Minha mãe acha estranho

1 fevereiro, 2018 às 21:28  |  por Helena Carnieri

Você, como minha mãe, acha teatro estranho?

Pois não se preocupe que esse é o último capítulo de “O Velho”, peça que o blog A vida é palco está publicando em fascículos, como faziam os grandes autores do século 19. Aqui a autora é contemporânea, moradora de Curitiba, a super Juliana Partyka. O início da peça está nos posts anteriores.

velho

CENA OITO: TUDO É EXATO. NADA MAIS.

TEREZA: Tá morto.
GIO: Jesus ressus…
MARIANA: Faça ele viver então, porra!
GIO: Eu faço.
TEREZA: Teu cu.
GIO: Juro.
MARIANA: Vadia.
GIO: É serio.
TEREZA: Eu o pegarei no colo. O olho dele me aterrorizará, e por segundos
ele não parece ser o mesmo. As patas não vão mais dobrar, o pelo não vai
mais brilhar.
Eu vou dizer que duvido devolver uma centelha de vida ali dentro. Talvez
queira colocar na caixa, e deixá-lo seguir descansando. Eu nunca vou dizer
'fique com Deus' por que acho mesmo que deus não merece a companhia dele.
Mas eu vou dizer 'fique comigo'. Por que eu me sinto sozinha. Por que eu não
tenho mais com quem conversar. Uma delas vai dizer num suspiro só, que ele
pode viver de novo, se fizermos os procedimentos certos. A outra nunca, nunca
vai querer me botar esperança dentro do peito. Você vai dizer que é crueldade.
O outro alí vai dizer que me entende, e alguém da rua de cima prefere assumir
que não tem estômago.
Eu vou sentir dores latejantes no meu peito. Eu vou querer pedir ajuda, mas
elas não terão coragem. Então eu farei sozinha.
Visto de cima ele parece o mapa mundi. Suas extremidades esticadas parecem
a Europa, a América Latina, e os caminhos desenhados na selva africana. A
barriga faz uma curva para dentro, como quem coloca as mãos encolhidas
sobre o peito para se proteger. Da vida. Do Velho. E eu vou pensar no Velho.
Eu vou pensar que gostaria muito de dançar em cima do caixão dele. E vou
desejar que ele morra bem lentamente. Vou desejar que ele sinta a calmaria do
vácuo e esteja consciente de que nunca mais vai poder se mexer.
Alguém vai me convencer de que Lázaro foi feito de metáforas. Que as coisas
eram escritas pra botar medo na gente. E eles nunca pensaram que as coisas
foram escritas também pra botar esperança. E a esperança é mais letal que o
medo.
Eu vou pensar nas tripas dele. No coração rígido, e talvez sinta curiosidade em
saber se o tamanho do estômago é proporcional ao tanto que ele come. Eu vou
rir. E vou lembrar do dia que ele destruiu uma caixa de papelão e vomitou em
cima do tapete da sala. Os ossos serão objetos esbranquiçados e tímidos, se
agarrando nas veias, e nas carnes, e na sustentação de todas as corridas atrás
de passarinhos e gatos. E eu vou pensar nas cartomantes, no futuro, nos
sonhos em que ele conversa comigo, mas sempre está muito distante para que
eu possa toca-lo. E talvez eu chore um pouco. Bem pouco. Talvez eu não
queira demonstrar que estarei chorando, e engula o ar até sentir minha cara
doendo. Até explodir meu alivio pelas paredes da casa dela. Até não restar
mais nada a pensar, a não ser deixar descansar. O cachorro. E o Velho. E o
meu coração vai endurecer tanto, e ele vai continuar crescendo dentro do meu
peito até eu perceber que algumas coisas são irremediáveis.
Alguém vai dizer amém. E eu vou entender que a caixa de madeira é a única
coisa que vai separar o que eu sinto, do que deve ser feito.
E a chuva vai continuar a cair. E dentro de mim chove.
Amém. Eu digo. E meu coração volta a respirar.
GIO: Tá rindo de que?
MARIANA: De você.
GIO: Não estou falando com você. Esse teu ar de riso me dá raiva. Você é uma
besta quadrada. Igual o Velho. Os olhos. A boca. Tudo em você me incomoda.
Tudo em você me lembra o Velho.
TEREZA: Eu estava tomando chá. Eu gostava de tomar chá todas as noites
antes de dormir. As pessoas vivem de hábitos medonhos, mas o meu era só
tomar chá. Ouvia os passos no chão de madeira. E isso me faz rir. O barulho. A
água ficando escura. A minha espera. O açúcar acumulado no fundo da xícara,
e os meus dedos fazendo movimentos circulares até a minha boca. Até ela
parecer limpa.
Eu rio por que. Não sei. Talvez seja hábito também.
(Longo silêncio. Elas só olham para a caixa em cima da mesa).

