar pra casa. Passava cinco, seis horas na rua, batendo perna. Hoje prefiro ficar em casa, sair quando precisa, e de preferência voltar seco. Qualquer um em qualquer cidade vai fazer um diagnóstico parecido, de amor e ódio, dos problemas e qualidades, o que muda são alguns detalhes. Curitiba me deu pessoas incríveis, que admiro imenso, mas ela me desgastou muito, também, e mais recentemente na política e na cultura, com a eleição da figura que representa tudo que não gosto na cidade, o cancelamento da oficina de música, essas coisas todas e, bate na madeira, o que ainda está por vir. Ah, e eu não sabia que tinha rinite antes de vir pra cá.
julien
Sobre o disco: há um lirismo onírico dificilmente encontrado em canções de artistas contemporâneos. Pode explicar um pouco o seu método de composição?
Não sei se usaria a palavra onírico. Penso que falam de coisas muito concretas, com mais sugestão que informação, talvez. Particularmente, não gosto muito da metáfora na maioria das canções contemporâneas. Amo metáforas, elas são poderosas, mas não sei, não acho que o mar seja metáfora tão interessante assim para o seu amor, sua solidão ou para os mistérios do mundo. Prefiro o mar do Caymmi, que é, sim, poético, mas é o mar, natureza, que afoga pescador, dá o peixe, quebra na praia, essas coisas. Me parece que a metáfora é hierárquica sobre o assunto. Penso muito nessas coisas na hora de escrever, e reescrevo bastante minhas letras, também. O que tento é falar das coisas sem fugir delas, mas sem descrevê-las, o que talvez traga um pouco desse elemento onírico que você menciona. Gosto quando a arte oferece uma experiência de múltiplas camadas, você pode fruir da camada mais superficial da obra e ser tocado por ela, e pode também ir acessando outra, e mais outra, e mais outra camada, dependendo do seu repertório, disponibilidade, sensibilidade, e do próprio sentido que você dá a ela. Mas falando sobre composição, o que geralmente acontece é eu pegar o violão e alguma coisa acabar saindo. E o que acaba saindo às vezes tem a ver com meu estado de espírito, algum desconforto, alguma questão pegando, ou até algo que tenha escutado recentemente, uma música que aprendi no violão. A letra vem depois, e é consequência disso, ou seja, o que quer que me afetou, inspirou, levou a juntar os acordes, vai acabar na canção. No caso do “Benvirá”, existia uma narrativa particular que eu queria trabalhar, quase uma dramaturgia mesmo, que guiou a composição de algumas das canções e da seleção das outras. Essa é a forma como geralmente acontece, e sei que com a maioria dos compositores não é assim, a letra vem primeiro, o arranjo vem com um conceito, ou uma ideia mais formal, enfim. Devo ter duas canções em que a melodia veio em cima da letra, e nos dois casos a letra não é minha, eu só musiquei.
Na descrição do disco, no YouTube, você o define como um “ente”. O que isso quer dizer?
O processo todo do disco foi bem especial. Muito pela minha falta de experiência na música, e pela minha experiência no cinema, tive muito receio de ir para o estúdio. Tudo muito fragmentado, isolando músico, faixa, instrumento, era algo que queria evitar, porque achava que afetaria demais minha interpretação, ficar sozinho numa cabine cantando em cima do áudio. Aí conversando com alguns músicos, a ideia de gravar ao vivo foi ficando mais e mais atraente, mesmo com as limitações que isso implica na captação e depois na mixagem. Quando sentei com o Luciano e o Luis Otávio pra falar sobre o disco, pensar nos outros músicos, os arranjos, os encontros, tudo foi caminhando nesse sentido. A decisão por gravar na Chácara Asa Branca, com o Fred Teixeira, onde teríamos todo o tempo necessário pra experimentar, sem o rigor do estúdio, mas com o monstro que é o Fred, foi um dos grandes acertos. A pré durou por volta de 5 meses, com ensaios semanais, em que pegávamos as canções e íamos criando os arranjos em conjunto, cada músico trazendo sua personalidade, suas referências, deformando e expandindo minhas composições. Todas essas escolhas estão muito presentes no trabalho final. Talvez não grite aos ouvidos, mas percebo no disco uma fisicalidade, uma organicidade, texturas, tons e humores que não sabia que ele tinha, e vejo muito de cada músico ali também presente. Por exemplo, como o Luis vinha com um monte de ideias, de nuances, detalhes, e a gente ia lapidando, pegando uma, abandonando outra, e aí chegava numa estrutura boa e o Luciano entrava pra desequilibrar um pouco, criar um ruído, uma nota dissonante, enfim, fazia todo o sentido pro disco e funcionou muito bem a dinâmica dos dois, com o Isaac entrando meio na surdina com algum elemento que de repente dava a liga no arranjo todo, e a Yasmine que eu literalmente não podia cantar sem a percussão dela. Enfim, o solo da guitarra em “O Náufrago” nunca foi tocada daquele jeito antes, e nem vai ser tocada de novo daquele jeito, por causa do processo mesmo, que foi muito orgânico, livre e denso. É um pouco daí que vem o “ente”, de reconhecer todas essas partes singulares da jornada que compõem o disco, e da pulsação que isso trouxe pro resultado final, e como isso dialoga com as canções, as personagens, os temas.

