Crédito: Gilson Camargo

Obra de Bolanõ é radiografada por Vladimir Safatle: “A América Latina é uma forma de violência”

15 agosto, 2017 às 13:08  |  por Cristiano Castilho

A 5.ª edição do Festival Litercultura começou na noite de ontem (14), em uma Capela Santa Maria abarrotada e com gente lá fora querendo também seu ingresso (gratuito). O escritor e filósofo Vladimir Safatle foi o convidado para a tarefa – não tão fácil – de discutir Roberto Bolaño (1953-2003) em uma hora e meia na companhia do sociólogo e professor da UFPR Rafael Ginani Bezerra. O que ouvimos foi uma aula não sobre Bolaño, mas sobre o que o escritor chileno autor de “2666” eviscerou sobre a América Latina em seu percurso literário.

“A América Latina é uma forma de violência para além do imaginário colonial”, disse Safatle, que chamou de “desterro” uma das características mais fortes da escrita de Bolaño, e de nossa existência enquanto latino-americanos. “O estado é uma forma de gestão do desaparecimento e da violência, mas a violência que interessava ao escritor tem forma, produz.”

Crédito: Gilson Camargo

Crédito: Gilson Camargo

Com leituras de trechos de “Noturno no Chile”, originalmente publicado no ano 2000, Safatle discorreu sobre o poder da literatura para denunciar, “sempre com qualidade”, os equívocos políticos e os efeitos da ditadura, não só no Chile, mas em “qualquer país sul-americano.” Embebido em propositais contradições, “Noturno no Chile” é um monólogo composto por dois parágrafos em que o padre Sebastián Delacroix repassa sua vida como literário e poeta. Vale lembrar que Bolaño foi preso durante a ditadura de Augusto Pinochet e defendeu o trotkismo nos anos 1970, época em que vagava por México, El Salvador, França e Espanha.

“Veja este trecho, por exemplo. São frases grandes com fluxo de consciência, mas também com ineditismos para o formato, como a ironia. Bolaño foi capaz de traduzir 30 anos em três páginas.” A resposta a isso pode ser entendida como uma falta de pretensão genuína, aliada a um talento nato para ler o mundo e descrevê-lo, simbolica e assertivamente. “Bolaño tinha a consciência de que seu destino era ser um escritor menor [menos lido]. Por isso ele não teve medo de perguntar sobre o mundo”, justificou Safatle.

Suas artimanhas com a literatura policial também foram destaque na fala do filósofo. “Bolaño ressignificou as estruturas tipificadas deste estilo, acrescentando drama, também algo inédito para o gênero”, disse Safatle, provavelmente se referindo ao livro “A Pista de Gelo”, obra de 1993 que inaugurou sua carreira de prosador, já que antes o chileno havia publicado somente poesias em revistas extintas que deram voz à sua fase “infrarrealista”.

Vladimir Safatle. Crédito: Gilson Camargo

Vladimir Safatle. Crédito: Gilson Camargo

De forma enfática, Safatle defendeu a obra do chileno elencando discursos antiliterários aos quais o escritor sobreviveu: o jornalismo pragmático e o texto publicitário, por exemplo. E também a ideia de que não há uma “literatura nacional”, que na verdade é uma invenção funcional de uma burguesia instituída.

Não houve menções à “2666” e a “Os Detetives Selvagens”, obras consagradas profundamente discutidas. Nem à sua poesia, ainda sem tradução no Brasil. Safatle foi por uma via paralela em que ampliou a literatura de Bolaño para vertentes históricas, sociológicas, políticas e culturais, justificando, assim, para além da qualidade de sua prosa, seu lugar entre os maiores escritores dos últimos 30 anos.

O Litercultura segue hoje, às 19h30, com o escritor Julián Fuks, vencedor do prêmio Jabuti de 2015 com o livro “A Resistência”, comentando a obra do argentino Julian José Saer, uma de suas principais influências.

 

0 Comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>