Há perigo em cada esquina

10 agosto, 2014 às 08:30  |  por Fernando Tupan

É um mundo mais difícil, cheio de perigos em cada esquina, que aguarda a diplomacia brasileira no próximo período presidencial. Basta apreciar a conjunção de crises no horizonte. Israel e o movimento palestino Hamas, depois de breve intervalo, retomam o duelo desproporcional entre foguetes quase artesanais e tecnologia milutar de ponta. Os Estados Unidos de volta ao Iraque menos, de três anos depois de terem retirado as tropas do país, para enfrentar uma insurgência aparentada da Al-Qaeda — ainda que apenas lançando bombas do céu, por enquanto. Na antiga fronteira europeia da Guerra Fria, Rússia e Otan arreganham os dentes na guerra civil assimétrica que parece se estabelecer na Ucrânia.

Mais do que fazer dos últimos acontecimentos recheio para outra enfadonha rodada do jogo governo versus oposição, o que se espera da campanha eleitoral que ensaia os primeiros passos é um debate sólido de conteúdos. Dos candidatos, em especial, que sobrevivam à tentação das tiradas de efeito e digam, com todas as letras e acentos, como veem o lugar do Brasil em um novo cenário que se desenha sinuoso, pantanoso, cheio de armadilhas. Mas, igualmente, de oportunidades e, sobretudo, de desafios e exigências.

Passadas duas décadas e meia desde o fim da União Soviética e do bloco socialista do Leste Europeu, Washington e Moscou reencenam a Guerra Fria com roteiro, script e figurino repaginados, embora a trama se desenrole em cenários tristemente familiares. É nesse ambiente de uma bipolaridade “revista e ampliada”, com espaços para cada ator se movimentar também em terreno próprio, que o Planalto e o Itamaraty terão de discernir sobre o caminho a tomar em uma sucessão de encruzilhadas que se apresentam desde já para o país.

 

Norte ou sul?

Desde logo, se impõe uma discussão madura sobre os parâmetros da relação com os Estados Unidos. Já se vão 70 anos da Segunda Guerra, quando se estabeleceu o sistema interamericano e a diplomacia de Washington definiu os vizinhos ao sul do Rio Grande como “reserva estratégica”. Muito do que pautou desde então a “política hemisférica” do Departamento de Estado se assentou nos axiomas da chamada “teoria dos dominós”, segundo a qual nenhum país da região poderia ser capturado para a órbita soviética, sob pena de que os demais caíssem um após outro.

Hoje, a diplomacia americana vê o Brasil, antes de tudo, como uma esfinge. Reconhece sua importância e o papel capital que desempenha na América Latina, mais ainda em tempos nos quais a grande potência se desdobra entre múltiplos desafios em zonas de turbulência nos demais quadrantes do mundo. Em conversas reservadas, emissários de Washington escolhem com esmero as palavras para falar dessa relação em plena metamorfose. Reconhecem com alguma sobriedade que o país assumiu outra estatura e ocupa outro lugar no concerto regional e global. Ao mesmo tempo, questionam aquilo que percebem como uma certa hesitação em escolher entre norte e sul, entre Ocidente e Oriente.

 

Multipolar, mas…

No pano de fundo e nas entrelinhas do cenário no qual o Brasil decidirá, em outubro, quem ficará no Planalto pelos próximos quatro anos, está a indefinição que permanece na ordem internacional desde o colapso da União Soviética. De início, como sugeria o apoio quase unânime à primeira guerra dos EUA contra Saddam Hussein, em 1991, parecia emergir um mundo unipolar sob hegemonia americana. Em 2003, quando Bush filho por fim depôs o ditador iraquiano, já o que se insinuava era uma geopolítica multipolar. Nela, alianças distintas se sobreporiam em planos distintos da esfera diplomática: os sócios comerciais não seriam exatamente os mesmos para acordos sobre meio ambiente; programas de assistência e desenvolvimento convidariam a parcerias triangulares; afinidades de porte econômico propiciariam a formação de blocos tanto quanto a vizinhança puramente geográfica.

A guerra civil na Síria, o cabo de guerra disputado na Ucrânia e, agora, a nova rodada do conflito secular entre israelenses e palestinos ensaiam reconduzir o mundo a um sistema de alinhamentos bipolares. Já não exatamente como na Guerra Fria, quando se confrontavam blocos formados em torno de projetos opostos de organização política e socioeconômica — embora, feitas as contas, a ideologia funcionasse em boa parte como veículo para o bom e velho jogo dos impérios.

Agora, a despeito da ascensão da China, com suas consequências, já não sobra sequer o verniz de uma disputa entre capitalismo e socialismo. Para bem ou para mal, o enredo parece se resumir a quem pode mais e quem chora menos.

Do Correio Braziliense

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