julien2

Você teve alguma influência musical específica para criar as músicas do EP?

Nós escutamos algumas coisas durante os ensaios, mas nada que foi central pro disco. Não posso falar pelos outros músicos, mas particularmente o que me influencia nas composições, no “Benvirá” e no geral, são o “Terra, Vento, Caminho”, do Dércio Marques, o “Las Últimas Composiciones de Violeta Parra”, da própria, e o “Green, Rocky Road”, da Karen Dalton. Todos eles têm uma simplicidade que eu queria pro EP, mas também essa ideia das camadas e uma sutileza nos arranjos, nos humores, na poesia.
Percebe-se também um cuidado com as letras, que por sua vez remetem a um cenário imagético reconhecível (o mar, a terra, personagens diversos). A literatura também te influencia?
Acho que sim, mas também acho que não. Tem livros que me transformaram, minha visão de mundo, meus desejos, minha produção, mas se você pedir pra apontar como eles afetam as letras, vai ser um malabarismo pra dizer onde isso acontece. Acho que o que mais me influencia na escrita são mesmo outras canções. A Violeta Parra escreve lindamente, isso de tocar as coisas tão profundamente sem resolvê-las, ou encerrá-las, como ela faz, é algo que procuro fazer, com as minhas ferramentas, é claro. Tento fugir de alguns caminhos, também, da intimidade excessiva, da crônica, ou do exibicionismo da língua, o que nas mãos certas são muito potentes, mas que me incomodam quando são apenas reprodução de gente que fez isso bem. Acho que meu diálogo é com o folclore, mesmo, com as cantigas tradicionais. Gosto da vivência que elas trazem, da experiência, da poesia quase prosaica que elas apresentam na lida com essas experiências. A sintaxe, o academicismo e a subjetividade às vezes ignoram isso e chamam muito a atenção para si, para os versos e estrofes e refrão. Não tenho nenhuma opinião forte ou ideologia contra essas formas, só acho que procura-se pouco outras escritas e expressões da canção, e é algo que me esforço em fazer, buscando outros diálogos e referências.
Sobre a cena musical de Curitiba, o que você tem a dizer?
Não saberia dizer o que é exatamente a cena musical de Curitiba. Não gosto muito do que tenho escutado, mas isso é geral, na verdade, e sou culpado de não pesquisar o bastante, também. Por um lado, acredito que o que de melhor tem sido feito na cidade, no hip-hop e no rock mais experimental, por exemplo, não são exatamente as coisas que coloco pra escutar. Por outro, no que acho francamente ruim, mesmo, consigo me relacionar com elementos que gosto muito. Estou de olho em algumas pessoas e grupos, a maioria num estágio inicial semelhante ao meu, com um disco ou nem isso, mas que me atraem pela curiosidade com que encaram o próprio trabalho, com que desviam de caminhos conhecidos e a forma com que respeitam seu próprio espaço e caminhada. Não sei se hoje existe um movimento muito conciso, como à alguns anos era fácil perceber, mas, outra vez, pode me acusar de não ouvir com atenção.
julien 3
Está preparando shows para divulgar o EP?
Tenho saboreado um pouco a divulgação do “Benvirá” digitalmente, os feedbacks, a recepção, e de descobrir também como funciona pra mim tudo isso. Tem uma projeção de show de lançamento pra março/abril, mas nada fechado, num espaço mais oficial, mas também tenho buscado outros espaços, mais alternativos e independentes, e aceitando sugestões.
***
vinil

