Os procedimentos de esquecer

25 janeiro, 2018 às 20:38  |  por Helena Carnieri

Ler dramaturgia pode parecer complicado, se você não tem o costume. Quando se faz disso um hábito, porém, a leitura acaba sendo facilitada pelas rubricas (indicações do autor externas às falas) e pela imaginação da cena que vem junto com as palavras.

Continuemos, portanto, com a publicação de “O Velho”, de Juliana Partyka, escrito em 2017 durante o Núcleo de Dramaturgia do Sesi. As cenas de 1 a 4 estão nos dois últimos posts. Novos autores paranaenses para novos tempos.

dramaturgia

CENA 5 – QUANDO TUDO ACONTECE, NADA FICA PARA DEPOIS.

TEREZA: Será que ele vai pro inferno?
MARIANA: Que?
TEREZA: Não sei. Fiquei pensando nisso ontem enquanto comia.
MARIANA: Eu não sei se existe esse negócio de céu ou inferno!
TEREZA: Então vai. Sempre que você não sabe de alguma coisa a resposta é
sim.
MARIANA: Você comeu?
TEREZA: Um pouco. Tive um ataque de riso quando derrubei o prato de
comida no chão.
MARIANA: Coitada.
TEREZA: Tua mãe veio aqui mais cedo, disse que não quer que você vire uma
puta.
MARIANA: Cena. Ela tá cagando pra mim!
TEREZA: Você vai ficar?
MARIANA: Talvez. Se a herança for boa.
TEREZA: Tô falando sério.
MARIANA: Não. Nem quero. Tua mãe é louca!
TEREZA: A voz dele fica ecoando.
MARIANA: Que?
TEREZA: No meu ouvido. Escutei ontem e hoje. Deve ser um negócio da
cabeça. Até servi comida no prato dele hoje mais cedo.
MARIANA: Quem sabe pensa que ele pode voltar.
TEREZA: Deus nos livre. O que deu da entrevista?
MARIANA: Nada. Disseram que iam ligar no dia seguinte.
TEREZA: Mas isso foi semana passada!
MARIANA: Foi o que eu disse.
TEREZA: Tô querendo ir ao centro espírita.
MARIANA: Que?
GIO: Tá querendo se livrar da culpa.
MARIANA: Uma vez eu fui lá com a Rosa e a entidade escrevia até os
segredos dela no papel. Com a mesma letra do falecido. Nessas horas a gente
tenta meio de tudo.
GIO: A previsão diz que vai chover o dia inteiro.
TEREZA: A terra vai afundar.
MARIANA: Ele descansou.
TEREZA: Até parece que gostava do velho. Não carece palavras fúnebres não.
TEREZA: Será que passa?
MARIANA: Passa.
GIO: Lógico que passa!
TEREZA: …
GIO: Você precisa comer.

CENA SEIS: QUANDO VOCÊ PRECISA DIZER QUE ESQUECEU É POR
QUE, DE FATO, QUER LEMBRAR.

MARIANA: Eu poderia dançar em cima do caixão dele. Com certeza eu
poderia.
GIO: Chega.
TEREZA: Tá defendendo? Pega pra você.
GIO: Depois não reclame.
TEREZA: Tá defendo o Velho! Quem diria!
MARIANA: Queria fumar um cigarro.
GIO: Aqui dentro não.
MARIANA: Você já apanhou com uma corda. Eu lembro.
TEREZA: Nunca.
MARIANA: A gente era bem criança.
TEREZA: Lembra nada.
MARIANA: O Velho chegou do trabalho, e eu brincava num balanço. Ele nem
falou nada, só olhou. Firme. De canto de olho. Quando eu percebi você já
estava misturada naquelas cordas. Gritava igual uma hiena.
TEREZA: Eu era detalhista. Hienas riem.
GIO: Parecia.
TEREZA: Mas não morri.
MARIANA: Ele dava socos até no vento. Só parou quando tua cara ficou
inteirinha roxa quase sem ar, mas você ainda respirava. Eu lembro.
TEREZA: Por que você tá zombando disso agora?
MARIANA: Por que tá chovendo, e quando chove eu lembro.
TEREZA: Ele não gostava de chuva. Quando ele saía pra trabalhar, voltava se
encostando às paredes. Igual um moribundo. Limpava a boca com as costas
da mão. Um velho muito nojento.
MARIANA: Eu acho que só tenho uma memória boa. Não estou zombando.
TEREZA: Do Velho?
MARIANA: Daquele tempo.
GIO: Você é inteira movida na ingratidão.
MARIANA: É sério. Eu vou gargalhar. Mas é muito sério. Muito grave. Não me
olhe assim. Preciso contar sem te olhar. Meu Deus a minha barriga chega a
doer. Você emprestou um chinelo da vizinha pra não levar uma surra!
GIO: Sim! Ele te fez cagar de medo. Você tinha perdido a droga do chinelo
rosa, e ele te jurou de morte!
TEREZA: Babaca.
MARIANA: Muito bom! Ele rosnava, e cada vez que ele te olhava, você perdia
um pedaço de bosta dentro das calças!
TEREZA: Aceitou, não aceitou?
MARIANA: Sempre acreditou que era o mesmo chinelo. Babaca.
GIO: Deu uma afundada lá atrás.
TEREZA: Droga!
GIO: Não adianta agora, tem que esperar o tempo melhorar.
MARIANA: Você devia ter comprado um caixão decente, pelo menos não
afundava.
TEREZA: Nem pensei. Deus nos tira o privilégio do preparo. Ele é um egoísta
babaca.
Eu vou tirar ele de lá.
GIO: E vai fazer o que?
TEREZA: Dançar.
MARIANA: Deus do céu, eu não acredito que vou fazer isso.
TEREZA: Vai ou não?
MARIANA: Vou.

