Foto: Blog Tudo que você (ou) vê

Lee Ranaldo no Paiol: o beck, o show e a entrevista quase perdida

19 setembro, 2016 às 14:32  |  por Cristiano Castilho

Teatro do Paiol, 18h45 de segunda-feira, 12 de setembro. Há burburinhos sobre o show extra que Lee Ranaldo faria logo mais, às 19 horas – os ingressos para sessão oficial se esgotaram mais rápido do que a duração de “Washing Machine”. Fila na bilheteria, e aquela expectativa silenciosa para ver um dos guitarristas do Sonic Youth ao vivo, ao violão, num lugar íntimo e improvável.

Acendo um cigarro sobre a grama em frente à entrada. Um rapaz de óculos pergunta se tenho fogo. Puxo meu isqueiro azul-calcinha do bolso. De camisa xadrez e com uma taça de vinho tinto na mão, Lee Ranaldo o segue. Meio perdido, olha para os dois lados rapidamente. O rapaz diz que logo irá devolver o isqueiro, mas desiste da ideia e pergunta: “Quer vir junto”?

Foto: Blog Tudo que você (ou) vê

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Vamos os três para a lateral do teatro. Lee Ranaldo acende seu baseado, eu termino o meu Camel.

- Que ótimo te encontrar aqui antes do show. Bem-vindo a Curitiba.

- Sim. Este teatro é incrível, diz Ranaldo.

Conto um pouco da história do espaço. O lembro que um paiol de pólvora virou um espaço cultural em 1971. E fico sem jeito para cobrá-lo sobre uma entrevista que não aconteceria se não fosse aquela sincronicidade. E aquele isqueiro azul-calcinha.

- Poxa, você não respondeu meu e-mail.

- Que e-mail?

- Uma entrevista. Te mandei umas perguntinhas.

- Tenho certeza de que respondi a todos. Vou dar uma olhada no meu e-mail, ok? Posso ter perdido.

- Claro, sem problemas.

A conversa dura três minutos. O rapaz que me pediu o isqueiro volta esbaforido e avisa que é a hora de Lee.

- Um bom show pra você!

- Obrigado, cara. Prazer falar contigo. E vou checar meus e-mails.

Era o terceiro show de Lee Ranaldo no Brasil, todos neste formato solo. Havia tocado em Brasília e São Paulo e seguiria para Belo Horizonte e Salvador – de onde escreveria as respostas à dita entrevista, na íntegra logo abaixo.

Foi paradoxal. Ao mesmo tempo em que era incrível ver aquele cara debulhando ao menos três violões diferentes, com uma pedaleira de dar inveja a qualquer banda noise, a narrativa do espetáculo foi aos solavancos. Sem a banda The Dust, as músicas do disco “Last Night on Earth” (2013) e “Between the Times and the Tides” (2012), que basicamente formaram o repertório, se pareciam demais umas com as outras – no show “oficial”, Lee tocou um cover de “Ocean”, do Velvet Underground.

lee 2

Lee Ranaldo errou um bocado de vezes, e riu disso. Todos riram. Porque não pareciam erros técnicos, mas um estado de espírito “livre”, quase como o que guiou a carreira do Sonic Youth, mas agora travestido de insegurança e espontaneidade.

É daqueles casos em que a presença do artista, por si própria, se destaca mais do que a performance. Lee entrou com o jogo ganho, como se diz. Na bonita “Xtina as I Knew Her” houve um dos raros momentos de sintonia com o público. Mas durante a maior parte do tempo, era apenas um sujeito relaxado (demais) tocando suas músicas ao violão. O que não deixou de ser bonito porque esse sujeito era Lee Ranaldo.

O músico ironicamente “dedicou” uma faixa a Donald Trump. E parece não ter entendido os pedidos para que gritasse “fora Temer”, ao menos na primeira sessão. Foi um show não inesquecível, mas inusitado.

Às 8h30 de quarta-feira (14), um e-mail pisca na minha caixa de entrada. Era de Lee Ranaldo, com as respostas à entrevista. Ele diz que está ouvindo Novos Baianos, que comprou uma viola caipira. Também respondeu sobre a importância de fazer o que se quer, à revelia do sucesso e sobre o fim do Sonic Youth. “Ninguém nunca espera que um grupo dure para sempre e nós trabalhamos juntos por 30 incríveis anos. Acho que, no momento, estamos felizes em trabalhar separadamente.”

Qual foi a última música que você ouviu?

