Sororidade, resistência, amor e ayahuasca na Flip

28 julho, 2017 às 12:10  |  por Ana Paula Mira

 

Por Lis Claudia Ferreira

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Após três anos de Flip, já aprendi que o melhor dela nem sempre está na programação principal. Quem anda pelo Centro Histórico de Paraty durante a maior festa literária do Brasil descobre que cada rua e cada casa podem oferecer uma grande experiência cultural. Foi pesquisando a programação paralela da Flip 2017 que encontrei a Casa Santa Rita da Cássia, abrigada no número 178 da rua que emprestou o nome à casa.

Entrei para acompanhar uma discussão sobre “Outros jeitos de usar a boca”, de Rupi Kaur. O público, formado principalmente por mulheres, viu as escritoras Conceição Evaristo e Milly Lacombe compartilhando impressões bem pessoais sobre o livro e sua cortante representação do que envolve ser mulher na sociedade na qual vivemos.
Muito além do interesse puramente intelectual pela obra, havia, entre as mulheres que se apertavam na pequena casa, uma sororidade não anunciada. Senhoras de 60 anos, jovens mães e moças recém-saídas da adolescência declaravam, ainda que sem emitir uma única palavra, o apoio às outras que passaram por experiências iguais ou piores que as citadas no livro de Kaur. Não era preciso dizer. Nós todas sabíamos o que significa ser mulher. Algumas se sentiam mais acolhidas por Conceição Evaristo e sua luta como mulher negra, outras, como eu, sentiam em cada fala de Milly Lacombe o conforto de ver as mulheres lésbicas representadas em uma mesa da Flip.
Esse sentimento se estendeu para a programação que seguiu o debate: Milly Lacombe assumiu sozinha o microfone para falar sobre o seu primeiro romance, O ano que morri em Nova York, lançado no mesmo dia. No livro, classificado como romance de autoficção, encontramos, segundo a própria Milly, 30% de biografia, 30% de exageros, 30% de ficção e 10% de alucinações. A última parte não é exagerada. Milly Lacombe conta, com detalhes bem-humorados, que a história começa com a narração da noite na qual tomou ayahuasca na Amazônia. Depois de ter descoberto a traição da mulher com quem dividiu a vida por 9 anos, a autora sentiu-se morrendo em Nova York, e daí, obviamente, vem o título da obra.

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Mais importante que saber que Milly Lacombe arrastou-se, suada e em sensação de transe pelo chão de uma barraca de lona estendida na Amazônia, é a sensação reconfortante de ver-me representada na narrativa. Até pouco tempo, a própria Flip era alvo de protestos pela baixa representatividade das minorias. Com a mudança da curadoria (agora nas competentes mãos da jornalista Josélia Aguiar), percebeu-se um aumento da diversidade racial e de gênero na programação principal do evento. Ainda que muito ainda precise ser feito, a diferença é gritante.
A Casa Santa Rita da Cássia não apenas abriu suas portas para a discussão das questões de gênero, como fez questão de abraçar a produção literária do feminismo negro e das mulheres lésbicas, muito bem representados por Conceição Evaristo e Milly Lacombe respectivamente. Muitas mulheres podem não compreender a força desse ato. As negras entendem, as lésbicas também. Só quem nunca se vê em papel protagonista em nada do que se produz ou ganha a mídia sabe o que significa participar de um evento no qual o que você é está no centro da discussão (de maneira positiva, vale ressaltar). Que essa, que já é chamada de “Flip da Diversidade Racial”, seja apenas a primeira. Vai ter representação de negras e lésbicas na Flip. Vai, sim.

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