Cena de "Viagem ao Fim do Mundo", de 1963, "pérola" do Festival deste ano.

O que ver no Olhar de Cinema? Curador pinça pérolas e contextualiza festival “provocativo”

6 junho, 2017 às 12:09  |  por Cristiano Castilho

Um dos eventos culturais mais consistentes – e por isso mais aguardados – de Curitiba começa nesta quarta-feira (7). A sexta edição do festival Olhar de Cinema contempla 125 filmes distribuídos em nove dias, além de ciclo de seminários, masterclasses e oficinas. Com entradas a R$ 10 e R$ (meia-entrada), os longas e curtas-metragens, divididos em diversas categorias, serão exibidos no Shopping Crystal (Espaço Itaú de Cinema), no Shopping Novo Batel e no Sesc Paço da Liberdade.

Cena de "Viagem ao Fim do Mundo", de 1963, "pérola" do Festival deste ano.

Cena de “Viagem ao Fim do Mundo”, de 1963, “pérola” do Festival deste ano.

 

Neste ano, a seleção volta-se para o cenário político, o que pode ser percebido já na identidade visual do festival, assinada por Sandra Hiromoto. É a tentativa de retomar o cinema enquanto ferramenta de luta e sensibilização, para além da reflexão estética. São filmes de Murnau (1888-1931), símbolo do expressionismo alemão – seu aclamado “Nosferatu”, de 1922, será exibido em tela grande – ao da estreante Juliana Antunes, com seu premiado “Baronesa”.

A Mostra Olhares Clássicos apresenta uma raridade que já virou ícone cultural: “Viagem à Lua” (1902), de George Meliès, primeiro filme de ficção científica a tratar de alienígenas. A Mostra Mirada Paranaense, que sempre surpreende ao exibir filmes de realizadores locais, também é uma boa pedida.

O filme de abertura é “A Família”, dirigido pelo venezuelano Gustavo Rondón. O longa estreou no Festival de Cannes e será exibido amanhã, às 20h30, no Espaço Itaú de Cinema, com presença do realizador. As mostras competitivas de longas e curtas reúnem filmes de países como Síria, Tunísia, Turquia, Índia, Fiji, Itália, Chile, Argentina, Portugal, Costa Rica e Peru.

Tendo em vista o tamanho da programação, pedi a Antonio Junior, um dos curadores do festival, para explicar um pouco o contexto do evento deste ano e pinçar alguns filmes imperdíveis. Olha aí o que ele escreveu:

A presente edição do Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba acontece num contexto sócio-político e cultural completamente distinto daquele no qual o festival surgiu, em 2012. Em apenas cinco anos o país sofreu uma guinada sobre a qual ainda se fazem necessárias análises e reflexões, para as quais, acreditamos, o cinema pode dar sua contribuição. Refletindo o momento atual, em que o acirramento dos embates se fazem cada vez mais frequentes e violentos, em que as fronteiras entre realidade e ficção estão tão embaralhados que possibilitam o surgimento do conceito de Pós-Verdade ou Política Pós-Factual, pretendemos com esta edição do festival provocar e convidar o público à reflexão acerca do papel do cinema como ferramenta de sensibilização e resistência coletiva.”

 

Os filmes que Junior destaca são: “todos os da Mostra Foco [que neste ano homenageia a diretora tailandesa Anocha Suwichakornpong], os filmes de Murnau [serão 10 na Mostra Olhar Retrospectivo] e a pérola Viagem Ao Fim do Universo’ [filme do diretor tcheco Jindrich Polák, de 1963, presente na mostra Olhares Clássicos].”

++++++++

SERVIÇO

6º Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba

De 7 a 15 de junho

Locais: Shopping Novo Batel, Shopping Crystal (Espaço Itaú de Cinema) e Sesc Paço da Liberdade

Ingressos: R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia)

Os ingressos começam a ser vendidos no dia 1º de junho.

As demais atividades são gratuitas e estão sujeitas a lotação da sala ou inscrição prévia.

