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Confirmado em 2018, Coolritiba se provou alternativa à alienação musical

17 maio, 2017 às 15:15  |  por Cristiano Castilho

O maior saldo do Festival Coolritiba foi provar que um evento de relevância musical e artística pode acontecer sem alienação sócio-cultural. Se a sustentabilidade e outras preocupações ambientais já são prerrogativas para o novo modelo de negócios da indústria de shows, a presença de 10 mil pessoas interessadas em bandas que questionam as barbeiragens políticas com sensibilidade num evento grande assim, com patrocínio de marca de cerveja popular e camarotes à disposição por algumas centenas de reais, pode até parecer um paradoxo – mas é uma novidade otimista.

Foto: Oruê Brasileiro

Fotos: Oruê Brasileiro

Você pode até pensar no Psicodália, no Bananada, no Suave, mas são outras histórias. Estes são festivais independentes, em todos os sentidos, e pouco se esforçam – devido à sua natureza – para sair da bolha. O Coolritiba desbancou primeiramente certo preconceito com seu nome. Depois, conseguiu colocar num espaço de tempo relativamente curto – das 14h de sábado, com um bate-papo sobre mobilidade urbana, à 1h da manhã de domingo, com o show dos Novos Baianos – artistas que caminham pela mesma estrada, que escrevem, com algumas variações, a mesma narrativa.

Cheguei ao fim do show da Naked Girls & Aeroplanes – que no último dia 12 lançou o EP “High Paradise” – mas estacionei no show do Trem Fantasma. A banda está cada vez mais consistente e desenvolta, o que pode ser percebido no ótimo disco “Lapso”, lançado no ano passado. Um porém notado desde cedo foi a localização do palco Arnica, que estava estacionado na entrada da Pedreira Paulo Leminski, interrompendo o fluxo e o contra-fluxo de pessoas, que às vezes se engatavam num trenzinho para conseguir atravessar a multidão. Foi assim durante toda a noite, mas sem nenhuma treta – e isso também significa.

negra orue

O palco principal era enxuto (ou “cool”?) e nela voava Céu. Sua presença e beleza são hipnóticas, e as músicas de “Tropix” combinaram com aquele início de fim de tarde. Perdi A Banda Mais Bonita da Cidade com a participação de Paulo Miklos porque queria ver o show da Nomade Orquestra inteirinho. Pelos vídeos e comentários de quem assistiu, o negócio foi bonito, com “Comida” logo no começo e “Flores” levantando o povo. “Oração” ainda existe, e talvez tenha deixado a pecha de hit efêmero para virar um marco-símbolo de uma geração sensível por natureza, e isso não se pode mudar.

A contribuição da Nomade Orquestra para a narrativa é ter a capacidade de agregar muitas visões artísticas individuais de forma coesa e criativa. O caldeirão de groove do grupo do ABC paulista soa natural, e os arranjos surpreendem com viradas rítmicas e samples muito bem acertados, como na faixa “Sonhos de Tokyo”, que tem “intervenção” de Elis Regina. Essa troca coletiva é fruto da convivência e confiança de seus integrantes, e o resultado-fim são sorrisos em rostos serenos.

Nomade Orquestra

Nomade Orquestra

Nos intervalos das bandas do palco Arnica, uma das melhores atrações do festival e da nossa cena recente: a rádio Kombi. Velha conhecida do Psicodália, a dupla Heitor Humberto e Luana Angreves explode a pista com groove, funk brasileiro, bregas esquecidos e piras latinas. Ninguém arredou pé entre o show da Nomade Orquestra e o da Trombone de Frutas.

Rádio Kombi

Rádio Kombi

A banda curitibana, aliás, se acertou como um time de futebol recheado de craques precisa se acertar. Houve podas nas intervenções cênicas e nas piadas, e o que sobra, com ironia medida, técnica e vibração, é um show forte, que tem momentos de devaneio e também de pés no chão. E tudo faz sentido (lembra da narrativa?): a balada “Bicicletas Olaf”, do primeiro disco da banda, relembra um caso real de ataque a um ciclista que, após um incidente com um motorista, queria apenas conversar. Já a inserção de parte de “I Want You (She’s So Heavy)”, dos Beatles, executada com maestria na faixa “Umbrais”, ganhou o coro melódico “fora, Temer”.

