Para que nunca se lembre de hoje

5 janeiro, 2018 às 15:58  |  por Helena Carnieri

jupartika

 

Seguindo com a publicação do texto “O Velho”, de Juliana Partyka, que começou no post anterior. A autora, para quem não conhece, é a atriz na foto acima, em cena de “Perdão”, com direção de Jader Alves.

CENA DOIS: QUANDO VOCÊ PRECISA DIZER QUE ESQUECEU É PORQUE,

DE FATO, ISSO NUNCA ACONTECEU.

MARIANA: Ele poderia morrer igual, não poderia?
GIO: Que?
MARIANA: O Velho.
GIO: Cruzes.
TEREZA: Eu acho.
GIO: Chega!
TEREZA: Eu poderia dançar em cima do caixão dele. Com certeza eu poderia.
GIO: Mas não vai. Ouvi dizer que ele tá doente. Meio podre. Então.
TEREZA: Tomara que morra. Tomara que morra. Tomara que morra!
GIO: Chega!
MARIANA: Tá defendendo é? Pega pra você.
GIO: Ele anda igual um cachorro de rua… Ouvi dizer. Cabeça baixa, sarna pelo
corpo inteiro, magro, parece que vive com fome e sede. Nunca ergue os olhos.
TEREZA: Comparação idiota. Coitado do cachorro.
Coitado do cachorro.
Eu trocaria os dois de lugar. Meteria o Velho embaixo da terra, e traria o Cão
de volta.
GIO: Depois não reclame.
MARIANA: Tá defendendo o Velho! Quem diria!
TEREZA: A única coisa que me veio na cabeça naquele momento foi chamá-lo
de maldito. Maldito. Maldito. Maldito! Que os deuses te carreguem pra beira do
inferno, canalha, egoísta, filho do próprio demônio vindo pra terra!
Os olhos dele, na hora eu vi, azuis como se pintados à mão. Escuros,
escondidos. O sorriso maldito que ele nem sorria, mas eu via. Eu tenho certeza
que aquele homem é filho do próprio demônio!
Tive vontade de bater na cara dele. Bem rápido. Muitas vezes. Imaginei minhas
mãos doloridas, as juntas e as veias saltadas, de tanto que eu bateria nele.
Não saberia distinguir meu próprio sangue, do sangue maldito que escorria
daquela cara de cobra peçonhenta.
Um dia eu te mato! Eu disse. Minha alma me olhou nos olhos. Fogo! Eu queria
tirar o fogo que ardia nos meus olhos e tacar em cima dele. Morre, maldito!
Queime! Pague os teus pecados! Eu sou deus, agora! Eu te condeno a rastejar
até o resto dos teus dias, maldito. Maldito!
(Longa pausa)
GIO: Mas você não fez, não é?! Não queimou o Velho vivo, não fez quando
teve vontade. Agora não adianta, te falta coragem.
TEREZA: Quem disse? Tá me provocando?
GIO: Não. Estou dizendo que se você não faz quando tá com raiva, depois
você faz do mesmo jeito, sabendo que é o certo, mas se sente culpada. Não
quero que sinta culpada. Não por isso.
TEREZA: Pelo que então?
GIO: Come!
TEREZA: Culpada pelo que? Eu não tenho culpa de nada, tá ouvindo? Se o
Velho morrer, melhor. Danço em cima do caixão dele. Estou falando! Escreve
isso que estou te dizendo!
MARIANA: Queria fumar um cigarro.
GIO: Aqui dentro não.
MARIANA: Então eu vou lá fora. Aproveito e tomo um banho de chuva pra tirar
esse ranço de simpatia que você tem pelo Velho. Ó! Tá grudado na minha
roupa! Que nojo!

CENA TRÊS: TUDO QUE VOCÊ PRECISA É SE SEGURAR NAS COISAS QUE TE FIZERAM FELIZ. GIO: Você já me deixou na chuva. Eu lembro. TEREZA: Nunca. GIO: A gente era bem criança. TEREZA: Lembra nada. GIO: Tua mãe te fazia limpar a casa, e você era tão babaca que deixava a gente pra fora, só pra não sujar o chão. TEREZA: Eu era detalhista. GIO: Uma babaca. TEREZA: Mas você morreu? Não. GIO: E quando a gente entrava, você mandava a gente ajoelhar e limpar o carpete. COM A MÃO. Igual um cachorro comendo os farelos. Lambendo. Cisquinho, por cisquinho. Eu lembro. TEREZA: Por que você tá lembrando disso agora? Te ensinei a ser zelosa. GIO: Por que tá chovendo, e quando chove eu lembro. TEREZA: Ele não gostava de chuva. Quando ele saía pra fazer xixi, voltava se esfregando nas minhas cobertas. Igual quando tomava água. Limpava a boca nas cobertas. Um cão muito higiênico. GIO: Eu acho que só tenho uma memória boa. TEREZA: Do cão? GIO: Daquele tempo… TEREZA: Ingratidão…Você é inteira movida na ingratidão. GIO: É sério. Eu vou gargalhar. Mas é muito sério. Muito grave. Não me olhe assim. Preciso contar sem te olhar. Meu Deus a minha barriga chega a doer. Você fez a Mariana comer cocô! TEREZA: E daí? GIO: Ela cagou no cobertor amarelo. Você tinha lavado a droga do cobertor amarelo, e ela cagou em cima dele! TEREZA: Vadia. GIO: Muito bom! Ela chorava, e cada vez que ela puxava a baba pra suspirar, ia um pedaço de bosta dentro da boca dela! Que genial! TEREZA: Aprendeu, não aprendeu? GIO: Tem prisão de ventre até hoje, coitada. (Tempo) MARIANA: Quem? TEREZA: O que? MARIANA: Quem tem prisão de ventre? GIO: Você tá fedendo cigarro. MARIANA: Deu uma afundada lá atrás. TEREZA: … GIO: Não adianta agora, tem que esperar o tempo melhorar. TEREZA: Desculpa cão. Desculpa te tratar pior que gente. MARIANA: Você devia ter feito uma caixa de madeira, pelo menos não afundava. TEREZA: Nem pensei. Deus nos tira o privilégio do preparo. Ele é um egoísta babaca. Eu vou tirar ele de lá. GIO: E vai fazer o que? TEREZA: Um funeral. MARIANA: Deus do céu, eu não acredito que vou fazer isso. TEREZA: Vai ou não? MARIANA: Tá. CENA QUATRO: OS PROCEDIMENTOS DE ESQUECER PARA QUE NUNCA SE LEMBRE DE HOJE. GIO: Então eu vou parar tudo. Congelar. Meu braço sem querer vai esbarrar num copo e fazer ele se espatifar no chão. Eu vou respirar bem fundo, como se quisesse criar coragem de olhar pra ele. Para os pedaços dele. Para o meu reflexo igual. Todo quebrado. Todo partido. Todo sem partes. E eu vou olhar pra ele. Firme. Vou mostrar que não tenho medo. Nem de colocar minha mão naquilo. Nem do machucado que pode fazer. Eu vou apertar meu indicador no pedaço mais fino. Vou grudar um pedaço daquilo no meu indicador. Depois de três segundos eu vou abrir meus olhos e perceber que eu não morri. Eu. Não. Morri. Aí eu vou mudar. Aí eu vou saber que a porra do caco de vidro não me matou. Nem vai. O meu sentimento será de raiva. Vou olhar pra ele com muita raiva. Não só raiva. Vitória. Rancores. Vou colocar meu dedo com aquele caco de vidro grudado nele bem na altura da minha cintura. Então vou olhar de cima. Olho pro meu dedo. Olho pra quem quer que esteja na minha frente. E vou dizer que gostaria de matar o meu pai. Gostaria muito. Eu vou arrepiar de ódio, e alguém vai dizer. Credo. E vou imaginar ele morto. Alguém dança em cima do caixão dele. E ri. Ri descontroladamente. E eu vou lembrar que ele tá enterrado no meu quintal. E eu vou sentir pena do cachorro e começar a chorar por que isso é tudo que eu sei fazer. E quando eu perceber o caco de vidro, ele estará cortando meu dedo, e a ponta dele estará toda vermelha. Por que eu consigo me livrar do caco, mas eu nunca consigo não deixar sangrar. Nunca dói. Mas escorre no meu corpo. Então. Então eu vou sorrir triste. Eu vou lembrar do cachorro enterrado no meu quintal num dia de chuva. E eu vou pensar que Deus é egoísta demais. E vou gritar bem alto para quem quer que seja: por que Deus nunca leva as coisas certas? E alguém vai dizer: não importa. Não há nada que possa ser feito agora. Então eu vou olhar pra Tereza. Vou olhar bem no fundo do olho dela, e vou desejar que ela nunca estivesse comigo. A dor dela me toca. O cachorro me toca. O Velho não. Já tocou. Não mais. E ela vai perguntar do cachecol. Ela não vai lembrar, ela nunca lembra que sempre dá suas próprias coisas para os bichos de rua. Os bichos de todo tipo. Os com quatro patas, com duas. Até os que pedem um cigarro no café. Ela nunca lembra. Eu vou dizer que sinto uma agonia no meu peito. Que eu devia fazer exercício para as pernas, para a circulação de sangue. E vou olhar de novo para o sangue na ponta do meu dedo. Eu já não estarei com raiva. E eu não vou pensar que ela é triste, por que eu mesma sou muito mais triste e nem é por causa do falecido cachorro. Que se dane a dor dela. Eu vou lembrar de Deus. De Jesus Cristo fazendo Lázaro ressuscitar. E vou querer ressuscitar aquele o Velho, só pra poder mata-lo de novo. (TEREZA E MARIANA VOLTAM COM UMA CAIXA SUJA E MOLHADA, E COLOCAM EM CIMA DA MESA DA COZINHA) GIO: (se passando as mesmas ações da cena anterior) Eu gostaria de matar o meu pai. Gostaria muito. MARIANA: Credo. GIO: Por que Deus nunca leva as coisas certas? MARIANA: Não importa. TEREZA: Você viu meu cachecol? GIO: Sinto uma agonia no meu peito. Acho que preciso fazer algum exercício pra circular o sangue nas pernas. (Silencio) Jesus ressuscitava pessoas. (Silencio) MARIANA: Não tá fedendo. TEREZA: Odeio chuva. GIO: Você comia cocô. TEREZA: Tá espumando. MARIANA: Leva na igreja. GIO: Tá louca? MARIANA: Então reza você. Ele não parece muito tranquilo, quem sabe precise de um alívio pra alma. TEREZA: Ela! GIO: Você disse que cachorro não tem alma. MARIANA: Eu disse que não sabia se tinha, por que não sabia nem se gente tem alma. TEREZA: E tem? MARIANA: Não sei. O velho não tem. GIO: De novo isso? MARIANA: Ela. Tá bem. TEREZA: Quê que tem? MARIANA: Se fosse ele você estaria triste? TEREZA: Quê? MARIANA: O gênero. TEREZA: Lógico. GIO: Mentira! TEREZA: Lógico! GIO: Ele te lembraria do Velho. Já vai começar a feder. TEREZA: Você fede! MARIANA: Jesus poderia trazer ele de volta, não poderia? TEREZA: Você nem gostava do bicho. Não se dignava olhar pra ele. MARIANA: E daí? TEREZA: Por que é uma puta idiota que não pensa em nada além do próprio rabo. GIO: Ele tá se mexendo. MARIANA: Você é uma puta egoísta, sempre foi. Eu comi cocô por que você é uma doente compulsiva por limpeza, e agora este bicho tá em cima da mesa cheio de barro, de pulga, de pus saindo dos olhos, de xixi escorrendo, e tudo isso tá sujando a droga da mesa da doente por limpeza. Tá feliz? GIO: Ele tá se mexendo. MARIANA: Meu cu. GIO: Tá se mexendo. Olhem. A orelha piscou. Rapidinho. TEREZA: Não tá não. GIO: Tô falando serio. Tá gelado, mas deve ser frio. TEREZA: (ouvindo o coração) Coração tá quieto. MARIANA: Tá morto. GIO: Vai tomar no teu cu. Apaga esse cigarro. MARIANA: Tá morto. Muito morto. Cem por cento por morto. E quer saber? Tô nem aí. Mesmo. Longo silêncio. Elas observam a caixa de papelão em cima da mesa. GIO: Acho que tá morto mesmo. MARIANA: Tá chovendo. TEREZA: Que peso. Esse ar. Às vezes parece que o teto da casa tá fazendo pressão na minha cabeça. GIO: (Acende uma vela) Jesus ressuscita os mortos. Fez isso com Lázaro. MARIANA: Mas Deus não quer isso. Por que ele-é- muito-egoísta.

Novo teatro de Curitiba

8 dezembro, 2017 às 15:06  |  por Helena Carnieri

Tenho estado um pouco obcecada com a produção literária curitibana, e isso vale para textos teatrais.

Por isso foi um bálsamo conhecer essa gente linda que cursou o Núcleo de Dramaturgia do Sesi em 2017, onde tive bons momentos também. Depois da realização de uma mostra dos trabalhos, dia 25 de novembro, surgiu a ideia de publicar alguns dos textos aqui no blog “A vida é palco”. Para que não esmoreçam até o momento de finalmente encenar! Né, Juliana??

A Juliana Partyka será a primeira a publicar.  Aqui estão o prólogo e a Cena 1. O restante virá a conta-gotas, porque o texto é longo e requer, digamos… tempo de digestão.

“O VELHO”, de Juliana Partyka

OBRA DESENVOLVIDA NO NÚCLEO SESI DE DRAMATURGIA – 2017

PERSONAGENS:
TEREZA
MARIANA
GIO

velho
PRÓLOGO: ELAS ANDAM EM LINHAS RETAS, DA SUA MANEIRA.

TEREZA: As coisas me comovem. Todas as coisas. Os pedaços de coisas. Os
reflexos. Quando éramos pequenas, a gente. Como é mesmo que dizem?
“Agora você vai chorar com motivo”? E também quando éramos pequenas as
coisas, essas que tocam a gente, tinham dimensões particulares. Únicas. O
Velho era o mesmo. Os móveis. Os quadros. As samambaias. Tudo refletia
uma espécie de memória que não se sabe colocar em letras. Nos lábios. No
riso. Na comoção. Tudo me comove. Quando ela veio, parecia uma
bonequinha assim pequenina, minúsculas mãozinhas fofas e cheirosas. Um
doce de gente. Um encanto. Uma mini vida. Eu, a mais velha, esperava que
ela, e as mini mãos que ela tinha, servisse pra trazer paz. Uma espécie de paz
utópica que, no fundo, só se alcança quando a gente morre. A outra já tinha
tentado o mesmo feito. Não por vontade própria, mas por não ter escolhido vir
pra esse mundo, e mesmo assim, ter carregado a mesma responsabilidade de
“agora vai ser diferente”. O Velho é o mesmo. Acho que sempre foi. A minha
distância dele, o asco, o motivo pelo qual eu gostaria de dançar em cima do
caixão dele é, exclusivamente, por ele ter boicotado as duas tentativas de paz
que vieram depois de mim. Eu as amo tanto que chega a escorrer pelo meu
coração. Eu me comovi sempre, sempre. Quase sempre. O Velho não. Por ele
nunca. Talvez alguém antes de mim esperasse a paz. Talvez tivessem
depositado em mim a mesma esperança que eu joguei nelas alguns anos
depois. E não as culpo por nunca terem conseguido. No final, acho que foi
melhor assim. É como se tivessem arrancado um pedaço de mim, e desse
pedaço, surgido uma carga a mais de energia para tentar outra vez. E outra. E
assim até quando Deus quis.
Quando ela veio morar comigo uma outra espécie de comoção invadiu o meu
peito, e eu chorei de felicidade. Naquele dia em que falávamos de potes, e receitas para fazermos experimentos culinários, eu. A comoção. Naquele dia eu chorei. Eu estava tão feliz. Tão feliz. Então eu pensei no Velho. No quanto ele nos uniu de formas tão diferentes, em quem somos, e os medos que carregamos na bagagem. Maldito. Eu pensei. Eu quero dançar em cima do teu caixão, mas antes quero te agradecer. Pela comoção. E por elas. E pela esperança que eu carrego pelos cachorros de rua. Eu vou dançar em cima do caixão dele, e vou me comover toda vez que eu pensar. O Velho nunca me comoveu.

CENA UM – QUANDO TUDO ACONTECE, O QUE FICA DEPOIS É O BURACO NO MEIO DO PEITO.

GIO: Será que cachorro tem alma? Há dois dias só chove. Chove. Quem sabe
a chuva sirva para levar as almas para o céu. Ouvi dizer que.
MARIANA: Que?
GIO: Não sei. Fiquei pensando nisso ontem enquanto esquentava a comida da
Tereza.
MARIANA: Eu não sei nem se gente tem alma, imagina um cachorro!
GIO: Então tem. Sempre que você não sabe de alguma coisa a resposta é
sim.
MARIANA: Tereza comeu?
GIO: Um pouco. Ficou chorando por causa dele. Parecia um bebê!
MARIANA: Coitada…
GIO: Tua mãe veio aqui mais cedo, quer te arranjar um emprego nem que seja
de puta.
MARIANA: Puta eu já sou. Só não cobro por isso. Ela quer dinheiro, velha
idiota!
GIO: Você vai sair?
MARIANA: Talvez. Se algum cliente ligar…
GIO: Estou falando sério.
MARIANA: Não. Nem quero. Tua mãe é louca!
GIO: O cachorro fica latindo.
MARIANA: Que?
GIO: No meu ouvido. Escutei ontem e hoje. Deve ser um cachorro da
vizinhança, mas a gente acostuma com o bicho por perto. Tereza até serviu
comida no pote dele hoje mais cedo.
MARIANA: Ela tem saudade. Quem sabe pensa que ele pode voltar.
GIO: Eu escuto a outra lá no quintal. A mais nova. Uiva e chora a noite toda. Às
vezes de dia também. Tem que ir até lá com um pedaço de pão, e fazer
carinho na cabeça até ela comer tudo. O que deu da entrevista?
MARIANA: Nada. Disseram que iam ligar no dia seguinte.
GIO: Mas isso foi semana passada!
MARIANA: Foi o que eu disse.
GIO: Ela tá querendo ir ao centro espírita…
MARIANA: Que?
GIO: A Tereza. Tá querendo falar com o cachorro.
MARIANA: Não dá pra julgar. Uma vez eu fui lá com a Rosa e a entidade
escrevia até os segredos dela no papel. Com a mesma letra do falecido.
Nessas horas a gente tenta meio de tudo.
GIO: Mas é um cachorro! E cachorro não escreve!
MARIANA: Cada um lida de um jeito.
GIO: Isso pra mim é coisa de louco. Olha lá! Tá chorando de novo. Um
gemidinho assim, pequeno. Da primeira vez que ouvi achei que era pulga
comendo o couro dela. Se não tomar cuidado infesta a casa inteira.
MARIANA: E não era?
GIO: Não. Ela estava deitada com a cara apoiada nas duas patas. Uma remela
branca saía dos olhos dela. Bem molhados. Parecia que tinha enfiado a cara
no pote de água.
MARIANA: O bicho sente também. Por que você sempre diz a TUA mãe?
GIO: Não sei. Hábito. Mas acho que sente.
MARIANA: Ela viu quando aconteceu?
GIO: Viu. Estava do lado. Mijou em cima dela. Fiquei com raiva na hora. Já não
gosto de lavar cachorro, lavar cachorro defunto pior ainda.
MARIANA: Tereza viu?
GIO: Não. Chorou de manhã e à tarde. Tirou o cachecol do pescoço e enrolou
nas patas do bicho. Na hora ela saiu.
TEREZA: Eu não me despedi. Não sei, na verdade. Fiquei refletindo o que
significa despedida. Ninguém sabe. Eu só fiquei olhando ela lá. Tinha uns
espasmos nos olhos. Fechava uma vez, eu achava que era a última, e tornava
a abrir. Assim por várias vezes. Eu não me despedi exatamente naquela hora,
mas depois comecei a pensar que já tinha feito isso a semana inteira. De um
modo estranho, eu sei, mas aos poucos. Cada coisa que eu fiz nessa semana
era um jeito de despedida.
MARIANA: A previsão diz que vai chover o dia inteiro.
TEREZA: A terra vai afundar.
MARIANA: Pelo amor de Deus!
TEREZA: Afunda! Não é sobrenatural. É natureza.
MARIANA: Você tá bem?
TEREZA: Acho que sim. Não sei. Tua mãe diz que é exagero, mas eu senti
uma pontada aqui ó, bem no meio do meu peito. Coisa de hábito. Não importa
quão ruim seja a situação, se ficar exposta a isso por um tempo longo, então,
você se acostuma.
MARIANA: Ela descansou.
TEREZA: Que ridículo! Parece que tá falando de gente. Não carece palavras
fúnebres não, eu sei que era um cachorro. Mas era minha, e eu era dela.
Desde antes de vir morar aqui já era assim.
GIO: Quem sabe você possa ter outro.
TEREZA: Não!
GIO: Tá.
MARIANA: Quando você sente tristeza, tem que pensar em algo positivo.
TEREZA: Tá.
MARIANA: É sério.
TEREZA: Olha quem fala! A desempregada do ano, a que não consegue
emprego nem de puta!
MARIANA: …
TEREZA: Desculpa.
MARIANA: …
TEREZA: Quando eu fico triste eu penso nela. Se eu derrubo um vaso, e ele
quebra, eu começo a chorar. Não pelo vaso. Por ela. Quando eu brigo com
alguém eu fico triste. Não pela briga. Por ela. Eu penso nela todo tempo. Eu
pego a câmera fotográfica e vejo as fotos dela. Se ela não fosse um cachorro,
eu estaria chateada por não ter me dito que estava indo. Mas não. Eu só fico
triste.
MARIANA: …
TEREZA: Será que passa?
MARIANA: Não.
GIO: Lógico que passa!
TEREZA: …
GIO: Você precisa comer.

Um rato na panela

29 outubro, 2017 às 20:32  |  por Helena Carnieri

 

ervilha

A vida em família é mesmo um conto de fadas. Não leia, por favor, “mar de rosas”. Mas uma eterna narrativa que bebe das fontes mais diversas, isso sim.

Essa história de princesas hoje está bem problematizada, claro. Mas ainda escapam uma aqui, outra ali. A das ervilhas, por exemplo, veio para ficar aqui em casa. Cada livro é lido, em média, 387 vezes. Por semana. Esse relato sobre a garota cuja nobreza a futura sogra põe em dúvida, até que tira a teima colocando uma ervilha debaixo de 20 colchões para ver se ela sente alguma coisa – e ela sente: dorme terrivelmente – foi um desses eleitos para a leitura em looping.

Pois a vida imita a arte e resolvemos brincar um pouco além das páginas do livro. A menina ganhou um saco de ervilhas. Gostou tanto que resolveu não levar para a escola, onde haveria um baile real, os amigos iriam achar que é brinquedo e ela ia ter que dividir. Colocou tudo debaixo do colchão. Dia seguinte, eu ainda sonolenta, ela me diz: “Sabe que eu não dormi bem…” Aquela carinha de “lamento decepcionar”. Que foi? Filha, tá quente? A mão já apalpando a testa, o peito e as solas dos pés. Vazou xixi no lençol, sentiu fome, frio, sede? Não, mãe, tinha alguma coisa dura. A…..faz parte da narrativa. Ok, demorou para cair a ficha.

Por sorte ela dá um jeito de melhorar mesmo as histórias mais escabrosas. O que dizer do ratinho que cai no caldo de feijão e…morre??? Sim, porque a história é bem explícita e não poupa os ingênuos ouvidos. Tem relatos que deveriam vir com classificação indicativa, mas esse não é o caso do livro da Dona Baratinha, não senhor. Enfim, tem morte e pronto.

Mas ela deu um jeito. À noite, o pai quase dormindo do lado, ela acesa que só, inventando modas. “E quando a dona Baratinha for lavar a louça, em? Vai achar e dizer, ó, que fofo, um ratinho…”

 

 

 

 

Vou continuar afônica

5 outubro, 2017 às 23:11  |  por Helena Carnieri
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Foto: Renata Surian.

Perdi a voz, primeira vez na vida. Um marco em minha carreira de mãe. O médico perguntava: tem certeza que não fuma? Sim. Mas então é professora? Não, doutor. Eu grito com meus filhos.

Sei que estamos na era do diálogo, e o exerço religiosamente todos os dias. Todos. Cansa, às vezes.

Me dei conta de que posso estar excedendo a cota de palavras a serem negociadas com um ser de 3 anos justamente ao perder a voz. Afônica, sussurrei ao longo de dois dias e duas noites e os resultados foram fenomenais.

Para começar, minha filha também baixou a voz, acho até que parou de falar com voz de bebê. Cresceu.

Mas o principal se operou no meu coraçãozinho. De posse de poucas entradas de locução, selecionei muito bem o que ia falar. Posso garantir que metade do não dito era pura gordura, dava mesmo para queimar. Uma ou outra ordem silenciada entrou na conta da tolerância necessária, aquela tão difícil de exercer quando se tem voz. Uma calma aprendida à força.

Acho que todo mundo amadureceu um pouco aqui em casa enquanto eu tomava remédio para a garganta e sussurrava. Confesso que está difícil retornar ao normal. Vou continuar afônica para ver aonde isso vai dar.

Aquela voz

22 agosto, 2017 às 21:49  |  por Helena Carnieri

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Há momentos em que uma voz faz o passado vir à tona. Foi assim ouvir o ator Sérgio Silva em “O Canto do Cisne”. A peça fica em cartaz até 27 de agosto no Teatro José Maria Santos.

Nem beleza, nem um vozeirão fazem o bom ator, é claro, mas escutar o timbre muito ouvido na Rádio Educativa, aquela voz que me acompanha nas noites de chuva quando volto de algum teatro, aumentou minha predisposição ao espetáculo.

Passado o momento confessional, é preciso dizer que nem seria necessária essa ligação afetiva, já que Sérgio segura o papel do começo ao fim com muito porte.

O texto de Tchékhov, com tradução de Walter Lima Torres e Andrea Doré, trata de um ator decadente que sente o fim da linha de seu corpo também, e faz reminiscências de sua época dourada sobre o palco. Nessas lembranças, ele invoca Shakespeare e revive solilóquios de “Otelo”, “Júlio Cézar”, “Rei Lear”, para um emocionado garoto do ponto – vivido pelo também diretor Jul Leardini.

Outro ponto que chama a atenção na encenação é o “conceito da peça”, como diz a produtora, motivo pelo qual ninguém pode se sentar na primeira metade da plateia. Mas é melhor não estragar (mais) a surpresa de quem vai ver.

SERVIÇO

O CANTO DO CISNE – peça de Anton Tchekhov

Direção e produção: Jul Leardini

Tradução: Walter Lima Torres e Andrea Doré

Elenco: Sérgio Silva, Jul Leardini e Clara Meyer

Período: de 10 a 27 de agosto de 2017

Horário: de quinta a sábado às 20 horas e domingo às 19 horas

Local: Teatro José Maria Santos (Teatro da Classe)

Endereço: Rua Treze de Maio, 655 – São Francisco – Curitiba

Preços: R$ 30,00 (inteira) e R$ 15,00 (meia)

 

FICHA TÉCNICA

Marcelino de Mirandha, no figurino e maquiagem, Nádia Luciani, na iluminação, Salete Cercal e Loana Terra, na produção, Gerson Delliano, no apoio técnico, Édier William, na fotografia e programação visual, e Maria Amélia Lonardoni, na assessoria de imprensa.

Oscar no Paraná

14 agosto, 2017 às 21:30  |  por Helena Carnieri

 

O teatro paranaense tem seu Oscar, e ele se chama Troféu Gralha Azul.

Veja se assistiu a alguma das peças indicadas e conte o que achou! A cerimônia de premiação é aberta e acontece no Teatro Guaíra (no Guairão dessa vez!), dia 22 de agosto, às 20h30. Esta é a 37ª edição do prêmio.

Conheça os indicados

Espetáculo
Contos de Nanook – Setra Companhia
Macumba – Uma Gira Sobre o Poder – Companhia Transitória
Organismo Kafka – Grupo Delírio Cia de Teatro
Para Não Morrer – Espaço Cênico Produções Artísticas
Salomé – by Fausto Fawcett – Companhia de Teatro Urubu
Vozes de Abrigo – Cia Laica

Espetáculo para crianças
A Roupa Nova do Rei – Messe Produções Artísticas
Bita e as Brincadeiras – Cia Regina Vogue
Duula – A mulher do Deserto – Companhia Karagozwk
Jardim – Um solo poético para crianças – Tecer Teatro Arte Educação e Cultura
Napo – Um Menino Que Não Existe – Cia do Abração

Direção
Carolina Meinerz por Salomé – by Fausto Fawcett
Edson Bueno por Organismo Kafka
Eduardo Ramos por Contos de Nanook
Fábio Nunes Medeiros por Vozes de Abrigo
Nena Inoue por Para Não Morrer
Paulo Biscaia Filho por A Macabra Biblioteca do Dr. Lucchetti

Direção espetáculos para crianças
Cristine Conde por Jardim Um solo poético para crianças
Letícia Guimarães por Napo Um menino que não existe
Marcelo Andrade dos Santos por Dulla A mulher do Deserto
Maurício Vogue por A Roupa Nova do Rei
Maurício Vogue por Bita e as Brincadeiras

Atriz
Carolina Meinerz – Salomé by Fausto Fawcett
Helena Portela por Não Contém Glúten
Helena Portela por Giacomo Joyce
Má Ribeiro por Terrível Incrível Aventura – Um Musical Fabulesco Marítimo!
Nena Inoue por Para não Morrer
Patrícia Cipriano por Linda Blair – Entra na Sala

Ator
Eduardo Giacomini por Essencial
Jeff Bastos por Terrível Incrível Aventura – Um Musical Fabulesco Marítimo!
Maurício Vogue por Fusca, Rock e Pornochanchada
Mauro Zanatta por Contos de Nanook
Ranieri Gonzalez por Tom – 208 beijos e Abraços sem fim
Tiago Luz por Desnoite

Atriz espetáculo para crianças
Daniele Madrid por Dulla – A mulher do Deserto
Fabiana Ferreira por Jardim – Um solo poético para crianças
Marcelina Fialho por A Roupa Nova do Rei
Thaysa Petry por Napo – Um Menino que não Existe

Ator espetáculo para crianças
Edgard Assumpção por Napo – Um Menino que não Existe
Jeff Franco por Bita e as Brincadeiras
Leo Campos por Napo – Um Menino que não Existe
Maurício Vogue por A Roupa Nova do Rei
Renet Lyon por A Roupa Nova do Rei

Atriz coadjuvante
Amanda Leal por Bita e as Brincadeiras
Dulce Furtado por Descalços no Parque
Kassandra Speltri por A Macabra Biblioteca do Dr. Lucchetti
Michelle Pucci por Salomé – by Fausto Fawcett
Rosana Stávis por Tom – 208 beijos e Abraços sem fim

Ator codjuvante
Bruno Lops por Contos de Nanook
Enéas Lour por Descalços no Parque
Pedro Inoue por A Loucura de Isabella
Sávio Malheiros por Terrível Incrível Aventura – Um Musical Fabulesco Marítimo!
Zeca Cenovicz por Tom – 208 beijos e Abraços sem fim

Revelação
Ana Beatriz Sercunvius por Napo – Um Menino que não Existe
Thiago Juraski por Vozes de Abrigo
Jean Carlos Sanchez por Agreste
Rayssa Gualberto por Napo – Um Menino que não Existe
Marrara Mara por Tom – 208 beijos e Abraços sem fim

Cenário
Cristine Conde por Jardim – Um solo poético para crianças
Guenia Lemos por Salomé by Fausto Fawcet
Guenia Lemos por Contos de Nanook
Paulo Vinícius por Ouve me com teu corpo inteiro
Ruy Almeida por Para Não Morrer

Figurino
Áldice Lopes por Organismo Kafka
Carmen Jorge por Para não Morrer
Eduardo Giacomini por Contos de Nanook
Gui Almeida por A Macabra Biblioteca do Dr. Lucchetti
Paulo Vinícius por Salomé – by Fausto Fawcett

Iluminação
Beto Bruel por Contos de Nanook
Beto Bruel por Giacomo Joyce
Beto Bruel por Tom – 208 beijos e Abraços sem fim
Victor Sabbag por Salomé – by Fausto Fawcett
Wagner Correa por Ouve me com teu corpo inteiro

Composição musical
Alexandre Nero e Gilson Fukushima por Tom – 208 beijos e Abraços sem fim
Enzo Veiga por Terrível Incrível Aventura – Um Musical Fabulesco Marítimo!
Erick Herculano, Clarissa Oliveira e Gide Ferreira por Macumba – Uma gira sobre o Poder
Felipe Ayres e Rodrigo Stradiotto por Salomé – by Fausto Fawcett
Karla Izidro por Napo – Um Menino que não Existe

Sonoplastia
Alexandre Zampier e Saulo Soul por Agreste
Felipe Ayres por Salomé by Fausto Fawcet
Jo Mistinguett por Contos de Nanook
Karla Izidro por Napo Um menino que não existe
Karla Izidro por Pelas mãos de Maria ou As Vozes de Simone

Maquiagem / caracterização
Áldice Lopes por Organismo Kafka
Andrea Tristão por Terrível Incrível Aventura – Um Musical Fabulesco Marítimo!
Dayone Padilha por Vozes de abrigo
Livien Ullmann por A Macabra Biblioteca do Dr. Lucchetti
Marcelino de Miranda por Contos de Nanook

Texto original
César Almeida por Nando Peças Tetarias para o ser Contemporâneo
Edson Bueno por Organismo Kaffka
Edson Bueno por Napo – Um menino que não Existe
Edson Bueno por Pelas mãos de Maria ou As vozes de Simone
Fábio Nunes Medeiros por Vozes de Abrigo
Fausto Fawcett por Salomé – by Fausto Fawcet

Viva o Dia das Mães! Em julho?

25 julho, 2017 às 15:10  |  por Helena Carnieri

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Chega o Dia das Mães e é aquela enxurrada de mensagens no celular, corações, balões, frases e até capítulos de livro inteiros sobre como é maravilhoso ser mãe, apesar dos picos de dor, enlouquecimento precoce e paranoia diários. Só agora, em julho, me cai a ficha.

Achava que isso me incomoda só pelo tom meloso, mas uma psicóloga infantil matou a charada. “Gente, nem é tudo isso”. Mãe de dois e orientadora de pais há décadas, ela traz as comemorações mais para perto da realidade.

Segundo ela, o clima de festa acaba mascarando um pouco da desilusão que é ser mãe todos os dias. Isso porque todo mundo idealiza a maternidade, desde a gravidez, e quando as coisas acontecem mais pé no chão, ou seja, com muito amor, mas um pouco de chateação aqui e outra ali, parece que precisa ficar reafirmando o quanto vale a pena.

É claro que vale! Acho lindo quem usa corrente com boneco menino ou menina de acordo com o filho que tem. Mas só por brincadeira, pensei em usar no lugar uma tesourinha sempre ao pescoço – para o caso de o bebê dormir (finalmente!) e eu conseguir tosar as garrinhas. Mais uma coisa que admiro: quem consegue cortar as unhas com o filho acordado.

Tem gente que pira e já enxerga o cordão de ouro como uma condecoração. No meu caso poderia trazer escrito “Olhe pra mim, tenho dois. Não durmo à noite e estou aqui em pé”.

Hotel Califórnia

10 julho, 2017 às 18:00  |  por Helena Carnieri

berço

Lendo colunas antigas sobre maternidade – mais do palco da vida, gente – só posso dizer ah….se eu soubesse então o que eu não sei hoje! Escrever dando dica de como fazer o bebê dormir, é, dona Helena? Se Nelson Rodrigues disse mesmo “jovens, envelheçam”, eu diria “casais que falam demais do filho (tipo nós), tenham o segundo filho…”

Tem gente que chama isso de “cuspir pra cima” (cai na cara). Pavonear-se de algo que fazemos “ó tão bem” e de repente… tudo errado.

Com minha primeira filha foi tão mil maravilhas essa coisa de dormir, que o segundo está aproveitando a brecha pra pedir colo de hora em hora. De madrugada. O pior mesmo não é isso, é que…nós damos! Que fim deram os livros que ensinam a fazer dormir, toda a oração a esse respeito, o que aconteceu com nossas vidas? Sério, eu dormia tão bem. Enfim, resta o desabafo de quem ainda está na tormenta mas sabe que um dia sairá dela. Não é possível que com 17 anos ele continue chorando à noite. Espero realmente que não.

Dá também para rir um pouco. Por exemplo, ao seguir a sugestão da psicóloga da escola: “se precisar durma você no berço dele, mas não leve para a sua cama”. Pois é, eu fiz isso. Baixei a grade, thcum pra dentro com ele no pescoço, meia hora pra desgrudar, e aí começa o contorcionismo digno de um Houldini saindo das algemas dentro de um tanque de água. Entrar foi fácil, mas quem disse que consigo sair do berço? Subitamente me senti no aeroporto de Tel Aviv, onde descobri que sair de Israel é muito mais difícil do que entrar, não me pergunte por quê.

Mas tudo bem. O bebê muda de hábitos como quem muda a fralda, então vamos esperar que logo venham mudanças noturnas para melhor!

Chaplin no teatro

22 junho, 2017 às 21:40  |  por Helena Carnieri
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Foto de Isabelle Neri.

 

Uma visão coletiva do estilo de Chaplin de atuar está no espetáculo “Um mundo debaixo do meu chapéu”. O espetáculo, da Companhia do Abração, tem uma sessão neste domingo (25) às 16h na sede do grupo.

A escolha por representar o palhaço do chapéu coco no palco é, nas palavras da diretora Letícia Guimarães, uma homenagem à “genialidade de seu silêncio”. O espetáculo deixa de lado a solidão um tanto melancólica de Chaplin e põe em cena três atores (Blás Torres, Edgard Assumpção e Kamila Ferrazzi).

Usando sombras e objetos, eles revivem algumas cenas clássicas dos filmes de Charles Chaplin, como a do “balé dos pãezinhos” em sua simplicidade poética.

SERVIÇO

UM MUNDO DEBAIXO DO MEU CHAPÉU

Apresentação: Dia 25/07/2017

Horário:  domingo, às 16h.

Local: Sala Raul Cruz, sede da Cia. do Abração. Rua Paulo Ildefonso Assumpção, 725 -  Bacacheri – Curitiba – PR

Entrada: franca

Duração: 50 minutos

Classificação indicativa: Livre – Indicado para todas as idades.

FICHA TÉCNICA

Direção: Letícia Guimarães

Dramaturgia: Criação coletiva sob a supervisão de Letícia Guimarães

Cenografia e figurinos: Simone Pontes

Iluminação: Blás Torres e Edgard Assumpção

Sonoplastia, composição e direção musical: O grupo

Elenco: Blás Torres, Edgard Assumpção e Kamila Ferrazzi

 

Quero ser a mãe da Peppa

6 junho, 2017 às 22:22  |  por Helena Carnieri

peppa

Quero ser a mãe da Peppa. Serena, senhora de si, não se incomoda com a bagunça geral que aqueles porquinhos armam. Ou pelo menos não aparenta nos 5 minutos de desenho. Se ela vai fazer bolo, é óbvio que põe os dois filhos para ajudar, mesmo que espirre massa de chocolate por tudo. E ainda dá risada junto com a garotada.

Já eu estou com sintomas de child burnout, se isso existe. Solto fogo pelas ventas, derramou iogurte é bronca na certa. Nem o nenê escapa, apelidado de “preazinho selvagem”, e isso nos bons dias.

Por isso quero a serenidade da Senhora Pig, essa senhora de si cor de rosa.

Só que não. Hoje eu tinha só uma meta extra filhos: tirar o esmalte das unhas, e, se desse um golpe de sorte, quem sabe até cortar e lixar. Então, antes mesmo que o segundo acordasse, já tinha botado meu plano em ação. Às 8h35 estava tirando tudo do armário de venenos em busca do óleo de banana. A acetona já tinha evaporado no ano sem uso e o lencinho removedor que sobrou da última viagem só deu para uma mão.

Com a outra, a de unhas ainda vermelho descascado, digitei no whattsapp “tá em casa?” para minhas duas amigas do prédio. Uma respondeu, sim, tinha acetona. “Tô colocando o elevador”, mas eu só vi 5 minutos depois. O pacotinho ficou lá, subindo e descendo. Enquanto isso eu raspava a parte queimada das torradas.

Quando saí esperar o elevador, que demorou, porque vinha sempre o errado, sem acetona, a vizinha abriu a porta. De roupão, perguntou o que era esse cheiro de queimado. “A torradeira”, expliquei, também de pijama. Por sorte nos damos bem. Taí algo do mundo da Peppa que existe na minha vida.