Site oficial: http://olhardecinema.com.br

 

publico orue

Confirmado em 2018, Coolritiba se provou alternativa à alienação musical

17 maio, 2017 às 15:15  |  por Cristiano Castilho

O maior saldo do Festival Coolritiba foi provar que um evento de relevância musical e artística pode acontecer sem alienação sócio-cultural. Se a sustentabilidade e outras preocupações ambientais já são prerrogativas para o novo modelo de negócios da indústria de shows, a presença de 10 mil pessoas interessadas em bandas que questionam as barbeiragens políticas com sensibilidade num evento grande assim, com patrocínio de marca de cerveja popular e camarotes à disposição por algumas centenas de reais, pode até parecer um paradoxo – mas é uma novidade otimista.

Foto: Oruê Brasileiro

Fotos: Oruê Brasileiro

Você pode até pensar no Psicodália, no Bananada, no Suave, mas são outras histórias. Estes são festivais independentes, em todos os sentidos, e pouco se esforçam – devido à sua natureza – para sair da bolha. O Coolritiba desbancou primeiramente certo preconceito com seu nome. Depois, conseguiu colocar num espaço de tempo relativamente curto – das 14h de sábado, com um bate-papo sobre mobilidade urbana, à 1h da manhã de domingo, com o show dos Novos Baianos – artistas que caminham pela mesma estrada, que escrevem, com algumas variações, a mesma narrativa.

Cheguei ao fim do show da Naked Girls & Aeroplanes – que no último dia 12 lançou o EP “High Paradise” – mas estacionei no show do Trem Fantasma. A banda está cada vez mais consistente e desenvolta, o que pode ser percebido no ótimo disco “Lapso”, lançado no ano passado. Um porém notado desde cedo foi a localização do palco Arnica, que estava estacionado na entrada da Pedreira Paulo Leminski, interrompendo o fluxo e o contra-fluxo de pessoas, que às vezes se engatavam num trenzinho para conseguir atravessar a multidão. Foi assim durante toda a noite, mas sem nenhuma treta – e isso também significa.

negra orue

O palco principal era enxuto (ou “cool”?) e nela voava Céu. Sua presença e beleza são hipnóticas, e as músicas de “Tropix” combinaram com aquele início de fim de tarde. Perdi A Banda Mais Bonita da Cidade com a participação de Paulo Miklos porque queria ver o show da Nomade Orquestra inteirinho. Pelos vídeos e comentários de quem assistiu, o negócio foi bonito, com “Comida” logo no começo e “Flores” levantando o povo. “Oração” ainda existe, e talvez tenha deixado a pecha de hit efêmero para virar um marco-símbolo de uma geração sensível por natureza, e isso não se pode mudar.

A contribuição da Nomade Orquestra para a narrativa é ter a capacidade de agregar muitas visões artísticas individuais de forma coesa e criativa. O caldeirão de groove do grupo do ABC paulista soa natural, e os arranjos surpreendem com viradas rítmicas e samples muito bem acertados, como na faixa “Sonhos de Tokyo”, que tem “intervenção” de Elis Regina. Essa troca coletiva é fruto da convivência e confiança de seus integrantes, e o resultado-fim são sorrisos em rostos serenos.

Nomade Orquestra

Nomade Orquestra

Nos intervalos das bandas do palco Arnica, uma das melhores atrações do festival e da nossa cena recente: a rádio Kombi. Velha conhecida do Psicodália, a dupla Heitor Humberto e Luana Angreves explode a pista com groove, funk brasileiro, bregas esquecidos e piras latinas. Ninguém arredou pé entre o show da Nomade Orquestra e o da Trombone de Frutas.

Rádio Kombi

Rádio Kombi

A banda curitibana, aliás, se acertou como um time de futebol recheado de craques precisa se acertar. Houve podas nas intervenções cênicas e nas piadas, e o que sobra, com ironia medida, técnica e vibração, é um show forte, que tem momentos de devaneio e também de pés no chão. E tudo faz sentido (lembra da narrativa?): a balada “Bicicletas Olaf”, do primeiro disco da banda, relembra um caso real de ataque a um ciclista que, após um incidente com um motorista, queria apenas conversar. Já a inserção de parte de “I Want You (She’s So Heavy)”, dos Beatles, executada com maestria na faixa “Umbrais”, ganhou o coro melódico “fora, Temer”.

