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Entrevista – Fred 04: “vamos viver o momento exponencial do trabalho precário”

8 fevereiro, 2018 às 12:51  |  por Cristiano Castilho

Fundador e principal compositor da banda Mundo Livre S/A, que com Chico Science e Nação Zumbi consolidaram o movimento manguebeat nos anos 90, Fred 04 se prepara para a apresentação no Festival Psicodália (sexta-feira, dia 9, à meia-noite). Fred revisita o disco “Carnaval na Obra”, que completa 20 anos em 2018; diz que o processo quase compulsivo de baixar e ouvir músicas degrada o valor simbólico de um álbum; que a influência do manguebeat é direta, inclusive no carnaval; e que vamos viver o momento exponencial do trabalho precário no Brasil, como a banda já havia antecipado na música “Livre Iniciativa”. No Natal de 2017, a Mundo Livre S/A divulgou sua primeira música inédita em seis anos, single do álbum que será lançado em breve. Fred 04 conversou comigo por telefone, de sua casa em Recife:

- Qual foi a última música que você ouviu?
Estou preparando o repertório dos shows pra esse carnaval, então tô aqui resgatando algumas músicas do disco “Carnaval na Obra”, que completa 20 anos em 2018. A última música que ouvi foi “Negócio do Brasil”, que aliás continua superatual. Parece que foi gravada ontem.

- Sobre o Psicodália. Você conhece o festival, sabe qual o clima?
Estamos com um baixista novo, o Pedro Diniz. O Pedro acompanhou o Di Melo no show que ele fez no Psicodália ano passado. Ele só jogou confetes. Disse que o astral é ótimo. Eu queria ver todos os shows, se pudesse, mas vamos tocar no Sesc Itaquera, em São Paulo, no dia seguinte. Então vai ser meio corrido…

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- E sobre o show: o que vão apresentar por lá?
Fomos orientados sobre o tempo do show, que é de uma hora. Então vamos dar uma pincelada em várias fases da banda, algumas músicas do “Carnaval na Obra” e uma ou outra música nova, que estarão no próximo disco – como “Meu Nome Está no Topo da Sagrada Planilha” (ouça abaixo), lançada no fim do ano passado. Vamos tocar com a banda inteira, na companhia do maestro Baby no trompete e de Bob no trombone.

- O DVD que vocês lançaram em 2016 (“Mangue Bit”) saiu graças à contribuição de cerca de 300 fãs. Isso é essencial hoje? Essa forma de patrocínio afetivo?
O custo inicial foi via crowdfunding. Mas não arrecadamos o suficiente, então fizemos uma parceria com o Sesc Belenzinho. É um troço diferente. Você tem autonomia, carta branca dos fãs, é meio libertador. E por outro lado, você cria um banco de dados. A banda tem hoje uma noção bem clara do perfil dos apoiadores, onde estão etc. Claro que há uma questão financeira importante, já que nem todo mundo consegue apoiar. Outra coisa é o lance da sustentabilidade. A cultura digital, o download de música, gerou muita discussão e eu participei de várias, inclusive com o grupo Fora do Eixo. Sempre me preocupei com a questão simbólica, sobre a mensagem que o consumidor manda para o cérebro quando baixa música compulsivamente, sem nenhuma contrapartida. Será que esse processo não degrada o valor simbólico de um álbum, de uma obra? Se fala tanto em sustentabilidade da natureza, porque não discutir a sustentabilidade de seus artistas favoritos? Lembro do Gilberto Gil. Um cara que antes de entrar na música para valer já era um executivo. Ele era um compositor diletante, aí surgiram os festivais e ele acabou vencendo. Se fosse hoje, ele abandonaria a carreira se ganhasse um concurso? Será? Tem uma coisa muito louca aí que é uma hegemonia quase opressiva de um tipo de música. É muita grana rolando nesse nicho, há um impulsionamento financeiro enorme. O artista que não tem esse perfil, o artista alternativo, que não trabalha nessa engrenagem, tem mais dificuldade. E é importante passar isso para o público.

- Então você é contra o download gratuito?
Sim, sou contra. Tem que pagar o que se consome. Eu tenho dois filhos, um de 11 e um de 15 anos. Eles só consomem música via streaming ou YouTube. O dinheiro que entra para mim todo mês, repassado pelo Ecad, é uma merreca. Há dois selos interessados em fazer a distribuição do disco novo, então vamos ver.

- O Manguebeat deixou de ser um impulso regional rapidamente, e virou talvez o maior movimento musical desde a Tropicália. Como você vê o legado hoje, há renovação? Como está a nova música de pernambuco?
Desde a semana passada, está rolando em Recife o Porto Musical, próximo do marco zero da cidade. Há conferências, palestras, mesas, debates, tudo envolvendo o circuito da música. À noite, há shows gratuitos, atrações nacionais e internacionais. E pernambucanas. Isso atrai muita gente. O que vejo é que há sempre um maracatu rolando. Antes do Chico [Science, fundador da banda Nação Zumbi], durante o carnaval você ia pra Olinda e corria o “risco” de cruzar um ou outro maracatu. Hoje, é impossível não ouvi-lo. É um legado direto, a valorização da produção local. Este carnaval multicultural foi instituído oficialmente pela prefeitura em 2001. E foi assimilado e absorvido pela marginália da cidade de uma forma impactante. Tentaram retomar os trios elétricos e micaretas durante a gestão do PSB, mas não rolou. O cara que implantou este modelo, João Roberto Peixe [PT, secretário de cultura entre 2001 e 2004] é ultra-associado ao conceito do manguebeat. Além disso, algumas escolas de ensino médio também entram em contato com o movimento, que se renova.

- Sobre política: você prefere se posicionar? Acha que a música de vocês ainda é uma resposta ao que acontece no país?
Uma parcela do conceito do disco novo, [“A Dança dos Não Famosos”], sempre teve essa postura crítica. O público que nos acompanha desde o início da carreira não esperaria outra coisa. E também pela minha formação. Fui diretor de Centro Acadêmico, me formei em jornalismo. “Livre Iniciativa”, música do nosso primeiro álbum [“Samba Esquema Noise”, 1994] já denunciava essa reforma trabalhista. Vamos viver o momento exponencial do trabalho precário. Ao mesmo tempo, é claro que os índices de violência urbana aumentam. Vejo dois ou três pessoas resgatando o clipe de “Livre Iniciativa” e articulistas de economia celebrando… o empreendedorismo. Essa reforma vai fudê com a previdência de vez porque acaba com a contribuição. Aí todo mundo vai vender churrasquinho na praia. Esse novo disco vai falar pra caralho disso. Porque a gente respira e reflete o que vive. Alguns optam por música apolítica, mas têm uma postura engajada. Eu não consigo fazer essa separação.

 

 

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