Boca Maldita terá feira de discos e homenagem a Waltel Branco

26 janeiro, 2017 às 10:09  |  por Cristiano Castilho

A primeira Feira de Discos da Boca Maldita acontece no dia 4 de fevereiro, um sábado, no Slaviero Slim (antigo Hotel Braz), Centro de Curitiba. Quem agilizou a coisa toda foi Horácio De Bonis – que esteve à frente da saudosa 801 Discos entre 1991 e 1999 e atualmente toca a Sonic Discos - e Marcos Ramos Duarte, da Joaquim Livros & Discos. O foco é o vinil: serão 20 lojistas e expositores, de Curitiba, Maringá, Joinville, Florianópolis e São Paulo.

Além do comércio dos bolachões, duas atrações extras estão programadas: uma homenagem ao maestro, arranjador e instrumentista Waltel Branco. Um dos músicos mais representativos da música brasileira, Waltel esteve presente, de um jeito ou de outro, em trabalhos de Henry Mancini, Nat King Cole, João Gilberto, Quincy Jones, Dizzy Gillespie, João Donato e Baden Powel. Foi também arranjador e diretor musical das trilhas de novelas e vinhetas da rede Globo por mais de duas décadas. Manoel de Souza Neto fará uma palestra sobre o artista, que estará presente para contar causos e tocar alguns temas de sua autoria.

vinil

No mesmo dia, o jornalista, pesquisador e colecionador de discos Bento Araújo lança o livro “Lindo Sonho Delirante: 100 Discos Psicodélicos do Brasil (1968-1975)”. O autor conta histórias, curiosidades e traz informações inéditas sobre esse período, que classifica como um dos “mais incríveis e inspirados, porém ainda absurdamente negligenciados da música brasileira”.

O espaço

O Slaviero Slim Centro oferece um bar com sacada para Boca Maldita, onde os colecionadores e compradores poderão se encontrar. O café da manhã terá seu serviço estendido e preço especial. O hotel também fez convênio com o estacionamento Plaza, que terá tarifa com desconto para o período da feira.

O mercado

O crescimento das vendas de vinil nos dois últimos anos, além de dar um impulso na combalida indústria fonográfica, reintroduziu no mercado o colecionador de LPs, unindo uma nova geração aos que nunca deixaram para trás o fetiche pelos discos em vinil.

As vendas de vinil nos Estados Unidos, ano passado, subiram 26% em relação a 2015, segundo dados publicados pela consultoria BuzzAngleMusic. Já as vendas digitais caíram 25% em faixas individuais e 19% para álbuns. Na Inglaterra, em 2016, o aumento do comércio de acetatos foi de 53% em relação a 2015 segundo a British Phonographic Industry (BPI, Indústria Fonográfica Britânica).

O maestro Waltel Branco. A foto é de Albari Rosa/ Gazeta do Povo.

O maestro Waltel Branco. A foto é de Albari Rosa/ Gazeta do Povo.

