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Lázaro Ramos fala da questão racial e de “Minha Pele” durante Flip

29 julho, 2017 às 11:25  |  por Ana Paula Mira

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Por Aline Reis 

Na manhã desta sexta-feira (28) o ator, produtor e escritor Lázaro Ramos lotou o auditório da Casa Folha, na Flip, em Paraty.

De forma leve, junto com a historiadora e Lilia Schwarcz, biógrafa de Lima Barreto, trataram dos parelelos entre as questões raciais no tempo do homenageado e nos dias atuais.

No livro, Lázaro trata da temática fora da questão “somos racistas”, mas “como eu provoquei a dor em alguém com meu racismo?”. Ao falar do processo criativo para o escrito, ele também elencou desafios do para tratar do chamado “lugar de fala”. ”Eu comecei a escrever de uma forma arrogante. Tinha dados do IPEA e a partir daí queria me colocar como se fosse um estatístico. Durante o processo de edição foi que, junto com a editora, coloquei meu coração”, revelou.

Às perguntas do público, os sabatinados falaram sobre diversas temáticas tanto pessoais quanto superestruturais, inclusive de educação.

RETROCESSO
De acordo com a historiadora o processo educacional falho nas questões raciais corrobora para perpetuação do racismo.

Além disso, sobre o Ensino Superior, a questão das cotas foi defendida pela historiadora Lilia Schwarcz, que também é professora da USP.

“Existe uma segregação do cotidiano e uma perpetuação da ausência da população negra em certos espaços, aprovamos há duas semanas as cotas lá e elas são extremamente necessárias”, explicou.

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“Achei que conhecia o sistema penitenciário, mas estava enganado”

29 julho, 2017 às 09:48  |  por Ana Paula Mira

O médico Drauzio Varella esteve ontem na Casa Folha, na FLIP, para falar sobre o último livro da trilogia que fez sobre o sistema carcerário. O livro Prisioneiras aborda sua experiência ao entrar em um presídio feminino em 2006 e lá passar quatro anos. “As mulheres são muito mais complexas. Quando cheguei, achei que sabia tudo sobre presídios. Mas há uma diferença fundamental: a mulher tem filhos”. O médico percebeu que a maternidade faz toda a diferença, já que, para o homem, “é muito fácil abandonar os filhos”. Drauzio é categórico ao afirmar: “Gravidez indesejada só existe para mulher”.

Na Penitenciária Feminina da Capital, onde entrou para fazer trabalho voluntário em 2006, Drauzio Varella viu detentas de 28 anos com netos e de 40 com bisnetos. Segundo ele, essa é uma realidade que o Brasil finge não existir, afinal as mulheres de outras classes sociais têm opções. “Nas classes mais pobres, gravidez não é opção. A mulher que engravida no morro, por exemplo, às vezes até porque tem mais respeito no tráfico”. O tráfico, inclusive, é o maior motivo de as mulheres estarem encarceradas. “Tem muito apelo do tráfico. As mulheres não suportam não dar as coisas aos filhos. E o tráfico é um dinheiro muito mais fácil e rápido para satisfazer necessidades e vontades dos filhos”. O médico ressalta também que essas mulheres não têm apoio dos homens. “Meu trabalho na periferia mostrou algo alarmante: não há homens na periferia. As casas são formadas pela mãe, avós, filhos e sobrinhos. Sem homens.”

Drauzio também foi questionado sobre a questão da maternidade dentro do ambiente carcerário. Para ele, melhorou muito nos últimos 20 anos, quando mulheres amamentavam até dois meses e eram algemadas para parir. “Qual mulher iria fugir em trabalho de parto?”, brincou.

Na cadeia feminina, também há problemas específicos de saúde, diferentes do ambiente masculino. “A obesidade é um problema terrível, pois a comida enjoa e elas caem no carboidrato”.

Drauzio deu uma lição de humanidade, ao falar sobre os motivos que o levaram a trabalhar com presidiários e presidiárias. Ele comenta que sua vida seria muito menor sem esse trabalho. “Em 28 anos, fiquei apenas seis meses sem estar na cadeia. Minha vida ficou mais pobre”. Drauzio ensina que, quando temos contato com diferente, isso nos choca. “Temos a tendência de nos aproximarmos dos iguais. Mas isso empobrece o mundo em que vivemos”.