CENA SETE: OS PROCEDIMENTOS DE ESQUECER

TEREZA: Então eu vou parar tudo. Congelar. Meu braço sem querer vai
esbarrar num copo e fazer ele se espatifar no chão.
Eu vou respirar bem fundo, como se quisesse criar coragem de olhar pra ele.
Para os pedaços dele. Para o meu reflexo igual. Todo quebrado. Todo partido.
Todo sem partes.
E eu vou olhar pra ele. Firme. Vou mostrar que não tenho medo. Nem de
colocar minha mão naquilo. Nem do machucado que pode fazer. Eu vou
apertar meu indicador contra a pele dele. Vou grudar um pedaço daquilo no
meu indicador. Depois de três segundos eu vou abrir meus olhos e perceber
que eu não morri. Eu. Não. Morri.
Aí eu vou mudar. Aí eu vou saber que o Velho não me matou. Nem vai. O meu
sentimento será de raiva.
Vou olhar pra ele com muita raiva. Não só raiva. Vitória. Rancores. Então vou
olhar de cima.
Olho pro meu dedo. Olho pra quem quer que esteja na minha frente. E vou
dizer que gostaria de matar o meu pai. Gostaria muito. Eu vou arrepiar de ódio,
e alguém vai dizer. Credo.
E vou olhar ele morto. Alguém dança em cima do caixão dele. E ri. Ri
descontroladamente. E eu vou lembrar que ele tá enterrado no meu quintal. Ele
não. O cachorro. E eu vou sentir pena do cachorro e começar a chorar por que
isso é tudo que eu sei fazer.
E quando eu perceber o Velho de longe, ele estará cortando a minha pele, e a
minha barriga estará toda vermelha. Por que eu consigo me livrar do caco, mas
eu nunca consigo não deixar sangrar. Nunca dói. Mas escorre no meu corpo.
Então. Então eu vou sorrir triste. Eu vou lembrar do cachorro enterrado no meu
quintal num dia de chuva. E eu vou pensar que Deus é egoísta demais.
E alguém vai dizer: não importa.
Então eu vou olhar pra Gio. Vou olhar bem no fundo do olho dela, e vou
desejar que ela nunca estivesse comigo.
A dor dela me toca. O cachorro me toca. O Velho não. Já tocou. Não mais.
E eu vou perguntar do funeral. Eu não vou lembrar. Eu nunca lembro.
Ela vai dizer que sente uma agonia no peito. Que devia fazer exercício para as
pernas, para a circulação de sangue. E vou olhar de novo para o Velho.
Eu já não estarei com raiva. E eu não vou pensar que sou triste, por que ela
mesma é muito mais triste, e nem é por causa do Velho. Que se dane a dor
dela.
Eu vou lembrar de Deus. De Jesus Cristo fazendo Lázaro ressuscitar. E um dia
eu vou querer ressuscitar meu cachorro.
MARIANA: Então reza você. Ele não parece muito tranquilo, quem sabe
precise de um alívio pra alma.
GIO: Mentira!
TEREZA: Lógico!
GIO: Já vai começar a feder.
TEREZA: Você fede!
GIO: Ele tá se mexendo.
MARIANA: Você é uma puta egoísta, sempre foi.
GIO: Ele tá se mexendo.
MARIANA: Meu cu.
GIO: Tá se mexendo. Olhem. A orelha piscou. Rapidinho.
TEREZA: Não tá não.
GIO: Tô falando serio. Tá gelado, mas deve ser frio.
MARIANA: Tá morto.
GIO: Vai tomar no teu cu. Apaga esse cigarro.
MARIANA: Tá morto. Muito morto. Cem por cento por morto. E quer saber? Tô
nem aí. Mesmo.
Longo silêncio. Elas observam a caixa de papelão em cima da mesa.
GIO: Acho que tá morto mesmo.
MARIANA: Tá chovendo.
TEREZA: Que peso. Esse ar. Às vezes parece que o teto da casa tá fazendo
pressão na minha cabeça.
GIO: (Acende uma vela) Jesus ressuscita os mortos. Fez isso com Lázaro.
MARIANA: Mas Deus não quer isso. Por que ele-é- muito-egoísta.

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