Um rato na panela

29 outubro, 2017 às 20:32  |  por Helena Carnieri

 

ervilha

A vida em família é mesmo um conto de fadas. Não leia, por favor, “mar de rosas”. Mas uma eterna narrativa que bebe das fontes mais diversas, isso sim.

Essa história de princesas hoje está bem problematizada, claro. Mas ainda escapam uma aqui, outra ali. A das ervilhas, por exemplo, veio para ficar aqui em casa. Cada livro é lido, em média, 387 vezes. Por semana. Esse relato sobre a garota cuja nobreza a futura sogra põe em dúvida, até que tira a teima colocando uma ervilha debaixo de 20 colchões para ver se ela sente alguma coisa – e ela sente: dorme terrivelmente – foi um desses eleitos para a leitura em looping.

Pois a vida imita a arte e resolvemos brincar um pouco além das páginas do livro. A menina ganhou um saco de ervilhas. Gostou tanto que resolveu não levar para a escola, onde haveria um baile real, os amigos iriam achar que é brinquedo e ela ia ter que dividir. Colocou tudo debaixo do colchão. Dia seguinte, eu ainda sonolenta, ela me diz: “Sabe que eu não dormi bem…” Aquela carinha de “lamento decepcionar”. Que foi? Filha, tá quente? A mão já apalpando a testa, o peito e as solas dos pés. Vazou xixi no lençol, sentiu fome, frio, sede? Não, mãe, tinha alguma coisa dura. A…..faz parte da narrativa. Ok, demorou para cair a ficha.

Por sorte ela dá um jeito de melhorar mesmo as histórias mais escabrosas. O que dizer do ratinho que cai no caldo de feijão e…morre??? Sim, porque a história é bem explícita e não poupa os ingênuos ouvidos. Tem relatos que deveriam vir com classificação indicativa, mas esse não é o caso do livro da Dona Baratinha, não senhor. Enfim, tem morte e pronto.

Mas ela deu um jeito. À noite, o pai quase dormindo do lado, ela acesa que só, inventando modas. “E quando a dona Baratinha for lavar a louça, em? Vai achar e dizer, ó, que fofo, um ratinho…”

 

 

 

 

Vou continuar afônica

5 outubro, 2017 às 23:11  |  por Helena Carnieri
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Foto: Renata Surian.

Perdi a voz, primeira vez na vida. Um marco em minha carreira de mãe. O médico perguntava: tem certeza que não fuma? Sim. Mas então é professora? Não, doutor. Eu grito com meus filhos.

Sei que estamos na era do diálogo, e o exerço religiosamente todos os dias. Todos. Cansa, às vezes.

Me dei conta de que posso estar excedendo a cota de palavras a serem negociadas com um ser de 3 anos justamente ao perder a voz. Afônica, sussurrei ao longo de dois dias e duas noites e os resultados foram fenomenais.

Para começar, minha filha também baixou a voz, acho até que parou de falar com voz de bebê. Cresceu.

Mas o principal se operou no meu coraçãozinho. De posse de poucas entradas de locução, selecionei muito bem o que ia falar. Posso garantir que metade do não dito era pura gordura, dava mesmo para queimar. Uma ou outra ordem silenciada entrou na conta da tolerância necessária, aquela tão difícil de exercer quando se tem voz. Uma calma aprendida à força.

Acho que todo mundo amadureceu um pouco aqui em casa enquanto eu tomava remédio para a garganta e sussurrava. Confesso que está difícil retornar ao normal. Vou continuar afônica para ver aonde isso vai dar.

Aquela voz

22 agosto, 2017 às 21:49  |  por Helena Carnieri

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Há momentos em que uma voz faz o passado vir à tona. Foi assim ouvir o ator Sérgio Silva em “O Canto do Cisne”. A peça fica em cartaz até 27 de agosto no Teatro José Maria Santos.

Nem beleza, nem um vozeirão fazem o bom ator, é claro, mas escutar o timbre muito ouvido na Rádio Educativa, aquela voz que me acompanha nas noites de chuva quando volto de algum teatro, aumentou minha predisposição ao espetáculo.

Passado o momento confessional, é preciso dizer que nem seria necessária essa ligação afetiva, já que Sérgio segura o papel do começo ao fim com muito porte.