CENA NOVE: CERTAS COISAS SÃO DO JEITO QUE SÃO POR QUE DEUS
QUIS ASSIM

MARIANA: Diga alguma coisa.
TEREZA: Às vezes eu tenho vontade de me matar.
GIO: Pior pra você.
MARIANA: Palavras fúnebres.
TEREZA: Às vezes eu tenho vontade de rezar antes de me matar. E descansar
em paz. Amém.
MARIANA: Babaca.
TEREZA: Um dia me vi morta. Pedi desculpas pro cachorro. Por deixar ele
sozinho. Essas coisas. Um dia me vi olhando meu próprio caixão. Eu mesma
chorei. Ninguém mais.
GIO: Com quanto tempo começa feder?
MARIANA: Dois dias. Se ficar no sol é mais rápido.
TEREZA: E chovia. Eu morri num dia de chuva.
MARIANA: Fedeu menos.
GIO: Mas você sabe que não é a mesma coisa. Não sabe?!
TEREZA: Claro que é.
MARIANA: Fede menos.
TEREZA: Fede mais. Dependendo da quantidade de sol.
GIO: Eu vou vomitar.
TEREZA: Parem. Olhem pra ele. Funciona assim: Você olha até se acostumar.
Com as pessoas que trabalham no necrotério é assim. Eu acho. São
acostumadas com o cheiro. Com a dureza. Ouvi dizer que eles pintam a cara
do defunto com tinta de caneta, e ficam zombando das formas que se pode
fazer com um corpo sem vida. Riem. Riem. Não me espanta que as pessoas
tenham medo de morrer. O que elas têm é medo de não conseguirem revidar
às provocações dos funcionários.
Olhem pra ele. Pro bicho. Se quiserem dizer alguma coisa, digam agora.
GIO: Não será a mesma coisa.
MARIANA: Eu quero fumar um cigarro.
TEREZA: E pode ser pior do que já é?
MARIANA: Pode. Quem sabe ele não goste de estar aqui. Quem sabe você tá
fazendo algo contra a vontade dele. Quem sabe você não esteja deixando ele
descansar, e isso o deixe irritado. Quem sabe ele volte alguma noite pra te
assombrar.
GIO: Ele fica, tipo, parado?
TEREZA: Duro.
GIO: Olhando pra gente?
MARIANA: Olhando com o que? Não fica de olho fechado?
TEREZA: Você deu essa ideia! Vai desistir?
MARIANA: Não disse isso. Disse que as vezes eu posso ter medo. Da alma
dele. Do castigo de Deus. Por que você sabe que tá indo contra a vontade
dele, não sabe?
TEREZA: A religiosa.
GIO: Jesus ressuscitou Lázaro.
MARIANA: Quem te disse uma merda dessas?
