Jornalismo rompe barreiras

2 outubro, 2017 às 07:00  |  por Fernando Tupan
A Coreia do Norte não é apenas o país mais fechado do mundo. É com certeza um dos destinos mais misteriosos, desafiadores e ditatoriais deste tempo. Há uma semana, no entanto, temos conseguido desvendar e conhecer um pouco mais sobre o lugar que vive sob o regime de Kim Jong-un. Em série de reportagens, Renato Alves tem descrito em minúcias o que conseguiu extrair de informações durante os 10 dias em que permaneceu sob rígido controle de autoridades, mesmo guarnecido de um visto especial de jornalista para entrar na parte norte da Península Coreana. Até por isso foi mais vigiado. Constantemente vigiado.

Isso não impediu que o repórter colhesse um farto material. Centenas de fotografias e muitos vídeos. Renato registrou o que viu, mas também o que não viu. E é essa percepção que torna esse conjunto de reportagens excepcional. Não há vigilância que consiga vendar olhos dispostos a investigar além do que é mostrado e filtrado. Comandada por uma dinastia comunista totalitária, a Coreia do Norte quer parecer asséptica, moderna, limpa e justa. Não há crianças doentes nem deficientes nas ruas. Não há fome aparente, embora o mundo saiba que sim, ela existe.
Tanto quanto forasteiros, os moradores vivem sob rígido controle e regras. Só podem se informar pelos canais oficiais do governo. Desobedecer ao regime não é alternativa e, aparentemente, também não é um desejo. A população venera o líder ditador e aplaude, inclusive, aquilo que mais assusta o mundo. Renato Alves estava em Pyongyang, a capital da Coreia do Norte, em 3 de setembro, quando ocorreu o teste atômico destinado aos mísseis balísticos intercontinentais. Foi uma testemunha ocular da reação de euforia, mais chocante do que o tremor que sentiu sob seus pés. Enquanto o mundo se aterrorizava, a população fazia festa para exaltar o poder de sua bomba.
Em reportagem publicada hoje, na capa da Revista do Correio, Renato mostra que até os cortes de cabelo são controlados. Barbas e bigodes são proibidos, assim como perucas e o uso de gel nos cabelos. Há 14 cortes oficiais e ninguém deve ousar ir além deles. Há também um rígido código de vestimentas para homens e mulheres. Mostrar o umbigo, por exemplo, resulta em prisão. A calça jeans é um símbolo do imperialismo norte-americano e, por isso, vetada. E por aí vai.
Sem dúvida, o olhar de Renato sobre a Coreia do Norte ajudou a todos nós, cidadãos do Brasil e do mundo, a enxergar este país por dentro, algo a que dificilmente teríamos acesso. Trabalhos assim, além de esclarecedores, renovam o vigor jornalístico e o amor pela profissão. Apesar de estarmos num tempo em que todos são fornecedores de informação, nada substitui o faro de um bom repórter. Viva o jornalismo!
1 Comentários

Uma ideia sobre “Jornalismo rompe barreiras

  1. Parreiras Rodrigues

    Os incitadores da volta de uma ditadura militar deveriam se conscientizar de que o que defendem, a lisura do regime que durou 21 anos, é decantada justamente porque a Imprensa era amordaça. Corrupção e corruptos como os de hoje, habeas-corpus na lata de lixo e constituição ídem. Os mais simples direitos do homem, como os de ir e vir, de pensar, de se reunir, foram suprimidos. As denúncias, nos jornais, substituidas por receitas culinárias. Em cada redação, um censor. Ainda que burro.

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