O texto de Tchékhov, com tradução de Walter Lima Torres e Andrea Doré, trata de um ator decadente que sente o fim da linha de seu corpo também, e faz reminiscências de sua época dourada sobre o palco. Nessas lembranças, ele invoca Shakespeare e revive solilóquios de “Otelo”, “Júlio Cézar”, “Rei Lear”, para um emocionado garoto do ponto – vivido pelo também diretor Jul Leardini.

Outro ponto que chama a atenção na encenação é o “conceito da peça”, como diz a produtora, motivo pelo qual ninguém pode se sentar na primeira metade da plateia. Mas é melhor não estragar (mais) a surpresa de quem vai ver.

SERVIÇO

O CANTO DO CISNE – peça de Anton Tchekhov

Direção e produção: Jul Leardini

Tradução: Walter Lima Torres e Andrea Doré

Elenco: Sérgio Silva, Jul Leardini e Clara Meyer

Período: de 10 a 27 de agosto de 2017

Horário: de quinta a sábado às 20 horas e domingo às 19 horas

Local: Teatro José Maria Santos (Teatro da Classe)

Endereço: Rua Treze de Maio, 655 – São Francisco – Curitiba

Preços: R$ 30,00 (inteira) e R$ 15,00 (meia)

 

FICHA TÉCNICA

Marcelino de Mirandha, no figurino e maquiagem, Nádia Luciani, na iluminação, Salete Cercal e Loana Terra, na produção, Gerson Delliano, no apoio técnico, Édier William, na fotografia e programação visual, e Maria Amélia Lonardoni, na assessoria de imprensa.

Oscar no Paraná

14 agosto, 2017 às 21:30  |  por Helena Carnieri

 

O teatro paranaense tem seu Oscar, e ele se chama Troféu Gralha Azul.

Veja se assistiu a alguma das peças indicadas e conte o que achou! A cerimônia de premiação é aberta e acontece no Teatro Guaíra (no Guairão dessa vez!), dia 22 de agosto, às 20h30. Esta é a 37ª edição do prêmio.

Conheça os indicados

Espetáculo
Contos de Nanook – Setra Companhia
Macumba – Uma Gira Sobre o Poder – Companhia Transitória
Organismo Kafka – Grupo Delírio Cia de Teatro
Para Não Morrer – Espaço Cênico Produções Artísticas
Salomé – by Fausto Fawcett – Companhia de Teatro Urubu
Vozes de Abrigo – Cia Laica

Espetáculo para crianças
A Roupa Nova do Rei – Messe Produções Artísticas
Bita e as Brincadeiras – Cia Regina Vogue
Duula – A mulher do Deserto – Companhia Karagozwk
Jardim – Um solo poético para crianças – Tecer Teatro Arte Educação e Cultura
Napo – Um Menino Que Não Existe – Cia do Abração

Direção
Carolina Meinerz por Salomé – by Fausto Fawcett
Edson Bueno por Organismo Kafka
Eduardo Ramos por Contos de Nanook
Fábio Nunes Medeiros por Vozes de Abrigo
Nena Inoue por Para Não Morrer
Paulo Biscaia Filho por A Macabra Biblioteca do Dr. Lucchetti

Direção espetáculos para crianças
Cristine Conde por Jardim Um solo poético para crianças
Letícia Guimarães por Napo Um menino que não existe
Marcelo Andrade dos Santos por Dulla A mulher do Deserto
Maurício Vogue por A Roupa Nova do Rei
Maurício Vogue por Bita e as Brincadeiras

Atriz
Carolina Meinerz – Salomé by Fausto Fawcett
Helena Portela por Não Contém Glúten
Helena Portela por Giacomo Joyce
Má Ribeiro por Terrível Incrível Aventura – Um Musical Fabulesco Marítimo!
Nena Inoue por Para não Morrer
Patrícia Cipriano por Linda Blair – Entra na Sala

Ator
Eduardo Giacomini por Essencial
Jeff Bastos por Terrível Incrível Aventura – Um Musical Fabulesco Marítimo!
Maurício Vogue por Fusca, Rock e Pornochanchada
Mauro Zanatta por Contos de Nanook
Ranieri Gonzalez por Tom – 208 beijos e Abraços sem fim
Tiago Luz por Desnoite

Atriz espetáculo para crianças
Daniele Madrid por Dulla – A mulher do Deserto
Fabiana Ferreira por Jardim – Um solo poético para crianças
Marcelina Fialho por A Roupa Nova do Rei
Thaysa Petry por Napo – Um Menino que não Existe