Trombone de Frutas

Trombone de Frutas

O clímax da narrativa aconteceu durante o show da Francisco el Hombre. A banda de Campinas começou na rua. O nome homenageia o músico viajante Francisco, personagem de Gabriel García Marquez em “Cem Anos de Solidão”. Por isso os irmãos Sebastián e Mateo Piracés trazem na essência de sua música o improviso e algo de mágico. Bateria e percussão visceral, linha de baixo insinuante e intervenções noise de guitarra dão um contraponto ideal à linda harmonia vocal do grupo, que canta também em espanhol sobre temas importantes. “Viene bailando la horda de milicos/ Quiere que todos se porten bonito: ‘caminen igual y vistanse igual’/ Y aqui les enseñan como ser normal y si dicen que el hombre se debe callar”, diz a letra de “Dicen”, música inspirada num poema de Allen Gingsberg e criada para que os irmãos Piracés pudessem falar sobre ditadura com os sobrinhos. Recheado de discursos bem-vindos e gritos de “fora, Temer” o show teve também a participação da banda Mulamba. Com o feminismo e a necessidade do empoderamento como partitura, a banda detonou ouvidos sonolentos e cabeças preguiçosas com um petardo certeiro: a música P.U.T.A, lançada no fim do ano passado. No palco, cantaram “Triste, Louca ou Má”, de Francisco el Hombre, ao lado dos paulistas. A canção (e a narrativa) diz assim: “Aceita que tudo deve mudar/ que um homem não te define/ sua casa não te define/ sua carne não te define/ você é seu próprio lar.” Gritos de liberdade em dose dupla.

Francisco el Hombre

Francisco el Hombre

No palco principal, uma multidão de braços estendidos chacoalhavam ao som do pop-rap de Projota, que encontra em adolescentes inquietos o público ideal para suas rimas que querem extrapolar o gueto. Palavras fortes contra “aqueles que não deixam você fazer o que quer” e outras de apoio e incentivo finalizaram o show do paulistano.

Bom, Criolo não mostrou ao vivo “Espiral de Ilusão”, seu novo disco, dedicado ao samba. Mas o cara acontece de qualquer maneira. O moletom do Zaire deu lugar à conhecida túnica branca, e aí a aura messiânica novamente se estabeleceu. Criolo arrasta pensamentos com sua poesia urbana. Como poucos artistas de sua geração, tem total controle sobre o público, que é capaz de segui-lo fielmente e cantar o que ele pedir. “Bogotá”, metáfora possível sobre o caminho que a “droga” percorre até chegar onde precisa (e suas consequências) foi o ponto alto do show.

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A apresentação histórica dos Novos Baianos combinou de acontecer junto da tempestade. A apresentação começou morna e embolada – dificuldades técnicas, descompassos –, mas este é o tipo de show em que a percepção crítica perde espaço para a afetividade. Pois os hits de “Acabou Chorare” foram enfileirados e celebrados um após outro 45 anos depois de Moraes Moreira, Baby do Brasil, Pepeu Gomes (como ele toca!), Paulinho Boca de Cantor, Dadi e Luiz Galvão criarem uma comunidade alternativa e tratarem o dinheiro como algo secundário que poderia ser guardado numa sacola. Se a voz de Baby está tinindo trincando e a de Moraes parece ser a de quem passou por uma traqueostomia, não importa tanto. O retorno da banda, e de suas ideias, e do grito miúdo de Moraes ao fim do show, dizendo “Brasil, esquentai vossos pandeiros”, serviu para chancelar um festival cuja ideia não é parar a roda, mas fazê-la girar diferente.

1 Comentários

Uma ideia sobre “Confirmado em 2018, Coolritiba se provou alternativa à alienação musical

  1. Willian

    Boa a análise feita pelo Cristiano. Não fui, mas queria muito ter ido. O valor da entrada (bem como da meia) não estavam, assim, tão acessíveis, ainda mais para o bolso de um desempregado.

    Responder

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