Carros mais seguros só depois da eleição

12 dezembro, 2013 às 12:31  |  por Fernando Tupan

Sob a justificativa de evitar uma possível escalada da inflação em 2014, o governo decidiu sacrificar a segurança de motoristas. Em vez de as montadoras serem obrigadas a tirar das fábricas carros com air bags e freios ABS, em janeiro próximo, só terão de entregar esses veículos — vitais para preservar vidas nas estradas — a partir de 2016. Quem acompanha o assunto de perto garante, porém, que o problema não é a alta do custo de vida, mas a repercussão política em uma das principais bases do PT, o ABC Paulista, durante a campanha à reeleição da presidente Dilma Rousseff. A obrigatoriedade de instalar os elementos de segurança interromperia a linha de produção da Kombi e do Gol G4 na região, medida, segundo a Volkswagen e o sindicato dos metalúrgicos, com potencial para demitir 8 mil trabalhadores diretos e indiretos no ano do pleito.

O adiamento desses itens foi confirmado ontem pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega. “Estamos preocupados com o impacto sobre os preços dos carros, porque isso eleva o valor deles entre R$ 1 mil e R$ 1,5 mil”, calculou. A decisão oficial deve sair até a próxima terça-feira, depois de uma reunião dele com dirigentes da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea). Atualmente, 60% dos carros fabricados no país já têm air bags frontais e freios ABS.

Assessores do Palácio do Planalto garantiram que o martelo já está batido, uma vez que Dilma foi orientada, por seu mentor, o ex-presidente Lula, a não criar problemas justamente onde o PT é forte. Demissões de metalúrgicos em ano eleitoral criaria ruídos demais no estado de São Paulo, onde é questão de honra para os petistas elegerem o governador e, claro, garantir a reeleição da presidente. “Como a maioria dos carros vendidos no país já têm os itens de segurança, os consumidores não serão prejudicados. E melhor: mantemos a inflação sob controle e não abriremos a guarda para a oposição”, disse um técnico da equipe econômica. O ABC paulista abriga as fábricas da Volks e da Fiat que produzem modelos que não comportam a instalação de air bags frontais. São os casos da Kombi, do Gol G4 e do Uno Mille.

Socorro

Dados do Centro de Experimentação e Segurança Viária (Cesvi Brasil) mostram que o adiamento dos itens de segurança é temerário. Apenas os air bags podem contribuir para manter a vida de aproximadamente 500 pessoas por ano e evitar que 10,1 mil se firam. A economia anual com o socorro chegaria a R$ 315 milhões. Com o freio ABS, os riscos de acidente diminuem entre 25% e 37%, a depender do automóvel.

Para o governo e para o PT, no entanto, o momento é evitar o prejuízo eleitoral. Não por acaso, quem comandou as negociações com montadoras, sindicatos e governo pelo adiamento da medida foi o ex-ministro do Trabalho no governo lulista, o atual prefeito de São Bernardo do Campo, Luiz Marinho (PT). Em almoço com a presidente Dilma na semana passada, ele reiterou o pedido. No encontro, que também contou com a participação de Lula, o petista traçou um quadro catastrófico para o seu partido caso as fábricas fossem fechadas.

“A apreensão dos trabalhadores é nossa motivação para fazer esse debate. A decisão (sobre os itens de segurança) atinge todas as montadoras que têm veículos nessa condição. São 20 mil trabalhadores no Brasil inteiro nessas linhas de produção”, argumentou Wagner Santana, secretário-geral da Central Única dos Trabalhadores (CUT). Segundo ele, as conversas com o governo começaram em 2012 e se intensificaram nos últimos meses. “A intenção não é preservar esses veículos (sem segurança), mas criar um período de transição”, disse.

No entender de especialistas, a inflação é o menor dos problemas quando se fala em itens obrigatórios, pois as montadoras têm espaço de sobra para absorver os custos, uma vez que as margens de lucros no país estão entre as maiores do mundo. Que o diga Luiz Fernando Furlan, ex-ministro do Desenvolvimento do governo Lula . Ele contou que o seu Corolla automático é muito mais barato fora do país. “Aqui, é mais caro até do que na Argentina”, frisou.

Do Correio Braziliense

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