Foto:  Gal Oppido/ Divulgação

Os Mulheres Negras em Curitiba: incomunicabilidade, air guitar e um “ridículo”

15 janeiro, 2018 às 14:08  |  por Cristiano Castilho

“Common Uncommunicability” é uma música d’Os Mulheres Negras lançada em 1990, no disco “Música Serve Para Isso”. A faixa foi apresentada por André Abujamra, daquele seu jeito assertivamente bem-humorado, como um pequeno estudo sobre a falta de comunicação na era moderna, e as armadilhas sociais subsequentes a isso: “We never talk each other/ We never try/
And life goes on in such a lonely way”, canta Mauricio Pereira sob a base eletrônica discreta e a guitarra pontuada de Abujamra.

Foto:  Gal Oppido/ Divulgação

Foto: Gal Oppido/ Divulgação

O show da dupla no Teatro da Caixa na última sexta-feira (12) proporcionou alguns choques temporais, que denunciaram certo anacronismo musical de uma banda dos anos 80 (que continua irreverentemente vanguardista três décadas depois), e uma falta de timing e de sinergia de uma plateia mista, formada por fãs com vinis da dupla debaixo do braço e por gente que nunca tinha ouvido falar naqueles que usam certa teatralidade, improviso e samplers para ir de Henry Mancini a Godzilla em uns poucos compassos.

Durante “Feridas”, uma engraçada faixa-deboche sobre os boleros que marcaram a música brasileira na década de 1970, a dupla tocava e silenciava. O riff ia e vinha, causando apuros numa plateia que não sabia se aplaudia ou se dava risada. No meio dessa inconsistência provocadora, um grito de “RIDÍCULO” soou imponente e deslocado. Seria uma brincadeira baseada naquele contexto caricato ou o cara estava realmente achando aquilo ridículo? Ninguém se manifestou.

Os Mulheres Negras passearam por “Milho”, uma música regional e universal ao mesmo tempo, e “Elza”, uma engraçada bossa-nova repetitiva que faz troça do gênero carioca antes de se lembrarem do causo. Na verdade foi André Abujamra, o baita guitarrista multiétnico que “morou em Curitiba por quatro anos e fez três amigos.”: “Ridículo é seu cu”, disse André, após expor seu descontentamento com o comentário inconveniente: “Fiquei puto.”

 

Um colega de Twitter avisou que o autor do tiro no pé na verdade queria fazer uma brincadeira, esperava que eles levassem na brincadeira, e se arrependeu disso. Uma tremenda falta de comunicação e de entendimento. Talvez pela distância que há entre o universo criado pelos Mulheres Negras, datado, mas bem-resolvido, e o ímpeto das gerações pós-década de 80, que se utilizam de ironia desmedida mesmo para dizer que gostam de alguma coisa.

Mauricio Pereira e André Abujamra, que voltam a se encontrar após um hiato gigante, em que cimentaram suas carreiras solo, continuam instigantes. A maneira como desconstroem referências ou tratam do cotidiano em músicas-manifesto, a utilização dos samplers de forma orgânica, e o brilho da guitarra de Abu seguem intocados. Mas o clima andava meio brocha no show, depois do auê. Abujamra perguntou se estava tudo bem, a plateia respondeu “sim” sem fazer muito esforço, mesmo batendo “palmas francesas” – com o indicador e o polegar utilizados em forma de pinça.

Antes do bis, Mauricio Pereira, criando um fato novo para quebrar o gelo (ou era tudo planejado?) chamou dois convidados para um air guitar instantâneo. Cinco minutos depois, apenas um desinibido se ofereceu. Foi divertido, inesperado. Mas não sei até que ponto necessário.

Michel Urânia e seu "air guitar". Foto: Cristiano Castilho.

Michel Urânia (o desinibido) e seu “air guitar”. Foto: Cristiano Castilho.

É reconhecida nacionalmente a sisudez do público curitibano, que um dia foi confundida com exigência. Mas acredite: é só quietude conformista, que neste caso específico do show, se embaralhava com a ansiedade de um público fiel e com a surpresa de quem nunca tinha visto os caras na vida. Na parte final do show, os “hits”: “John”, “Só Te Tele”, “Música Serve Pra Isso” e “Sub”, cantado por muitas vozes.

Artista e público convivem sempre numa troca constante, no firmamento de contratos específicos. Trinta anos depois, a 3.ª Menor Big Band do Mundo, com seu som distópico e cismado, mas também dialógico, encontrou uma plateia dura e corajoso. No fim, tudo se fundiu, como se naquele show houvesse espaço suficiente até para gafes bem-intencionadas.

Hoje à noite (15), Os Mulheres Negras se apresentam no Theatro São Pedro, em Porto Alegre. A banda também é uma das convidadas do incensado festival Dekmantel, que rola no antigo PlayCenter, em São Paulo, nos dias 3 e 4 de março.

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