Ator espetáculo para crianças
Edgard Assumpção por Napo – Um Menino que não Existe
Jeff Franco por Bita e as Brincadeiras
Leo Campos por Napo – Um Menino que não Existe
Maurício Vogue por A Roupa Nova do Rei
Renet Lyon por A Roupa Nova do Rei

Atriz coadjuvante
Amanda Leal por Bita e as Brincadeiras
Dulce Furtado por Descalços no Parque
Kassandra Speltri por A Macabra Biblioteca do Dr. Lucchetti
Michelle Pucci por Salomé – by Fausto Fawcett
Rosana Stávis por Tom – 208 beijos e Abraços sem fim

Ator codjuvante
Bruno Lops por Contos de Nanook
Enéas Lour por Descalços no Parque
Pedro Inoue por A Loucura de Isabella
Sávio Malheiros por Terrível Incrível Aventura – Um Musical Fabulesco Marítimo!
Zeca Cenovicz por Tom – 208 beijos e Abraços sem fim

Revelação
Ana Beatriz Sercunvius por Napo – Um Menino que não Existe
Thiago Juraski por Vozes de Abrigo
Jean Carlos Sanchez por Agreste
Rayssa Gualberto por Napo – Um Menino que não Existe
Marrara Mara por Tom – 208 beijos e Abraços sem fim

Cenário
Cristine Conde por Jardim – Um solo poético para crianças
Guenia Lemos por Salomé by Fausto Fawcet
Guenia Lemos por Contos de Nanook
Paulo Vinícius por Ouve me com teu corpo inteiro
Ruy Almeida por Para Não Morrer

Figurino
Áldice Lopes por Organismo Kafka
Carmen Jorge por Para não Morrer
Eduardo Giacomini por Contos de Nanook
Gui Almeida por A Macabra Biblioteca do Dr. Lucchetti
Paulo Vinícius por Salomé – by Fausto Fawcett

Iluminação
Beto Bruel por Contos de Nanook
Beto Bruel por Giacomo Joyce
Beto Bruel por Tom – 208 beijos e Abraços sem fim
Victor Sabbag por Salomé – by Fausto Fawcett
Wagner Correa por Ouve me com teu corpo inteiro

Composição musical
Alexandre Nero e Gilson Fukushima por Tom – 208 beijos e Abraços sem fim
Enzo Veiga por Terrível Incrível Aventura – Um Musical Fabulesco Marítimo!
Erick Herculano, Clarissa Oliveira e Gide Ferreira por Macumba – Uma gira sobre o Poder
Felipe Ayres e Rodrigo Stradiotto por Salomé – by Fausto Fawcett
Karla Izidro por Napo – Um Menino que não Existe

Sonoplastia
Alexandre Zampier e Saulo Soul por Agreste
Felipe Ayres por Salomé by Fausto Fawcet
Jo Mistinguett por Contos de Nanook
Karla Izidro por Napo Um menino que não existe
Karla Izidro por Pelas mãos de Maria ou As Vozes de Simone

Maquiagem / caracterização
Áldice Lopes por Organismo Kafka
Andrea Tristão por Terrível Incrível Aventura – Um Musical Fabulesco Marítimo!
Dayone Padilha por Vozes de abrigo
Livien Ullmann por A Macabra Biblioteca do Dr. Lucchetti
Marcelino de Miranda por Contos de Nanook

Texto original
César Almeida por Nando Peças Tetarias para o ser Contemporâneo
Edson Bueno por Organismo Kaffka
Edson Bueno por Napo – Um menino que não Existe
Edson Bueno por Pelas mãos de Maria ou As vozes de Simone
Fábio Nunes Medeiros por Vozes de Abrigo
Fausto Fawcett por Salomé – by Fausto Fawcet

Viva o Dia das Mães! Em julho?

25 julho, 2017 às 15:10  |  por Helena Carnieri

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Chega o Dia das Mães e é aquela enxurrada de mensagens no celular, corações, balões, frases e até capítulos de livro inteiros sobre como é maravilhoso ser mãe, apesar dos picos de dor, enlouquecimento precoce e paranoia diários. Só agora, em julho, me cai a ficha.

Achava que isso me incomoda só pelo tom meloso, mas uma psicóloga infantil matou a charada. “Gente, nem é tudo isso”. Mãe de dois e orientadora de pais há décadas, ela traz as comemorações mais para perto da realidade.