Sororidade, resistência, amor e ayahuasca na Flip

28 julho, 2017 às 12:10  |  por Ana Paula Mira

 

Por Lis Claudia Ferreira

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Após três anos de Flip, já aprendi que o melhor dela nem sempre está na programação principal. Quem anda pelo Centro Histórico de Paraty durante a maior festa literária do Brasil descobre que cada rua e cada casa podem oferecer uma grande experiência cultural. Foi pesquisando a programação paralela da Flip 2017 que encontrei a Casa Santa Rita da Cássia, abrigada no número 178 da rua que emprestou o nome à casa.

Entrei para acompanhar uma discussão sobre “Outros jeitos de usar a boca”, de Rupi Kaur. O público, formado principalmente por mulheres, viu as escritoras Conceição Evaristo e Milly Lacombe compartilhando impressões bem pessoais sobre o livro e sua cortante representação do que envolve ser mulher na sociedade na qual vivemos.
Muito além do interesse puramente intelectual pela obra, havia, entre as mulheres que se apertavam na pequena casa, uma sororidade não anunciada. Senhoras de 60 anos, jovens mães e moças recém-saídas da adolescência declaravam, ainda que sem emitir uma única palavra, o apoio às outras que passaram por experiências iguais ou piores que as citadas no livro de Kaur. Não era preciso dizer. Nós todas sabíamos o que significa ser mulher. Algumas se sentiam mais acolhidas por Conceição Evaristo e sua luta como mulher negra, outras, como eu, sentiam em cada fala de Milly Lacombe o conforto de ver as mulheres lésbicas representadas em uma mesa da Flip.
Esse sentimento se estendeu para a programação que seguiu o debate: Milly Lacombe assumiu sozinha o microfone para falar sobre o seu primeiro romance, O ano que morri em Nova York, lançado no mesmo dia. No livro, classificado como romance de autoficção, encontramos, segundo a própria Milly, 30% de biografia, 30% de exageros, 30% de ficção e 10% de alucinações. A última parte não é exagerada. Milly Lacombe conta, com detalhes bem-humorados, que a história começa com a narração da noite na qual tomou ayahuasca na Amazônia. Depois de ter descoberto a traição da mulher com quem dividiu a vida por 9 anos, a autora sentiu-se morrendo em Nova York, e daí, obviamente, vem o título da obra.

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Mais importante que saber que Milly Lacombe arrastou-se, suada e em sensação de transe pelo chão de uma barraca de lona estendida na Amazônia, é a sensação reconfortante de ver-me representada na narrativa. Até pouco tempo, a própria Flip era alvo de protestos pela baixa representatividade das minorias. Com a mudança da curadoria (agora nas competentes mãos da jornalista Josélia Aguiar), percebeu-se um aumento da diversidade racial e de gênero na programação principal do evento. Ainda que muito ainda precise ser feito, a diferença é gritante.
A Casa Santa Rita da Cássia não apenas abriu suas portas para a discussão das questões de gênero, como fez questão de abraçar a produção literária do feminismo negro e das mulheres lésbicas, muito bem representados por Conceição Evaristo e Milly Lacombe respectivamente. Muitas mulheres podem não compreender a força desse ato. As negras entendem, as lésbicas também. Só quem nunca se vê em papel protagonista em nada do que se produz ou ganha a mídia sabe o que significa participar de um evento no qual o que você é está no centro da discussão (de maneira positiva, vale ressaltar). Que essa, que já é chamada de “Flip da Diversidade Racial”, seja apenas a primeira. Vai ter representação de negras e lésbicas na Flip. Vai, sim.

Lira Neto fala da história do samba e Nelson Sargento anuncia livro

28 julho, 2017 às 09:06  |  por Ana Paula Mira

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Por Aline Reis

Ainda faltava uma hora para que a mesa do escritor Lira Neto começasse na Casa Folha, mas todos os lugares já estavam preenchidos.

Nessa quinta-feira (27), na Festa Literária Internacional de Paraty, o escritor falou do seu novo trabalho “Uma história do Samba – as origens”.

Um dos grandes biógrafos braileiros, Lira Neto falou sobre o nascimento do samba urbano no Rio de Janeiro, no começo do século XX.

Oportuno para uma edição da Flip que homenageia Lima Barreto e por consequências a cultura africana e afro-brasileira.

No escrito é possível conhecer detalhes sobre o samba e também sobre as transformações socias pelas quais passaram o país durante o período.

Determinado como marco histórico, o 1917 foi um dos apontamentos feitos por Lira. “Desde muito antes já havia samba, é um erro dizer que tudo começou em 17. Essa história de centenário do samba teve mais uma conotação política por conta das olimpíadas que histórica”, revelou.