No Brasil, a história se repete, mas ainda sem números divulgados. O que todos esperam é o surgimento de uma nova fábrica de LPs, a Vinil Brasil, que fará companhia para a Polysom, por enquanto a única a prensar LPs por aqui. Fundada em 1999, em um momento em que a indústria fonográfica abandonava o vinil para se dedicar aos CDs, a Polysom fechou as portas em 2007, mas já no ano seguinte os proprietários da Deckdisc fizeram a aquisição oficial da fábrica, reformaram o espaço e remontaram todo maquinário, incluindo prensas, compressores e motores. Foi reativada em 2009 e, em 2012, registrava um lucro de 13,55%. Hoje, fabrica compactos (7”) e long plays (12”) em diferentes cores, e LPs de 140 e 180 gramas.

Por sua vez, a Sony do Brasil é prova que as grandes gravadoras estão de olho no mercado brasileiro. No ano passado, a empresa relançou em vinil alguns clássicos da música brasileira – Cartola, Wilson Simonal, Pepeu Gomes e o LP “Meu Balanço”, de Waltel Branco.

 

SERVIÇO

Feira do Vinil da Boca Maldita

Dia: 4.2.2017

Horário: 10h às 19h

Local: Slaviero Slim Centro (antigo Braz Hotel) – Rua Luiz Xavier 67- Centro (41) 3017-1000

Estacionamento conveniado: Plaza – Rua Hermelino de Leão 167. Para o dia da feira, o valor será de R$ 15 para o período.

carna

Blocos alternativos resistem e garantem pré-carnaval; veja a programação

25 janeiro, 2017 às 09:26  |  por Cristiano Castilho

Apesar da brochada com o anúncio de que a verba para o carnaval oficial da cidade será reduzida pela metade, e do “cancelamento” do pré-carnaval, o ziriguidum vai acontecer. Vários grupos se organizaram para promover saídas diversas – talvez uma resposta às ações da prefeitura. Garibaldis & Sacis estarão na rua. Blocos com nomes curiosos (e polêmicos) também já preparam a fantasia. Numa cidade inventada e reprimida, carnaval não é folia. É escapismo. Não esqueçam as pulseirinhas.

carna

 

Veja abaixo as datas em que os blocos que sairão às ruas, a partir do dia 29 de janeiro.

===============

29/1, às 15h30

Garibaldis & Sacis (Garibaldinhos)

Praça João Candido

*

29/1, às 17h

Desengreca Geral – Carnaval Resiste

Boca Maldita

*

4, 11 e 18/2, às 16h

Bloco Caiu no Cavalo Babão

Próximo ao Cavalo Babão

*

18/2, às 15h30

Bloco a Gordinha Não Quis Dar

Largo da Ordem

*

24/2, às 19h

Bloco Adorei as Almas

Bar do Manuel (R. Des. Benvindo Valente)

*

28/2, às 16h20

Bloco do Urso do Seu Lourenço

Rua Albano Reis, 381

*

Todos os sábados, às 16h20

10Afinados & Daí

Bar do Fogo (R. São Francisco)

*

Todas as quintas-feiras, às 20h

Bloco do Batom Barato

Obelisco da São Francisco

 

 

 

 

05photo

“Low”, o melhor de Bowie, faz 40 anos. E ele ainda f***

24 janeiro, 2017 às 10:06  |  por Cristiano Castilho

*** Por Mateus Ribeirete, especial para o Pista 1

Houve uma ruptura em minha vida quando recebi o chamado de David Bowie. Era setembro de 2014 e me encontrava em Bruxelas. Aos 22 anos, é evidente que já havia ouvido Bowie. Entretanto, eu nunca havia ouvido Bowie. Meu contato real foi bastante tardio, se comparado à média daqueles que pelo músico inglês se tornam aficionados.

