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“Achei que conhecia o sistema penitenciário, mas estava enganado”

29 julho, 2017 às 09:48  |  por Ana Paula Mira

O médico Drauzio Varella esteve ontem na Casa Folha, na FLIP, para falar sobre o último livro da trilogia que fez sobre o sistema carcerário. O livro Prisioneiras aborda sua experiência ao entrar em um presídio feminino em 2006 e lá passar quatro anos. “As mulheres são muito mais complexas. Quando cheguei, achei que sabia tudo sobre presídios. Mas há uma diferença fundamental: a mulher tem filhos”. O médico percebeu que a maternidade faz toda a diferença, já que, para o homem, “é muito fácil abandonar os filhos”. Drauzio é categórico ao afirmar: “Gravidez indesejada só existe para mulher”.

Na Penitenciária Feminina da Capital, onde entrou para fazer trabalho voluntário em 2006, Drauzio Varella viu detentas de 28 anos com netos e de 40 com bisnetos. Segundo ele, essa é uma realidade que o Brasil finge não existir, afinal as mulheres de outras classes sociais têm opções. “Nas classes mais pobres, gravidez não é opção. A mulher que engravida no morro, por exemplo, às vezes até porque tem mais respeito no tráfico”. O tráfico, inclusive, é o maior motivo de as mulheres estarem encarceradas. “Tem muito apelo do tráfico. As mulheres não suportam não dar as coisas aos filhos. E o tráfico é um dinheiro muito mais fácil e rápido para satisfazer necessidades e vontades dos filhos”. O médico ressalta também que essas mulheres não têm apoio dos homens. “Meu trabalho na periferia mostrou algo alarmante: não há homens na periferia. As casas são formadas pela mãe, avós, filhos e sobrinhos. Sem homens.”

Drauzio também foi questionado sobre a questão da maternidade dentro do ambiente carcerário. Para ele, melhorou muito nos últimos 20 anos, quando mulheres amamentavam até dois meses e eram algemadas para parir. “Qual mulher iria fugir em trabalho de parto?”, brincou.

Na cadeia feminina, também há problemas específicos de saúde, diferentes do ambiente masculino. “A obesidade é um problema terrível, pois a comida enjoa e elas caem no carboidrato”.

Drauzio deu uma lição de humanidade, ao falar sobre os motivos que o levaram a trabalhar com presidiários e presidiárias. Ele comenta que sua vida seria muito menor sem esse trabalho. “Em 28 anos, fiquei apenas seis meses sem estar na cadeia. Minha vida ficou mais pobre”. Drauzio ensina que, quando temos contato com diferente, isso nos choca. “Temos a tendência de nos aproximarmos dos iguais. Mas isso empobrece o mundo em que vivemos”.

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