Segundo ela, o clima de festa acaba mascarando um pouco da desilusão que é ser mãe todos os dias. Isso porque todo mundo idealiza a maternidade, desde a gravidez, e quando as coisas acontecem mais pé no chão, ou seja, com muito amor, mas um pouco de chateação aqui e outra ali, parece que precisa ficar reafirmando o quanto vale a pena.

É claro que vale! Acho lindo quem usa corrente com boneco menino ou menina de acordo com o filho que tem. Mas só por brincadeira, pensei em usar no lugar uma tesourinha sempre ao pescoço – para o caso de o bebê dormir (finalmente!) e eu conseguir tosar as garrinhas. Mais uma coisa que admiro: quem consegue cortar as unhas com o filho acordado.

Tem gente que pira e já enxerga o cordão de ouro como uma condecoração. No meu caso poderia trazer escrito “Olhe pra mim, tenho dois. Não durmo à noite e estou aqui em pé”.

Hotel Califórnia

10 julho, 2017 às 18:00  |  por Helena Carnieri

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Lendo colunas antigas sobre maternidade – mais do palco da vida, gente – só posso dizer ah….se eu soubesse então o que eu não sei hoje! Escrever dando dica de como fazer o bebê dormir, é, dona Helena? Se Nelson Rodrigues disse mesmo “jovens, envelheçam”, eu diria “casais que falam demais do filho (tipo nós), tenham o segundo filho…”

Tem gente que chama isso de “cuspir pra cima” (cai na cara). Pavonear-se de algo que fazemos “ó tão bem” e de repente… tudo errado.

Com minha primeira filha foi tão mil maravilhas essa coisa de dormir, que o segundo está aproveitando a brecha pra pedir colo de hora em hora. De madrugada. O pior mesmo não é isso, é que…nós damos! Que fim deram os livros que ensinam a fazer dormir, toda a oração a esse respeito, o que aconteceu com nossas vidas? Sério, eu dormia tão bem. Enfim, resta o desabafo de quem ainda está na tormenta mas sabe que um dia sairá dela. Não é possível que com 17 anos ele continue chorando à noite. Espero realmente que não.

Dá também para rir um pouco. Por exemplo, ao seguir a sugestão da psicóloga da escola: “se precisar durma você no berço dele, mas não leve para a sua cama”. Pois é, eu fiz isso. Baixei a grade, thcum pra dentro com ele no pescoço, meia hora pra desgrudar, e aí começa o contorcionismo digno de um Houldini saindo das algemas dentro de um tanque de água. Entrar foi fácil, mas quem disse que consigo sair do berço? Subitamente me senti no aeroporto de Tel Aviv, onde descobri que sair de Israel é muito mais difícil do que entrar, não me pergunte por quê.

Mas tudo bem. O bebê muda de hábitos como quem muda a fralda, então vamos esperar que logo venham mudanças noturnas para melhor!

Chaplin no teatro

22 junho, 2017 às 21:40  |  por Helena Carnieri
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Foto de Isabelle Neri.

 

Uma visão coletiva do estilo de Chaplin de atuar está no espetáculo “Um mundo debaixo do meu chapéu”. O espetáculo, da Companhia do Abração, tem uma sessão neste domingo (25) às 16h na sede do grupo.

A escolha por representar o palhaço do chapéu coco no palco é, nas palavras da diretora Letícia Guimarães, uma homenagem à “genialidade de seu silêncio”. O espetáculo deixa de lado a solidão um tanto melancólica de Chaplin e põe em cena três atores (Blás Torres, Edgard Assumpção e Kamila Ferrazzi).

Usando sombras e objetos, eles revivem algumas cenas clássicas dos filmes de Charles Chaplin, como a do “balé dos pãezinhos” em sua simplicidade poética.

SERVIÇO

UM MUNDO DEBAIXO DO MEU CHAPÉU

Apresentação: Dia 25/07/2017

Horário:  domingo, às 16h.

Local: Sala Raul Cruz, sede da Cia. do Abração. Rua Paulo Ildefonso Assumpção, 725 -  Bacacheri – Curitiba – PR

Entrada: franca

Duração: 50 minutos

Classificação indicativa: Livre – Indicado para todas as idades.