Trombone de Frutas

Trombone de Frutas

O clímax da narrativa aconteceu durante o show da Francisco el Hombre. A banda de Campinas começou na rua. O nome homenageia o músico viajante Francisco, personagem de Gabriel García Marquez em “Cem Anos de Solidão”. Por isso os irmãos Sebastián e Mateo Piracés trazem na essência de sua música o improviso e algo de mágico. Bateria e percussão visceral, linha de baixo insinuante e intervenções noise de guitarra dão um contraponto ideal à linda harmonia vocal do grupo, que canta também em espanhol sobre temas importantes. “Viene bailando la horda de milicos/ Quiere que todos se porten bonito: ‘caminen igual y vistanse igual’/ Y aqui les enseñan como ser normal y si dicen que el hombre se debe callar”, diz a letra de “Dicen”, música inspirada num poema de Allen Gingsberg e criada para que os irmãos Piracés pudessem falar sobre ditadura com os sobrinhos. Recheado de discursos bem-vindos e gritos de “fora, Temer” o show teve também a participação da banda Mulamba. Com o feminismo e a necessidade do empoderamento como partitura, a banda detonou ouvidos sonolentos e cabeças preguiçosas com um petardo certeiro: a música P.U.T.A, lançada no fim do ano passado. No palco, cantaram “Triste, Louca ou Má”, de Francisco el Hombre, ao lado dos paulistas. A canção (e a narrativa) diz assim: “Aceita que tudo deve mudar/ que um homem não te define/ sua casa não te define/ sua carne não te define/ você é seu próprio lar.” Gritos de liberdade em dose dupla.

Francisco el Hombre

Francisco el Hombre

No palco principal, uma multidão de braços estendidos chacoalhavam ao som do pop-rap de Projota, que encontra em adolescentes inquietos o público ideal para suas rimas que querem extrapolar o gueto. Palavras fortes contra “aqueles que não deixam você fazer o que quer” e outras de apoio e incentivo finalizaram o show do paulistano.

Bom, Criolo não mostrou ao vivo “Espiral de Ilusão”, seu novo disco, dedicado ao samba. Mas o cara acontece de qualquer maneira. O moletom do Zaire deu lugar à conhecida túnica branca, e aí a aura messiânica novamente se estabeleceu. Criolo arrasta pensamentos com sua poesia urbana. Como poucos artistas de sua geração, tem total controle sobre o público, que é capaz de segui-lo fielmente e cantar o que ele pedir. “Bogotá”, metáfora possível sobre o caminho que a “droga” percorre até chegar onde precisa (e suas consequências) foi o ponto alto do show.

publico orue

A apresentação histórica dos Novos Baianos combinou de acontecer junto da tempestade. A apresentação começou morna e embolada – dificuldades técnicas, descompassos –, mas este é o tipo de show em que a percepção crítica perde espaço para a afetividade. Pois os hits de “Acabou Chorare” foram enfileirados e celebrados um após outro 45 anos depois de Moraes Moreira, Baby do Brasil, Pepeu Gomes (como ele toca!), Paulinho Boca de Cantor, Dadi e Luiz Galvão criarem uma comunidade alternativa e tratarem o dinheiro como algo secundário que poderia ser guardado numa sacola. Se a voz de Baby está tinindo trincando e a de Moraes parece ser a de quem passou por uma traqueostomia, não importa tanto. O retorno da banda, e de suas ideias, e do grito miúdo de Moraes ao fim do show, dizendo “Brasil, esquentai vossos pandeiros”, serviu para chancelar um festival cuja ideia não é parar a roda, mas fazê-la girar diferente.

nevilton 1

Nevilton e Naked Girls and Aeroplanes divulgam novas músicas

5 maio, 2017 às 13:43  |  por Cristiano Castilho

A banda Nevilton, de Umuarama, lançou hoje a música “Amarela” (ouça abaixo), primeiro single de “Adiante”, novo álbum do grupo, que sai em breve. É o primeiro passo da nova fase de uma premiada jornada do compositor paranaense.

nevilton 1

A faixa é uma das 13 produzidas durante os últimos dois anos de trabalho, e conta com a participação de Tiago Lobão no contrabaixo e de André Dea (Sugarkane, ex-Vespas Mandarinas) na bateria. Nos últimos anos, Nevilton tem se envolvido cada vez mais com a música latina, participando de coletâneas com artistas diversos. Isso tudo, somado às duas indicações ao Grammy Latino, inspirou ainda mais o artista a lançar, junto com “Amarela”, a sua versão em Espanhol: “Amanecerá”, na qual ele divide os vocais com Cesar Saez, cantor mexicano que também toca xilofone.