Após a apresentação do novo trabalho, o autor foi questionado sobre a política brasileira nos dias atuais e se mostrou receoso com o que chamou de “onda conservadora”, citando o exemplo da política higienista adotada pelo prefeito de São Paulo, João Dória.

Embora a mesa organizada na Casa Folha trouxesse um dos grandes biógrafos brasileiros, a emoção ficou por conta da lenda do samba Nelson Sargento, que no auge dos 93 anos revelou que está organizando um livro.

VERDE E ROSA
“O samba não é um movimento, o samba é uma instituição”. A declaração de Nelson Sargento, apaixonada e intensa foi uma das tantas que emocionou o público nesta Flip.

De acordo com o sambista, “o samba agoniza mas não morre”, justamente porque soube resistir às apropriações da indústria do entretenimento, à marginalização e a tantos outros ataques.

Na oportunidade, para deleite dos fãs, Sargento falou da organização de um livro com frases e fatos de sambistas consagrados.

Nelson Sargento também falou dos sambas-enredo atuais que, de acordo com ele, muitas vezes são escritos por autores que sequer conhecem as escolas. Na oportunidade ele também falou da sua relação de amor e admiração pela Mangueira.

A expectativa do público é para que o livro do sambista seja lançado logo, assim como o segundo volume da biografia de Lira Neto, previsto para ano que vem.

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Casa Amado Saramago, na FLIP, abre com conversa sobre amizade entre os dois escritores

27 julho, 2017 às 13:49  |  por Ana Paula Mira

“Saramago gostava de Jorge Amado por ser Jorge Amado”. “Era exatamente isso que eu ia falar”. O diálogo, travado entre Pilar del Rio e Paloma Amado, respectivamente viúva de José Saramago e filha de Jorge Amado, foi o início da mesa Dois corações Vermelhos, sob mediação de Lilia Schwarcz, que falou sobre a relação de amizade e parceria entre os dois escritores. Mesa é um nome muito formal para o que foi a conversa entre elas. Está mais para encontro, conjunção, compartilhamento. Pilar e Paloma falaram sobre política, religião, projetos literários e seus papéis como mulheres na vida de homens tão importantes para a literatura mundial. Paloma lembra que o pai sempre indicava leituras e, quando conheceu Saramago, não hesitou: “Leia, veja que força tem a obra de Saramago”. Pilar também contou sobre a impressão do autor português em relação ao brasileiro: “Ar fresco. Liberdade. Idioma que se inventa a cada dia”.

Os dois escritores foram ateus por toda a vida. Apesar disso, sempre respeitaram a religiosidade do ser humano. “Saramago detestava as religiões. Dizia que os seres humanos são menos livres com elas”. Apesar do ateísmo, as duas brindaram os participantes com histórias que mostram o respeito que tinham por todo tipo de crença.

Quando questionadas sobre a política na vida de Saramago e Amado, as duas foram unânimes ao dizer que a política não foi a causa da amizade. “A amizade foi maior que a política”, disse Pilar. Paloma Amado, inclusive, esclareceu uma história que para muitos dos ouvintes foi surpreendente. “Eu queria falar sobre uma questão. Todos dizem que meu pai rompeu com o Partido Conunista. Ele não rompeu. Quando descobriu o que Stalin fez, chorou abraçado a Neruda. E decidiu: não faço mais tarefas do partido. Mas ele não deixou de ser membro do Partido Comunista.” Paloma Amado lembrou a devolução simbólica de cargos de deputado federal a quem perdeu o cargo em 1948. “Jandira Feghali me chamou para cerimônia e me chamaram para discursar. Eu não tinha preparado nada. Só tive a ideia de agradecer e pedir para todos cantarem o hino da Intentona Comunista”, disse.

Para finalizar, Pilar e Paloma falaram sobre projetos futuros. Pilar disse que Saramago não deixou muita coisa escrita, mas que sempre é possível descobrir “um novo Saramago” em palestras e intervenções dele que têm sido publicadas. Já Paloma Amado falou sobre as caixas de correspondências que Jorge Amado deixou. “São cartas trocadas com Saramago, que já foram publicadas, João Ubaldo Ribeiro (com mais de 300 páginas de cartas), Erico Veríssimo, Drummond. É divertido”. Por aqui, estamos ansiosos pela publicação.

“Me reservo ao direito de ficar calado”

20 julho, 2017 às 16:42  |  por Ana Paula Mira

“Me reservo ao direito de ficar calado”. Essa frase foi dita por Eduardo Cunha no último dia 14, em seu depoimento na Operação Cui Bono, que investiga esquema de fraudes na Caixa Econômica Federal.

