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Por que “Vital”, de Francisco Okabe, é um disco necessário

23 janeiro, 2018 às 12:37  |  por Cristiano Castilho

Um letrista-cronista atento à vida ao redor, referências musicais já clássicas que se desdobram em novos acontecimentos e um time de instrumentistas azeitado fazem de “Vital”, (ouça abaixo), segundo álbum de Francisco Okabe, algo necessário. Produzido por Leonardo Lima, o disco foi lançado no início de janeiro e é mais uma tacada do selo Onça Discos.

Em tempos de desapropriação cultural, de canções antimelódicas e da valorização do que é fugaz, Francisco Okabe toma o caminho contrário. Métrica e poesia se esbarram em faixas bem arquitetadas – tanto melodica quanto harmonicamente.

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O ponto de partida de “Vital” é o samba “Salão de Espelhos”, metáfora aliterada sobre a invisibilidade da diferença. “Não somos nós cegos/ somos só egos que não querem ver”, canta Francisco sob a flauta de Cristiane Otutumi e o clarinete de Francisco Araújo.

“Sheidas” nos faz reencontrar um Brasil já opaco. Um Brasil da cachaça e do cigarro na varanda, do chorinho sem motivo para começar e sem hora para acabar. Ousadia grande é o que Francisco Okabe faz em “Reconstrução”. A faixa é uma releitura de “Construção”, de seu xará famoso. Com inserções instrumentais fugidias e uma melodia reversa, dá novo fôlego ao clássico. A prova maior de nossas influências, pois, é a continuidade inspiradora. A instrumental “Um Corpo Que Cai” tem peso percussivo e um clarinete flutuante, que poderia tanto servir como trilha para o filme homônimo de Hitchcock, como standard de jazz em noites de cabaré.

Foto: Reprodução

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“Mudanças” ressignifica memórias afetivas. “Algo ficou/ ninguém deixou acabar/ aquele filme do Truffaut/ e o fandango em Paranaguá”. Não é nostalgia estanque, mas um entendimento poético sobre as transformações do mundo. Otimista, até. Da mesma forma, “Canção Qualquer” reflete sobre a produção operária do artista em tempos tecno-consumistas. Com a ajudinha de Zé Miguel Wisnik (“O Som e o Sentido”), é um brado à força da canção, que “fala com multidões por milhões de curtidas”.

Outra marca importante em “Vital” é “Chorinho pro Waltel”, homenagem ao gigante violonista, arranjador e maestro Waltel Branco – que se brilhou em tempos idos, hoje sofre com a nossa memória seletiva. Em “Desurbano”, Francisco Okabe pratica mais uma vez sua verve de cronista, se aproximando do mundo ao redor (e de Curitiba?), por meio de flertes com a música concreta, mas principalmente com poesia cotidiana e atenta, que trata de “polícia” e “violões no chão”. Qualquer semelhança não é mera coincidência.

Um disco pode ser entendido como um conjunto de referências desfiadas. É assim que o artista se desarma e tem mais chances de ser compreendido. Isso não é sempre necessário, mas Francisco Okabe permite o diálogo, algo raro quando, como agora, aqui e ali, egos se sobrepõem ao ofício da arte.

 

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