 

+++++++++++++++

Também nesta sextinha, o trio Naked Girls and Aeroplanes, formado por Rodrigo Lemos, Artur Roman e Wonder Bettin, lançou a música “High Paradise”, aperitivo para o novo EP do grupo, previsto para o dia 12 de maio.

naked girls

A canção tem como base um piano melancólico, mas no final cresce com um coro, remetendo às cachoeiras de Alto Paraíso de Goiás, cidade mística que inspirou a composição. Ouça “High Paradise”:

 

 

 

 

(Alguns dos que já foram lembrados na Tied)

Tied to the 90′s volta com discotecagem em vinil e em novo local

27 abril, 2017 às 15:46  |  por Cristiano Castilho

 ♪♫♩

Silent kid, no one to remind you
You’ve got no hip, no reels to remind you
Silent kid, don’t take your pawnshop home on the road, goddamn you
Silent kid, don’t lose your graceful tone

♪♫♩

Uma das festas mais diletas de Curitiba está de volta. Ao menos por enquanto. A Tied to the 90′s, que reuniu por quase seis anos no James Bar um público cativo (e divertido, e mascarado, e quase dançante) em torno do rock e do indie dos anos 90, acontece em versão extraordinária neste sábado (29), a partir das 21 horas no Ornitorrinco – veja serviço completo abaixo.

(Todos que já tocaram na Tied no sofá do James)

(Todos que já tocaram na Tied no sofá do James)

Haverá discotecagem em vinil com Lucas Nonose (da dupla Disco Veneno), e a ideia é realizar versões bimestrais ou trimestrais, com algumas novidades. Quem explica melhor, no texto abaixo, é Marcell Boaretto, dono de um bom gosto musical daqueles, idealizador do negócio todo e herói da resistência noventista:

A Tied nunca terminou efetivamente, entrou num hiato indefinido. Estávamos há quase seis anos no James, e no último ano e meio, por causa da mudança da Sol [Solange Lingnau, co-criadora da Tied] pra São Paulo, eu vinha produzindo sozinho. Estava cansado, realmente precisando desse tempo. Neste último ano, em que não houve edições, bastante gente comentou que sentia falta da festa, mas eu só me motivaria pra voltar se houvesse alguém me ajudando na produção. Nesse meio tempo conheci a Mayume, e a gente tentou produzir juntos uma Tied com discotecagem da banda inglesa Yuck [que se apresentou na Arnica Cultural em novembro de 2016], mas no fim acabou não rolando. Nos demos bem nesse trabalho, e a experiência de trabalhar em dupla novamente foi legal. Aí convidei ela pra me ajudar nessa retomada da festa. Temos gostos parecidos e ela também faz parte do Coletivo 56, que agora faz a parte visual da Tied – durante a festa (isso é uma novidade). Sobre as mudanças: agora é no Ornitorrinco. O James foi uma ótima casa por todo esse período, mas a ideia é fazer algo menor, quase que como a festa pela festa, a festa pela música, sem a necessidade de uma pista fervilhando o tempo todo. Claro que a Tied é para as pessoas dançarem, mas nosso plano sempre foi atraí-las pela música. Dançar é quase uma consequência. No mais, teremos as máscaras, como sempre, e não mais as coletâneas em CD. O convidado dessa edição é o Lucas Nonose, que já tocou em algumas edições e acredito ser nosso convidado mais frequente. Para completar, haverá mini sets especiais shoegaze no decorrer do período (tem show do Slowdive chegando!). As duas edições shoegaze que fizemos anteriormente, para mim, foram das mais memoráveis. Inclusive a edição mais cheia de 2015 foi uma shoegaze, num dia com chuva torrencial.”

***********

SERVIÇO

Tied to the 90′s

Dia 29 de abril (sábado), a partir das 21h

Ornitorrinco – Rua Benjamin Constant, 400

Lu Mayume e Marcell Boareto recebem Lucas Nonose (Disco Veneno)

R$ 12

João Triska (Foto: Divulgação)

Paço Folk estreia com três shows; Jorge Drexler está na mira

26 abril, 2017 às 14:44  |  por Cristiano Castilho

João Triska, Juliana Cortes e o Grupo Fato darão a largada, amanhã (27) à noite, no projeto Paço Folk, iniciativa que pretende difundir a música sul-americana e promover o intercâmbio entre artistas de diferentes regiões do Brasil. A essência de tudo é o diálogo destes músicos com as raízes folclóricas (num sentido cultural mais amplo) de sua região.