Aconteceu em um sebo: as caixas de som reproduziam a segunda metade de “Low” (1997), que de imediato me lembraram a trilha sonora de “Blade Runner” (1982). Perguntei o que era aquilo, e o funcionário me apontou à capa laranja. Seguiu-se a obsessão mais honesta à qual me submeti, ou fui submetido. Passei cerca de dois anos dedicando horas diárias a sugar tudo o que podia da obra do inglês, dos microcontos no enredo de “Outside” (1995) aos diálogos com Ryuichi Sakamoto em “Merry Christmas Mr. Lawrence” (1983). “Low” se tornou meu álbum favorito da discografia dele. Posteriormente, mas não muito tempo depois, tornou-se meu favorito de qualquer discografia, cinturão psicológico que veste e ainda não concede a ninguém.

05photo

Em 14 de janeiro, o melhor disco de David Bowie completou 40 anos. “Low”, afinal, apresenta-se como um desses sopros celestiais que a peneira mais fina da estética esporadicamente concede. Se a atribuição enquanto melhor álbum é debatível, ela também não importa tanto assim, ao menos para este texto. Trata-se, de qualquer modo, de uma obra assombrosa, a qual recomendaria a qualquer ser humano que disponha de caixas de som ou fones de ouvido. Ao me perguntar, portanto, por que “Low” segue importante, recorri à resposta curta: porque ele ainda fode. Calma lá, a resposta longa demanda uma contextualização maior.

Várias lendas circundam a produção do disco; algumas reais, outras de pura fanfarronice, mas todas interessantes para a mística construída em torno da obra. O álbum, considerado o primeiro da trilogia de Berlim, possibilitou uma estada de Bowie, com Tony Visconti e Brian Eno, no Château d’Hérouville, na França, onde boa parte do disco foi gravada. Tal estabelecimento, construído em 1740, havia se transfigurado em estúdio na década de 1960 – daí o “Honky Château” (1972), de Elton John.

Acontece que o imenso castelo, talvez por ser imenso, talvez por ser castelo, suscitou na equipe o sentimento de paranoia, popularmente traduzido por cagaço. O castelo era mal-assombrado, segundo eles. Bowie, que vinha de uma péssima relação com sua esposa, e de outra com a cocaína, havia gravado “O Homem que caiu na Terra” (1976), longa-metragem no qual precisou se esforçar pouquíssimo para parecer um alienígena. Ele deveria ter composto a trilha sonora para o filme de Nicolas Roeg, o que acabou não ocorrendo. Também se encontrava devastado por conta de uma resolução nada pacífica com o empresário Tony Defries, que legalmente receberia (e recebeu) dinheiro de qualquer música lançada pelo artista até dado momento da década de 1980. Se ele já parecia esquelético ao divulgar “Young Americans” (1975) e se lidou com o oculto em “Station to Station” (1976) na escala Orgias Aleister Crowley™, o contexto de criação em Low se configurava, portanto, como um ponto de ebulição. Aliás, no meio disso tudo houve até intoxicação alimentar.

Tony Visconti, Brian Eno e David Bowie - nos estúdios.

Tony Visconti, Brian Eno e David Bowie – nos estúdios.

No château, impulsionado pelo mérito técnico de Visconti, pela BrianEnoidade de Eno, pela influência do krautrock, pelas experimentações com Iggy Pop e por um estado mental lastimável – nos referimos à arte, não ao departamento de RH –, David Bowie desenvolveu a espacialidade como ainda não havia feito em sua obra. “Low” surgiu como um álbum esquisito, porém acessível; complexo, porém rústico; denso, porém breve. Nele, as faixas são igualmente metafóricas e literais. Conta-se que ‘Always crashing in the same car’, por exemplo, provenha da história de que Bowie, à beira de um ataque de nervos, deu voltas em círculos em uma garagem até bater o carro. (A lenda completa inclui a colisão repetida e voluntária contra o veículo de seu traficante). ‘Sound and vision’ apresenta uma pergunta tão estupidamente simples quanto infinita: às vezes você não para pra pensar sobre, bom… som e visão? Em ‘Be my wife’, ouvem-se os apelos de alguém que viveu no mundo inteiro, mas se sente abandonado. “Compartilhe minha vida, permaneça comigo, seja minha esposa” – a vulnerabilidade se faz cristalina, e em nada esconde o David Jones sempre recôndito entre seus personagens.