A última? Ontem à noite, depois do show no Rio de Janeiro, estávamos ouvindo Negro Leo [compositor e violonista maranhense de 33 anos] e Novos Baianos. Embora conheça um pouco, estou tentando saber mais sobre a música brasileira. Ano passado, quando estive aqui, alguém me apresentou à música de Helena Meirelles e à viola caipira. Me apaixonei pelo instrumento e nessa viagem comprei uma!

Como é tocar numa cidade “pequena” do Brasil, e em um teatro intimista? Alguns ajustes são necessários?

Embora trabalhe com uma banda e meu álbum tenha sido gravado com uma banda, estou achando bem interessante e recompensador apresentar minhas músicas neste formato acústico. Por esses dias, escrevi muitas músicas no violão e muitas canções começam assim. Queria tocar em um lugar pequeno, para pessoas sentadas, porque sabia que seria uma experiência diferente, tanto para mim quanto para o público. É melhor do que tocar nos mesmos e velhos bares de rock.

Nesta turnê, visitei Brasília pela primeira vez, assim como Curitiba e Salvador. Fiquei muito contente. Gosto mesmo do Brasil e espero passar mais tempo por aqui.

Você também é poeta, escritor e artista visual. Como a música se relaciona com tudo isso? As ideias surgem do mesmo lugar?

Acho que tudo, de alguma maneira, está relacionado, em termos de direcionar a criatividade e refletir sobre a vida. Estas três coisas – arte visual, música e escrita – me interessam desde que era muito jovem. Em alguns casos, elas se complementam. Não gostaria de deixar nenhuma de lado.

Por que músicas do Sonic Youth não estão no repertório?

Eu toco algumas músicas do Sonic Youth ocasionalmente, aquelas em que canto. Mas, por agora, tenho muitas músicas novas e prefiro não voltar atrás.

 

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Quando o Sonic Youth acabou, Thurston Moore lançou um disco e Kim Gordon, uma biografia. Ambos tratam da banda e do casamento entre eles. Como você se sentiu no meio disso tudo?

Durante o último ano da banda, estávamos trabalhando juntos enquanto preparava o disco “Between the Times and the Tides” – isso durante uma turnê e outra. Então, quando as coisas mudaram e a banda parou, finalizei o disco e comecei a fazer shows sozinhos. Foi algo natural, uma coisa se articulou com outra. Suponho que tenha sido um choque para o público quando a banda acabou. Ninguém nunca espera que um grupo dure para sempre e nós trabalhamos juntos por 30 incríveis anos. Acho que, no momento, estamos felizes em trabalhar separadamente.

O Sonic Youth criou uma forma nova de se fazer rock. Com muito barulho e gravações viscerais (e fãs apaixonados, claro). Além disso, a banda ensinou, ao menos a duas gerações, que era possível ser um artista independente e provocativo e ao mesmo tempo parte de um mundo “normal”, com família, crianças e contas para pagar. Que lições novos fãs da banda podem tirar disso hoje em dia?

Não sei. Existimos em uma era pré-internet, quando algumas coisas eram mais simples e as distrações eram poucas. O mundo era menor quando começamos – na verdade nosso mundo era somente a pequena ilha de Manhattan – e nós podíamos trabalhar num relativo isolamento nos primeiros anos, aprendendo o que era importante para nós e como sintetizar todas as influências que tínhamos para criar algo que era unicamente nosso.

O que é música para você?

Todo som é música para mim. E o silêncio é um ritmo também.

Como é sua relação com a música hoje? Você ainda compra discos, os ouve online?

Eu uso a Apple Music e ainda ouço (e coleciono) vinis, hoje mais ainda, eu diria. Gosto da duração de um lado do disco de vinil – algo em torno de 22 minutos. É a duração perfeita para focar em uma seleção musical, melhor do que a do CD, que geralmente é muito longa para ouvir initerruptamente. De qualquer forma, a música está em todo o lugar hoje. Para alguns funciona como um suporte para alguma outra coisa, mas alguns de nós ainda ouvimos de verdade.

Muitos músicos (bons ou não) falam sobre sucesso. Talvez seja um conceito de difícil definição, especialmente nestes dias. Mas, em sua opinião, o que novas bandas precisam para serem reconhecidas pelo seu trabalho?

Acho que elas precisam parar de se preocupar em conquistar reconhecimento e, ao invés disso, se preocupar se estão criando algo que elas mesmo acham interessante. Também se perguntar se isso é algo que eles se veem fazendo por um longo tempo. Quando artistas mergulham nisso e “se encontram”, e encontram o que é importante para eles, o público começa a reconhecê-los. Fazer música é mais sobre trabalho, criação, e comunicação do que sobre sucesso – que é relativo e elusivo.

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