Para Triska, conhecido por cantar as coisas do Paraná, mas também por se enveredar pela música do sul do continente – aquilo que se chamou de “estética do frio” – discutir o folk é pensar a relação entre o universal e o regional e suas possíveis formas de expressão. Ainda sobre Triska, idealizador do negócio: Milonga Flor”, uma das faixas de seu disco mais recente, “Iguassul” (ouça abaixo), venceu o Prêmio Grão de Música 2017. E no próximo sábado (29), ele concorre ao Prêmio Profissionais da Música 2017, como Melhor Artista Regional.

João Triska (Foto: Divulgação)

João Triska (Foto: Divulgação)

Ao longo deste ano, serão realizados quatro espetáculos trimestrais com artistas convidados (fala-se até em Jorge Drexler!), além de bate-papos, palestras e exibições de filmes. Tudo para se rediscutir a utilização da expressão folk – ao som de boa música.

+++++++

SERVIÇO

1º Paço Folk

João Triska, Juliana Cortes e Grupo Fato

Dia 27 de abril (quinta-feira), às 20h

Sesc Paço da Liberdade – Praça Generoso Marques, 189

R$ 20 e R$ 10 (meia-entrada e comerciários)

Informações: 3234-4200

 

Estrela  e Téo (Foto:

Estrela Leminski e Téo Ruiz: rebeldia fonográfica e um “não” ao amor clichê

24 abril, 2017 às 14:25  |  por Cristiano Castilho

É um misto entre rebeldia fonográfica (na forma) e interpretação de nossos tempos (no conteúdo). Estrela Leminski e Téo Ruiz, o casal (não são irmãos, “de uma vez por todas”) de músicos e compositores lançou ontem (23), em evento concorrido no espaço “A Caiçara”, três clipes de três canções inéditas que estarão presentes no próximo disco da dupla, “Tudo Que Não Quero Falar Sobre Amor”, previsto para setembro deste ano. A música “Nosso Livro”, com produção de Pupillo, baterista da Nação Zumbi, ganhou vídeo de Luciano Coelho – do filme “A Linha Fria do Horizonte”, sobre Vitor Ramil. “Blues do Encanto” teve produção de Rodrigo Lemos (Lemoskine, Naked Girls and Aeroplanes) e virou clipe nas mãos de Bernardo Rocha. E o vídeo da música “Biografia” (parceria da dupla com Bernardo Bravo), também produzida por Lemos, foi dirigido por João Marcelo. Os três vídeos estarão disponíveis em breve no canal dos músicos no YouTube. E a ideia é essa: lançar os clipes antes do disco – que não trata do amor ortodoxo – e colaborar com o maior número possível de artistas.

Estrela  e Téo (Foto: Janete Anderman)

Estrela e Téo (Foto: Janete Anderman)

“Cada música é uma obra em si”, me diz Téo Ruiz, numa quinta-feira à tarde, no calçadão do Largo da Ordem. Desafiar (ou resgatar) o conceito de álbum também é uma provocação da dupla, cujo último lançamento foi “Leminskanções”, em 2014, disco em que gravaram músicas de Paulo, pai de Estrela Leminski. Para “Tudo Que Não Quero Falar Sobre Amor” acontecer foi necessário ativar contatos adormecidos ou deslocar alguns objetivando a produção artística, para que o resultado fosse, mais do que tudo, colaborativo. Assim, o disco terá 12 músicas gravadas em quatro cidades diferentes (Curitiba, São Paulo, Belo Horizonte e Porto Alegre), com sete produtores musicais (além dos já citados Pupillo e Rodrigo Lemos, Marcelo Fruet, John Ulhoa, Guilherme Kastrup, Dante Ozzetti e Fred Teixeira) e dez diretores e diretoras da cidade: Luciano Coelho, Gustavo Guimarães, Juliana Sanson, Bernardo Rocha, Carol Winter, Marta Souza, João Marcelo Gomes, Carlon Hardt, Lucas Fernandes e Paulo Biscaia.