TEREZA: Eu vou cortar a barriga. Eu não sei fazer isso, mas acho que é assim.
Eu vou cortar a barriga ou. Droga. Preciso tirar o sangue primeiro. Traga uma
caneca! Igual faz com os bois no abate. Faz um buraco no pescoço, e espera o
sangue sair. Enrola no jornal. Tem jornal?
GIO: Eu não tenho estômago.
MARIANA: Os olhos não secam?
GIO: Coloca botão.
TEREZA: Não é a mesma coisa.
MARIANA: Quer que faça o que então, porra?
TEREZA: Quero tirar essa dor do meu peito. Quero morrer. Quero deitar no
chão, quero derreter nas frestas desse chão. E quero esquecer que tudo me
toca. Tudo me comove. Tudo me atinge. Quero explicar que essa dor é tão
forte, que parece Jesus colocando pregos na minha cruz.
GIO: Como se você tivesse uma.
TEREZA: Todo mundo tem.
MARIANA: Eu não.
GIO: Pior pra você.
TEREZA: Eu vou rir. Mas não devia. Ai meu Deus. A minha barriga chega a
doer. Você apanhou com um cabide de roupas.
MARIANA: Coitada.
TEREZA: (gargalha) Tô rindo, mas na hora foi bem triste. Você saiu correndo.
Os passinhos assim pequenos, mal conseguia fugir. Achou que o banheiro era
um lugar seguro, mas era burra de dar pena. Ficou encurralada igual
passarinho sendo atacado por cachorro bravo.
GIO: Não achei engraçado.
MARIANA: As costas. Como é mesmo o nome daquilo?
TEREZA: Pancada.
MARIANA: Não. As marcas. Quando fica vermelho, e fica mais visível, como
se a pele tivesse crescido. Como é o nome?
TEREZA: Deformidade.
GIO: Vergão.
TEREZA: (gargalha) Vergão! Parecia uma zebra. Visto de longe, parecia o
mapa mundi. A parte dos ombros parecia a Europa, e as pernas, a África.
Quem sabe os cortes faziam desenhos iguais o dorso de uma zebra.
GIO: Não achei graça.
MARIANA: Você usou algodão?
TEREZA: Sabe Deus. Ficou uma semana sem ir pra escola. Devia ter se
matriculado num zoológico.
MARIANA: Por dentro. Agora. Do bicho.
Tem que tirar as tripas, e encher de algodão.
Precisa de arame pra segurar o couro no formato do bicho, e depois, precisa
de algodão pra preencher no lugar dos órgãos.
GIO: Essa merda vai começar feder.
MARIANA: Então ajuda, porra!

