Microsoft ajudou governo dos EUA, afirma ex-espião

12 julho, 2013 às 05:32  |  por Fernando Tupan

A Microsoft, uma das maiores e mais populares empresas de informática do mundo, colaborou com o esquema de espionagem da Agência de Segurança Nacional (NSA, em inglês) americana, de acordo com o seu ex-técnico Edward Snowden. A denúncia foi feita ontem pelo jornal britânico The Guardian, em artigo coassinado pelo jornalista norte-americano Gleen Greenwald, que diz ter acesso aos documentos vazados por Snowden. A empresa negou qualquer envolvimento com o amplo esquema de espionagem dos Estados Unidos que atingiu vários países, inclusive o Brasil. Em audiência pública, ontem, no Senado, o ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, disse ter certeza de que conteúdos de e-mail e ligações telefônicas — e não apenas informações técnicas — foram coletados, e que a presidente Dilma Rousseff não utiliza um telefone criptografado para falar com ele. As declarações foram dadas poucas horas depois de a Casa aprovar requerimento para abrir uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CP) para investigar as denúncias no país.

Os documentos, segundo o Guardian, são secretos e mostram que a “Microsoft tem colaborado estreitamente com os serviços de inteligência dos EUA para permitir que as comunicações de usuários fossem interceptadas, inclusive ajudando a NSA a burlar a criptografia de serviços da própria empresa”. Entre os softwares contemplados, estão os populares Outlook, Hotmail e Skype. A publicação britânica afirma que a companhia trabalhou com o FBI (polícia federal americana) para facilitar à NSA o acesso à comunicação de usuários da Microsoft, por meio do programa Prism. A ferramenta, a primeira revelada por Snowden, mostrou um amplo esquema de coleta de dados de internautas obtidos a partir do Google, do Facebook, da Apple e da Microsoft. A empresa fundada por Bill Gates respondeu às denúncias e garantiu que “não fornece a nenhum governo qualquer tipo de cobertura ou acesso direto a seus produtos”.

Na quarta-feira, ao participar de uma audiência pública conjunta das Comissões de Relações Exteriores do Senado e da Câmara dos Deputados, o ministro da Defesa, Celso Amorim, brincou dizendo que, se ele “ligar o seu computador hoje, aciona um botão lá na Microsoft”. Além dele, participaram da audiência o chanceler, Antonio de Aguiar Patriota, e o chefe do Gabinete de Segurança Institucional, general José Elito Carvalho Siqueira. Várias autoridades têm sido convidadas pelos parlamentares a prestarem esclarecimentos sobre as denúncias de espionagem no Brasil, feitas pelo jornal O Globo. Entre elas, o embaixador dos EUA em Brasília, Thomas Shannon, que ainda não respondeu ao pedido.

Ontem, foi a vez de Bernardo falar aos parlamentares. Na Comissão de Relações Exteriores do Senado, o ministro disse ter certeza de que os conteúdos das comunicações no Brasil foram acessados. “Como é que você vai selecionar algo e isso não foi gravado? A evidência é de que os dados são todos coletados, embora a análise seja apenas desses chamados “metadados”. Fiquei convencido de que o conteúdo é recolhido junto com outras informações. Não dá para gravar a posteriori. É uma coletânea com todos os dados”, declarou. Na única oportunidade que falou sobre o assunto à imprensa, Shannon admitiu que apenas metadados foram monitorados pela NSA.

Celular criptografado

Questionado pelos parlamentares sobre os riscos de informações sensíveis serem acessadas, como as do primeiro leilão do pré-sal, Bernardo reconheceu a possibilidade de vazamento. Mas assegurou que esses dados nunca são discutidos por e-mails ou colocados em rede. O ministro disse que não usa celulares criptografados, mas aparelhos comuns, para falar com a presidente Dilma Rousseff. De acordo com Bernardo, o conteúdo das conversas não protegidas estão suscetíveis a monitoramento. Na madrugada de ontem, o Senado aprovou um requerimento que autoriza uma CPI para investigar o caso. De autoria da senadora Vanessa Grazziotin (PcdoB-AM), a CPI obteve 41 assinaturas, 14 a mais que o mínimo necessário para a sua abertura.

Do Correio Braziliense

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