Os produtores escolheram seus músicos de preferência para gravar o disco, diz Estrela, e por isso a dupla tem “uma banda em cada cidade.” Ela, aliás, voltou a tocar bateria. E na pior das hipóteses, o show sem uma banda “irá ficar meio White Stripes”. De John Ulhoa, do Pato Fu, por exemplo, quiseram o pop não imaturo. De Pupillo, algo visceral típico da Nação Zumbi. Em todas as faixas, avisa a dupla, há algum tipo de ruído, interferência, seja como ponto de partida instrumental ou desdobramento natural da canção – uma das músicas virou sampler dela mesma, me avisa Estrela. Para a aventura não soar como um samba do polaco doido, Fred Teixeira foi o único responsável pela mixagem do disco.

Não ao amor standard

O que embala este projeto multiartístico, presente nas letras, principalmente, é o amor, mas não aquele – idealizado, platônico, acomodado. “Em nenhuma música falamos do amor clichê”, diz o casal, quase em uníssono. “Não fazemos som fofinho, nunca fizemos, aliás”, defende Téo. Política, poliamor, a intenção da palavra e a agressividade não escorrida são temas das canções. “O amor idealizado não cabe mais. Nós saímos de uma infância política e a hipocrisia está mais escancarada. Nossa crise é ética. Não dá pra ser quem a gente não é”, diz Estrela.

Este compromisso com o tempo futuro, com o anticonservadorismo, é natural para o casal. O contato com adolescentes (têm filhos de 16 e 9 anos) e a lição de casa, principalmente no caso de Estrela, fazem o processo ser natural e atemporal. É como se precisássemos todos também, vez em quando, sermos filhos de Paulo Leminski e Alice Ruiz. “Nunca consegui contar uma novidade em casa. Eles já estavam por dentro de tudo.”

A versão em CD de “Tudo Que Não Quero Falar Sobre Amor” sai em setembro, pela YB Music. Abaixo, o cronograma de lançamento dos outros clipes do disco:

++++++++++

Curitiba

11 de maio

Paradis Club – Rua Paula Gomes, 306

*

Belo Horizonte

24 de junho

Benfeitoria

*

São Paulo

22 de julho

AP 80

*

Curitiba

Arnica Cultural

27 de agosto

redoma 1

Redoma #7: sobrinho de Villa-Lobos é DJ em festa libertária

13 abril, 2017 às 12:04  |  por Cristiano Castilho

O DJ e produtor Pedro Manara, sobrinho-neto de Heitor Villa-Lobos, é uma das atrações da sétima edição do projeto Redoma, que baixa acampamento novamente em Curitiba neste sábado (15), a partir das 17h, em uma casa-jardim (com alvará) na Rua Eduardo Sprada, 4320, no Campo Comprido. As bandas EBPM, Obake, LIFE e O Tronxo (Amazonas) também tocam na área externa do espaço. À noite, a pista acontece com os artistas Sannanda (Seminal Records), Dannyhell (Tela Bruta-SP), Meste Xin (MUB Records-RJ), Harshdüst (Fluxxx-SP), Cláudio Rotunno (Alter Disco) e Manara (4Finest Ears-RJ). Mas a música é só um pedaço.

Pedro Manara, sobrinho-neto de Heitor Villa-Lobos.

Pedro Manara, sobrinho-neto de Heitor Villa-Lobos.

Independente, a Redoma é uma festa itinerante que provoca e propõe. A equipe, hoje com 13 integrantes de diversas áreas artísticas, é conhecida por ocupar espaços públicos de Curitiba e fazer deles uma celebração democrática a céu aberto. O objetivo é a distribuição igualitária da música e da arte, com o foco final na conscientização sócio-política. As festas em espaços fechados, como a que acontece neste sábado, são para angariar fundos para que o projeto siga adiante em sua proposta.

redoma 1

“Atingimos a minoria que não tem poder aquisitivo para estar dentro de um clube ou de uma casa de shows. Nossa essência é o colaborativismo, os protestos em busca de igualdade, todas elas, e manifestações artísticas”, diz Lourene Nicola, DJ e uma das cabeças à frente da Redoma. “O nome da festa significa proteção. Quando você põe uma redoma em algo, está protegendo aquilo. É um refúgio para que as pessoas possam se expressar livremente, se sentirem bem”.

Redoma nas Ruínas de São Francisco: ocupação e mobilização.

Redoma nas Ruínas de São Francisco: ocupação e mobilização.

Quatro grafiteiros, três instalações em tecnologia, doze expositores (pintura, foto e fotojornalismo). feira de vinil e antiguidades, três marcas de roupas curitibanas, 16 performers, tatuagem interventiva e uma peça de teatro completam o “lineup” da Redoma 7, que pretende reunir 500 cabeças abertas.

Ouça “Ihnteractions”, disco de estreia de Pedro Manara:

SERVIÇO

Redoma_sete > analógica <

Sábado (15), a partir das 17h.

Rua Eduardo Sprada, 4320.

Ingresso: R$ 30 – pode ser adquiridos online aqui.

pallets

Pallets lança vinil em show com a imperdível Nevilton

6 abril, 2017 às 11:45  |  por Cristiano Castilho

Era de se esperar. Com influências diretas do rock dançante da década de 70 e embriagada na sujeira do garage rock dos 60, a banda Pallets lança nesta sexta-feira (7), com show no Jokers Pub, o seu primeiro álbum em vinil – um compacto em sete polegadas com duas músicas inéditas. O ótimo power trio Nevilton, de Umuarama, radicado em São Paulo, também se apresenta.

pallets

Nascida e criada em São José dos Pinhais há 12 anos, a Pallets tem três EPs e um disco lançados – “Independência ou Sorte”, de 2012. O compacto em vinil tem participações especiais de Birlla Malerba, da banda Trilho, e Rafael Marchiorato, tecladista do grupo O Sebbo. O disco foi prensado pela Polysom, no Rio de Janeiro.

A Nevilton é um dos grandes nomes do rock nacional recente. Power trio competentíssimo, com influências do indie rock e do power pop dos anos 90, e foi indicada ao Grammy Latino na categoria Melhor Rock de Álbum de Rock Brasileiro, pelo disco “Sacode!” (2013).

 

SERVIÇO

Pallets em Vinil + Nevilton

Sexta-feira, 07/04 – 22h

Jokers Pub (Rua São Francisco, 164 – Centro)

$15 antecipado

$25 na hora

Pontos de Venda:

Estúdio dos Pallets

Villa Bambu Cantina

Rei Arthur Hamburgueria Gourmet

Jokers

 

arnica embargo

Arnica fechada e Ilíada na Câmara: sensibilizai-vos, parlamentares

4 abril, 2017 às 14:06  |  por Cristiano Castilho

Na próxima quinta-feira, às 19 horas, o Palácio Rio Branco, sede da Câmara Municipal de Curitiba, irá receber a apresentação/interpretação do poema épico grego “Ilíada”, de Homero. O ator Richard Rebelo, da companhia Iliadahomero, preparou o Canto 16, que narra o momento em que Pátroclo pede armadura, armas e a permissão a Aquiles para entrar na luta contra os troianos. Simbólico.

De iniciativa do vereador Goura (PDT), este é um evento inédito no prédio construído no século 19. A importância vai além da performance. A Ilíada é uma obra de fundação da sociedade ocidental e os textos de Homero ainda hoje fornecem exemplos de virtude a serem seguidos. Sem mais filosofagens, é uma oportunidade rara de sensibilizar o poder legislativo – isso se nossos vereadores permanecerem até depois do expediente – e de resgatar o papel do parlamentar na vida cultural na cidade. Pois estamos precisando.

arnica embargo

A Arnica Cultural, um dos espaços mais interessantes de Curitiba, foi o último a ser momentaneamente silenciado. A casa no Bigorrilho, que recebeu shows de Metá Metá, Curumin, Nomade Orquestra, Apanhador Só, Di Melo, Yuck e muitos etc., foi embargada a pedido do Ministério Público. O problema é o alvará, mas não só isso: é a pragmatização agressiva da fiscalização. Bares e espaços culturais da cidade, recentemente, vivem uma cruzada inacabável para entrar nos eixos agora postos. Legalmente, o espaço não pode realizar eventos ao ar livre com música ao vivo. Uma tentativa foi pedir o alvará de “centro cultural” à prefeitura – o que tecnicamente habilitaria a Arnica – mas também nada feito. Até a polícia apareceu e, no último domingo, o MP pediu o embargo. Há relatos de que integrantes da comitiva tiraram selfies em frente a placa que lacrou a porta, como se comemorassem ali mais uma empreitada de sucesso.

Sensibilidade e bom senso são algumas das virtudes de quem se interessa por cultura – no sentido amplo mesmo, universal. Sabemos que a Arnica é um espaço altamente democrático, sustentável e formador. Esta intransigência quase violenta com o que está dando certo poderia ser revertida em ajuda e assistência para que as coisas se ajustem legalmente – é o que todos querem. Em vez de fechar portas, ajudar a abri-las ainda mais.

Se o silenciar em progressão da cidade for apenas o resultado de inconsistências técnicas e jurídicas, as virtudes morais de Homero podem dar uma mãozinha. Porque como já disseram, burocracia em excesso é reação à falta de paixão.

 

SERVIÇO

Apresentação do canto 16 da Ilíada, de Homero
Por Companhia Iliadahomero
Dia 6 de abril (quinta-feira), às 19 horas
Câmara Municipal de Curitiba
Palácio Rio Branco
Rua Barão do Rio Branco, 720, Centro.
Entrada gratuita
Informações: (41) 3350 4500 ou www.cmc.pr.gov.br.

Espetáculo aconteceu na Rua XV, no Centro de Curitiba. Foto: Franklin de Freitas.

Espectador é atingido por pedra durante peça anti-homofóbica

30 março, 2017 às 15:34  |  por Cristiano Castilho

O estudante de teatro Maicon Silverio, de 26 anos, foi atingido no ombro direito por uma pedra durante a exibição do espetáculo “Campeonato Interdrag de Gaymada”, ontem (29) à tarde, na Boca Maldita, Centro de Curitiba. Parte da programação do Festival de Curitiba, a peça do coletivo mineiro Toda Deseo discute diversidade sexual com bom humor e trabalha questões relativas à intolerância com gays, drag queens e transgêneros, sempre com apresentações em espaços públicos.

Espetáculo aconteceu na Rua XV, no Centro de Curitiba. Foto: Franklin de Freitas.

Espetáculo aconteceu na Rua XV, no Centro de Curitiba. Foto: Franklin de Freitas.

“A peça estava prestes a começar e de repente senti uma pancada forte no ombro. Não vi da onde veio”, diz Maicon, que foi socorrido por produtores do festival e pelos próprios atores. “O que me deixou mais em choque foi a agressão acontecer às 4 e meia da tarde justamente durante uma peça que prega a tolerância”, explica o estudante da FAP. Maicon não registrou queixa na Polícia e o espetáculo continuou normalmente. “Chorei porque acho que a cidade não está preparada para receber esse tipo de intervenção, que representa eu e muita gente”.

O “Campeonato Interdrag de Gaymada” estreou em Belo Horizonte, em 2015. “Nunca tivemos nenhum problema, além de alguns xingamentos e agressões verbais que transformamos em risos”, diz David Maurity, 29 anos, ator e fundador do grupo Toda Deseo. Maurity tomou conhecimento da situação quando um produtor foi atender o estudante ferido. “Por isso tudo, acho que peças como essas são cada vez mais urgentes para uma cidade como Curitiba.”

Pedra atingiu o ombro de Maicon Silverio. Foto: Reprodução/ Facebook

Pedra atingiu o ombro de Maicon Silverio. Foto: Reprodução/ Facebook

 

“Cuidado com Curitiba”

Antes de vir para o Festival de Curitiba, David foi avisado por amigos e colegas atores sobre a suposta intolerância da cidade com LGBTS. “Nos disseram para tomar cuidado, para não andarmos sozinhos à noite, mas nunca imaginei que isso pudesse acontecer”, diz o ator mineiro.

O “Campeonato Interdrag de Gaymada” acontece novamente hoje (30), às 16h, no Passeio Público. “Vamos apresentar a peça normalmente. Nosso único medo é a chuva.” No Festival de Curitiba, o grupo Toda Deseo também apresenta a peça Nossa Senhora [da Luz], nos dias 1º e 2 de abril, às 20h, na Praça Santos Dumont.

O Festival de Curitiba, via coordenadoria de comunicação, diz que lamenta o ocorrido. “O Festival é contra qualquer tipo de violência e algumas peças presentes na programação são para dar voz às minorias.”