(Arames, algodão, álcool, tesoura, faca, botões. Tudo colocado dentro da caixa
de papelão. Mexem. Reviram. Os três pares de mãos. Em algum momento se
encostam dentro da caixa).

GIO: Eu nunca peguei na tua mão. Quer dizer. Depois de grande. Nem no
bicho. Nunca peguei na mão dele.
MARIANA: Não me encoste!
TEREZA: Vou esfregar essas tripas na tua cara.
MARIANA: A parte do intestino é mais rígida. Faz ondinhas. Todo o resto é liso
e liguento. O dedo afunda. No intestino.
MARIANA: Se eu morrer antes de vocês, não dancem em cima do meu caixão.
GIO: Pra que? Acha mesmo que me dou esse trabalho?
TEREZA: Um dia serei homenageada como a melhor conhecedora de tripas.
Os formatos, os comprimentos. A cor. Direi, sem pestanejar, o exato lugar de
onde elas saíram. As entranhas. Quando você morrer vou abrir tua barriga e
cheirar todas as tuas tripas. Vou saber o que você comeu. As drogas que você
usou. E as pedras que incomodam tuas vísceras. Vou sim. Quem sabe eu
pendure nas paredes dessa casa, quem sabe durma com elas embaixo do meu
travesseiro, ou acenda uma vela ao lado. Nunca, nunca deixarei que elas se
sintam sozinhas. Eu te prometo.
MARIANA: Um dia li que.
GIO: Duvido.
MARIANA: Uma menina africana, na Guerra Civil, fazia reconhecimento de
cadáveres só encostando o lábio nas tripas do defunto. E ela sentia o gosto
das tripas, e sabia de onde ele tinha vindo.
GIO: Que nojo.
TEREZA: Quando você era pequena, comia amoras e fingia estar sangrando.
GIO: Mentira.
TEREZA: Juro. Só parava quando o Velho esfregava uma esponja na tua cara.
Um toque de rinoceronte.
(Percebem que a taxidermia não funciona. Observam. Desanimam. Sentam.
Desistem. Visivelmente desistem. Exaustas.).
MARIANA: Quando chove o tempo para?
GIO: Você já tentou respiração boca a boca?
TEREZA: Tá morto. Eu gostaria que estivesse vivo. Mas está bem morto. Sinto
um peso na minha cabeça. Não enxergo de longe. Esse é o mal do mundo.
Enxergar só o próprio cu.
MARIANA: Vai começar a feder.
TEREZA: Você fede. Igual o Velho. Até os nós dos teus dedos lembram a cara
dele. Toda enrugada. Toda deformada.
Eu queria fazer um funeral decente.

CENA DEZ: QUANDO TUDO SÓ EXISTE A PARTIR DO FIM.

TEREZA: Quando ele entrou por aquela sala dentro daquela caixa de madeira
toda polida, eu. Eu cantei. Esfreguei a ponta do indicador num alfinete e vi
sangrar. Fiz contas. Agradeci. Marquei compromissos importantes. Olhei os
meus pés com formatos estranhos. Nem por um segundo da ação do oxigênio
oxidando, e matando cada célula minha e dele, pensei em dizer adeus. Pausa.
Eu. não. me. culpo.
MARIANA: Os lábios. Eu não sei o que eles faziam naquele momento. Eu acho
que sorriam. Não lembro de ter observado isso. Os olhos, vivos, lúcidos, quase
saltando pra fora do rosto meio quadrado, meio triste. Pareciam dois botões.
TEREZA: Acho que nem deus sabe dançar como eu sabia. Mas as minhas
pernas não me acompanharam. E eu só fiquei parada. Olhando. Lembrei do
Cão. Do dia que eu quis ressuscita-lo. E eu também não o fiz.
GIO: Aqui faz sol.
Há vinte e oito dias só faz sol. Quem sabe sirva para levar as almas para o
inferno. Ouvi dizer que Deus. Bom. Deus é um ser egoísta.
TEREZA: Eu não me culpo. Na última vez que o vi ele parecia feliz. Parecia. Eu
não sei explicar. É isso. Não disse adeus. Não disse nada, eu acho. Só fitei. Na
minha cabeça tocava uma música esquisita, e eu dançava. Os nossos ritmos
nunca eram iguais. Nunca foram.
Eu sei que parece horroroso o que eu vou dizer, mas penso que. Eu penso que
as pessoas deveriam ter data de validade. Mais que isso, penso que a gente
deveria saber o dia que elas, você sabe, somem. fogem. morrer. Deus não
deveria nos tirar a graça do preparo.
Eu senti vontade de chorar. É isso. Queria andar com um pé na frente do outro,
queria correr até perder o ar. Queria ter sentido o gosto daquele vazio. Talvez
por isso não tenha dito nada.
Outro dia descobri que o oxigênio é cruel. Quando você acha que tá se
enchendo de vida, na verdade está morrendo a cada respiro.
Ouvi alguém dizer “amém”. E eu entendi a caixa de madeira. O que podia ser
feito.
E a chuva continuou a cair. E dentro de mim choveu.
Amém.
MARIANA: Vai começar a feder.
GIO: Com o sol é pior.
MARIANA: A terra deu uma afundada lá atrás.
TEREZA: Melhor. Assim ele descansa melhor.

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