FICHA TÉCNICA

Direção: Letícia Guimarães

Dramaturgia: Criação coletiva sob a supervisão de Letícia Guimarães

Cenografia e figurinos: Simone Pontes

Iluminação: Blás Torres e Edgard Assumpção

Sonoplastia, composição e direção musical: O grupo

Elenco: Blás Torres, Edgard Assumpção e Kamila Ferrazzi

 

Quero ser a mãe da Peppa

6 junho, 2017 às 22:22  |  por Helena Carnieri

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Quero ser a mãe da Peppa. Serena, senhora de si, não se incomoda com a bagunça geral que aqueles porquinhos armam. Ou pelo menos não aparenta nos 5 minutos de desenho. Se ela vai fazer bolo, é óbvio que põe os dois filhos para ajudar, mesmo que espirre massa de chocolate por tudo. E ainda dá risada junto com a garotada.

Já eu estou com sintomas de child burnout, se isso existe. Solto fogo pelas ventas, derramou iogurte é bronca na certa. Nem o nenê escapa, apelidado de “preazinho selvagem”, e isso nos bons dias.

Por isso quero a serenidade da Senhora Pig, essa senhora de si cor de rosa.

Só que não. Hoje eu tinha só uma meta extra filhos: tirar o esmalte das unhas, e, se desse um golpe de sorte, quem sabe até cortar e lixar. Então, antes mesmo que o segundo acordasse, já tinha botado meu plano em ação. Às 8h35 estava tirando tudo do armário de venenos em busca do óleo de banana. A acetona já tinha evaporado no ano sem uso e o lencinho removedor que sobrou da última viagem só deu para uma mão.

Com a outra, a de unhas ainda vermelho descascado, digitei no whattsapp “tá em casa?” para minhas duas amigas do prédio. Uma respondeu, sim, tinha acetona. “Tô colocando o elevador”, mas eu só vi 5 minutos depois. O pacotinho ficou lá, subindo e descendo. Enquanto isso eu raspava a parte queimada das torradas.

Quando saí esperar o elevador, que demorou, porque vinha sempre o errado, sem acetona, a vizinha abriu a porta. De roupão, perguntou o que era esse cheiro de queimado. “A torradeira”, expliquei, também de pijama. Por sorte nos damos bem. Taí algo do mundo da Peppa que existe na minha vida.

Kafka é aqui

23 maio, 2017 às 21:52  |  por Helena Carnieri
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Foto de Chico Nogueira.

O  diretor Edson Bueno ataca novamente o universo de Franz Kafka, ou melhor, imerge nele em sua nova estreia, “Organismo Kafka”. Numa colagem e adaptação a partir de textos do autor tcheco, a obra nos coloca no sopé de um Castelo. Não exatamente aquele do romance inacabado “O Castelo”, mas certamente essa é uma referência forte. Outras são as “Narrativas do Espólio”, a “Metamorfose” e “O Processo”.

Nas palavras do diretor em entrevista ao blog: “O Kafka que mora e se esconde dentro do meu coração é inquieto, provocador e insatisfeito. E acabou que o K de ‘Organismo Kafka’ é um pouco o meu sentimento de artista numa sociedade onde a palavra, a arte, a criação está cada vez menos inquieta e mais conformada. Uma leitura de Kafka e sua literatura, mas também um pesadelo.”

Estamos junto com os personagens nesse lugar de medo e expectativa, enquanto não se sabe o que pode vir, de bom ou ruim, das alturas do poder.

Na peça de Bueno, K. é um escritor empobrecido que chega a um vilarejo escuro e frio (como é toda a literatura de Kafka, não?). Ali se vê nas mãos de uma gangue de _ bandidos? mortos-vivos? _ que tornarão sua vida ainda pior.

Vale lembrar que as obras de Edson Bueno há algum tempo acontecem em seu espaço próprio, o Estúdio Delírio. Um dos teatros independentes da cidade que precisam ser frequentados!

 

Ficha técnica

Texto e Direção: Edson Bueno

Figurinos e Maquiagem: Aldice Lopes

Programação Visual: Marcos Minini

Elenco: Douglas Lacerda, Guilherme Oliveira, Marcos Maciel, Rafael Wolff, Sandra Prado, Antonio Barros e Robysom Souza.

SERVIÇO

ESTÚDIO DELÍRIO – Rua Saldanha da Gama, 69 – Centro (Próximo ao Museu do Expedicionário) – Telefone: 996931776

Sextas e sábados – 20 horas, domingos – 18 horas. Até 28 de maio. R$ 40 e R$ 20,00 (meia) – estudantes, professores, maiores de 60 anos, classe teatral.