A segunda metade do disco, quase totalmente instrumental – mesmo as palavras proferidas não correspondem a nenhuma língua natural – sempre surpreende os não familiarizados com esse período da carreira de Bowie. Escute-a em alto volume por meio de um bom sistema de som e você enxergará. (Um cenário, um ambiente, as cenas externas de “Blade Runner”, …). Sou completamente incapaz capaz de discorrer sobre a força da sequência ‘Warszawa’, ‘Art decade’, ‘Weeping wall’ e ‘Subterraneans’, já puxada por ‘A new career in a new town’, última do lado A. É uma das sequências mais extraordinárias da história da música popular – não disponho de qualquer interesse em convencer alguém disso.

Como em todo aspecto da vida, no entanto, voltemos ao começo. ‘Speed of life’, primeira faixa de Low (e notório convite ao repeat), concede ao ouvinte uma sensação de movimento; a imersão de quem sobe em um vagão que já corre há tempos. ‘Breaking glass’, macabra na voz, na letra e em qualquer instrumento gravado, destaca a percussão de “Low”. A bateria cavernosa, que viria a ser emulada por Joy Division e por outros tantos conjuntos do pós-punk, consta como o grande achado de Tony Visconti, por meio do Eventide H910 Harmonizer, equipamento utilizado na bateria e em alguns dos vocais. O que um Eventide H910 Harmonizer faz? Não tenho ideia, mas o próprio Visconti tratou de explicar, e isso completa a minha primeira resposta sobre o valor de “Low”: “ele fode com o tecido do tempo”.

“Low” é uma obra-prima sobre (e de, e para) a solidão. Aberto, também pode representar vários outros elementos – o posto de obra-prima, por sua vez, é pouco negociável. Estendeu limites, abriu caminhos e continua reverenciado. Passados 40 anos, esse disco inteiro ainda fode.

***

1. Sobre histórias da produção de Low, recomendo o Pushing Ahead of the Dame, uma bíblia digital: <https://bowiesongs.wordpress.com/category/low-1977>. O livro Low (2005), de Hugo Wilcken, é ótimo, enquanto as contextualização d’O Homem que vendeu o mundo (2011), de Peter Doggett, certamente não atrapalham

2. A fotografia da capa foi retirada de uma cena d’O Homem que caiu na terra.

3. Esta animação dos irmãos McLeod, escrita por Adam Buxton, trata com bom humor alguns dos elementos pitorescos do álbum. Entre eles, o papel subestimado de Tony Visconti se comparado à participação de Brian Eno.

4.Há apenas dois singles no álbum: ‘Sound and vision’ e ‘Be my wife’. O segundo deles, o único clipe.

5. Philip Glass compôs Symphony No. 1 “Low” (1992), uma sinfonia baseada no disco.

6. Entre os vários textos que repercutem os 40 anos, vale o destaque para este (em português) e este (em inglês).

7.‘Some are’ e ‘All saints’ foram gravadas na época e disponibilizadas em um relançamento de 1991. Com elas, essa versão de ‘Sound and vision’.

8. Depois de anos me coçando com a suposta relação, juntei algumas cenas de Blade Runner com o lado B de Low. O primeiro dos vídeos está aqui. Para os outros, não sobrou espaço de carregamento.

9. Na última faixa de David Bowie em vida, ‘I can’t give everything away’, de Blackstar (2016), esse imenso memento mori, ouve-se a harmônica de ‘A new career in a new town’, isto é, uma nova carreira em uma nova cidade.