Mas qual será a forma correta? “Fulano se reserva ao direito de…”, “fulano se reserva o direito” ou “fulano reserva o direito de”?. O verbo reservar-se, nesse sentido, significa resguardar-se, preservar-se. Quando usado dessa maneira, ele é transitivo direto e indireto pronominal. Mas o que significa esse gramatiquês todo? Primeiro, se é pronominal, sempre tem que ser usado com o “SE”, “ME” e outros pronomes adequados a cada pessoa utilizada no texto. Se ele é direto e indireto, significa que vai ter dois complementos: um com preposição e outro sem. Ou seja, o correto é “Fulano se reserva o direito de ficar calado”. No exemplo, “SE” é o pronome obrigatório, “o direito” é o complemento sem preposição e “de ficar calado” é o complemento com preposição.

Então, a frase de Eduardo Cunha deveria ser: “Me reservo o direito de ficar calado”. Mas pode usar ME no início de frase? Essa é uma conversa para o próximo post. Até!

Seção x sessão x cessão

18 julho, 2017 às 18:33  |  por Ana Paula Mira

Há quem sempre se confunda com as palavras seção, sessão etc. Essas palavras são classificadas como homófonas, ou seja, apresentam várias grafias (devido à origem diferente de cada significado), mas, ao serem faladas, elas não têm nenhuma diferença. Isso acontece também com viagem/viajem, acento/assento e mais várias outras na língua portuguesa. Para acabar com a dúvida, então:

- Sessão é o mesmo que reunião (Hoje não haverá sessão na Câmara de Vereadores);

- Seção ou secção (esta última grafia mais usada no português de Portugal) significa divisão (Você pode encontrar esse produto na seção de enlatados);

- Cessão é o ato de ceder (Ele assinou um termo de cessão de direitos ao proprietário).

Sei que vocês vão até rir do que vou falar agora, mas sabem como eu gravei essas diferenças? Para sessão (=reunião), sempre penso que os vários “SS” da palavra são várias pessoas em uma reunião (ok, podem rir agora). Para seção (=divisão), sempre lembro a versão mais usada em Portugal, com “c” (secção), porque automaticamente me vem à cabeça a ideia de seccionar algo, cortar, dividir. Para cessão, lembro que a palavra ceder é com “c”, então não dá pra errar!

Posso usar letra maiúscula depois de dois pontos?

13 junho, 2017 às 16:02  |  por Ana Paula Mira

Se você já se fez essa pergunta do título, saiba que a resposta é DEPENDE!

Dois pontos não encerram frase. As únicas pontuações capazes de encerrar uma frase no português são ponto final, reticências, exclamação e interrogação. Portanto, depois de dois pontos, o correto é usar letra minúscula.

Pensei na seguinte maneira de resolver essa situação: comprar um carro novo.

No entanto, há exceção. Quando a informação depois dos pontos for uma citação entre aspas, esta começará com letra maiúscula:

Deputado acusa: “O governo não governa.”

-Já dizia Machado de Assis: “Ao vencedor, as batatas.”

Se depois dos dois pontos vier um mero desdobramento da frase (e não citação textual) ou uma enumeração, a palavra começará com minúscula:

Comerciantes alertam: faltarão brinquedos no Natal.

A Prefeitura definiu as prioridades do orçamento: metrô, pavimentação e obras na periferia.

(Fonte: Manual de Redação O Estado de São Paulo)

Currículo ou Curriculum?

8 junho, 2017 às 16:00  |  por Ana Paula Mira

O correto é escrever ‘curriculum’ ou ‘currículo’? Existe uma regra?

Creio que todos já se depararam com os dois termos e se fizeram a mesma pergunta em algum momento. “Currículo”, no entanto, nada mais é do que a forma aportuguesada da palavra em latim “curriculum”.

Sendo assim, dá pra usar as duas, mas atenção: nada de misturas! Ou escreve “currículo” ou “curriculum vitae”. ;)

 

Quando a palavra QUE tem acento?

7 junho, 2017 às 16:00  |  por Ana Paula Mira

A palavra QUE, na língua portuguesa, pode, algumas vezes, aparecer acentuada. Isso acontece quando está no fim do texto. A explicação para isso se deve ao fato de que a nossa fala tem tonicidade na parte final de nossas frases, ou seja, o acento, o ritmo da nossa fala é mais evidente no fim de nossas sentenças. É por isso que o QUÊ e também POR QUÊ aparecem acentuados nessas condições.

Veja os exemplos:

Perguntei o motivo da briga mas ele não explicou por quê.
Ele apenas se questionou: brigar para quê?

Entendido? Até a próxima.