 

Política no teatro?

19 abril, 2017 às 14:39  |  por Helena Carnieri

Aproveito esse espaço para divulgar o trabalho super democrático de Jorge Dubatti, historiador, professor e crítico de teatro com quem conversei para a Folha de S.Paulo. Leia a entrevista abaixo:

‘Amantes do teatro se tornam filósofos’, diz historiador

HELENA CARNIERI

COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, EM CURITIBA

Jorge Dubatti, foto tomada por Alejandro Iurman

O conceito de teatro político foi ampliado na América Latina e entrou numa onda de multiplicidade.

A avaliação é do historiador e crítico argentino Jorge Dubatti, 53, para quem “todo amante do teatro torna-se um filósofo do teatro”. Ele difunde há 20 anos diferentes bases teóricas para que se aprimore a experiência de ver um espetáculo –e aquilo que se diz sobre ele depois.

Fundador da Escola de Espectadores de Buenos Aires, onde ministra aulas com lista de espera, lançou o livro “Teatro dos Mortos: Introdução a uma Filosofia do Teatro” (ed. Sesc, 204 págs., R$ 56). Em entrevista à Folha, ele traçou um panorama da pesquisa sobre teatro na América Latina e falou do potencial do teatro político.

Folha – O senhor tem fomentado a filosofia do teatro. Analisar uma obra teatral por meio da semiótica, ou seja, dos signos presentes nela, é insuficiente?

Jorge Dubatti - Há muitas construções científicas sobre o teatro, e cada uma defende uma abordagem diferente, com possibilidades e limitações distintas. As principais são a semiótica, a antropologia, a sociologia e a filosofia.

A semiótica entende o teatro como linguagem, enquanto a filosofia do teatro o compreende como acontecimento, que é uma ideia muito maior.

É fundamental que cada pensador saiba que não há uma única maneira de pensar o teatro e que essas formas podem se combinar e se enriquecer mutuamente.

Em Buenos Aires acreditamos que a forma de compreensão mais rica e abrangente do fenômeno teatral seja a filosofia do teatro, entendida como filosofia da práxis teatral. Daí surge o protagonismo dos artistas na produção desse pensamento.

O livro fala no aumento do número de artistas-pesquisadores. De que forma essa tendência faz avançar a investigação teórica?

A universidade está começando a aceitar as ciências da arte, no sentido da produção de discurso científico (rigoroso, sistemático, fundamentado e validado por uma comunidade de especialistas) sobre os fenômenos artísticos.

Também valoriza cada vez mais os artistas na produção do pensamento, um pensamento que surge da prática, numa filosofia da práxis artística. As combinações são múltiplas: o artista-pesquisador, o pesquisador-artista, as parcerias entre artistas e pesquisadores, e um novo modelo de pesquisador, aquele participativo, que, sem ser artista, faz do meio teatral seu laboratório, seja como espectador, seja como alguém próximo ao contexto de produção, circulação e recepção.

Os artistas-pesquisadores e essas outras combinações produzem um pensamento único, específico, singular, que deve ser promovido e estimulado pela universidade, que se vê diante de um grande desafio na articulação com as artes.

Existe alguma proposta para “controlar cientificamente a qualidade da produção de teatrologia”, conforme o senhor sugere no livro?

Cada comunidade de especialistas possui suas coordenadas de validação, de acordo com as bases epistemológicas, teóricas, metodológicas e analíticas. Muitas vezes essas diferentes coordenadas de validação geram discussões apaixonadas. A ciência é uma aventura cheia de paixão.

A predominância do teatro político hoje estimula produções panfletárias?

Na América Latina, ampliou-se o conceito de teatro político. Hoje observamos a força política do teatro em todos os níveis, na medida em que incide em um campo de poder que vai além dos partidos políticos, mas que pode incluí-los também.

Como se cria uma escola de espectadores?

É um espaço ao qual se convocam espectadores para analisar a cena teatral da cidade. Trata-se de estimulá-los a descobrir e alimentar a maravilha do teatro. Apostamos num espectador companheiro, crítico e filosófico

Aproveito esse espaço para divulgar o trabalho super democrático de Jorge Dubatti, historiador, professor e crítico de teatro com quem conversei para a Folha de S.Paulo. Leia a entrevista abaixo: