a grande nuvem

“A Grande Nuvem Cinza” documenta tragédia recorrente de forma sublime

14 junho, 2016 às 15:52  |  por Cristiano Castilho

Há uma interessante sensação de incompletude ao término de “A Grande Nuvem Cinza” (veja trailer abaixo), primeiro longa-metragem do curitibano Marcelo Munhoz, que estreou nesta edição do Festival Olhar de Cinema. Sua hábil direção com não atores, a fotografia exata e também com função narrativa, a trilha sonora discreta, porém sempre prestes a explodir, criam um clima de inquietude não explícita e constante, permeado pela própria história real – e trágica – que o diretor conta às migalhas, sem pressa e com respeito àqueles com quem conviveu por mais de um ano.

O cenário é Rio Azul, cidade do Sul do Paraná colonizada por poloneses e ucranianos. Uma típica família do campo nos é apresentada: a cena de abertura é o abatimento de um boi para um grande churrasco na comunidade. Na ocasião, mulheres e homens estão divididos em atividades “para eles” e “para elas”. O patriarcalismo e a manutenção dos valores da igreja católica (imagens de santas pipocam na tela), e até o machismo – “ela é meu braço direito, apesar de ser mulher”, diz um dos personagens – é um dos subtemas explorados com elegância por Munhoz.

a grande nuvem

O que faz o filme girar, no entanto, é relação da família com o plantio e o cultivo do fumo, prática muito comum naquela região. Não há diálogos esclarecedores, e tampouco eles são necessários. A ótima montagem e alguns depoimentos espontâneos dão conta de esmiuçar a luta para manter as economias da família apesar dos riscos que a lida no campo oferece.

Um personagem se destaca: é Lídia, cadeirante. Toma chimarrão em silêncio, envolta numa aura de melancolia e desesperança. Com a ajuda da filha, decora um texto que não sabemos ainda para que serve, enquanto seu marido pulveriza com veneno (e sem proteção adequada) muitos hectares de plantação de fumo. O fio condutor do filme, aliás, é o crescimento da própria planta: somos apresentados à família quando o que há é terra. Nos despedimos dela quando o fumo está na fábrica, pronto para ser embalado e vendido.

Ao fim do filme (não funciona como spoiler), Lídia vai a uma escola primária da cidade, contar sua história de vida. E de como perdeu os movimentos da perna e teve outros problemas de saúde devido à intoxicação crônica pelo veneno utilizado na plantação. Pode tanto funcionar como um alerta, mas, de acordo com o que vimos pela lente de Munhoz, é mais a antecipação de algo incontornável, devido à situação imutável da comunidade.

Com elenco não profissional que parece saído de uma escola de atores e um clima de suspense, que tem numa planta o principal inimigo, o documentário de Marcelo Munhoz se assemelha à ficção. Mas nos assustamos mesmo é com a realidade.

Serviço

O Festival Olhar de Cinema exibe novamente “A Grande Nuvem Cinza” nesta quarta-feira (15), às 18h15, no Espaço Itaú – sala 3.

 

 

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