Missão Rosetta faz história

15 novembro, 2014 às 09:47  |  por Fernando Tupan

Da Terra, cientistas registraram ontem um marco da história da exploração espacial: a espaçonave Rosetta pousou uma sonda na superfície de um cometa em pleno movimento. A confirmação do pouso chegou às 14h03 de ontem e foi recebida com festa pelos pesquisadores da Agência Espacial Europeia (ESA) depois de uma delicada manobra que levou mais de sete horas. Esse foi o ponto mais crucial da missão que dura mais de uma década. Philae, como é chamada a sonda, vai continuar acompanhando o 67P/Churyumov-Gerasimenko na viagem ao redor do Sol no próximo mês, quando os cientistas esperam que o corpo celeste revele segredos da origem do universo.

“Foi uma jornada extremamente longa e difícil para chegar a esse evento único de hoje, mas valeu a pena. Esperamos que o sucesso dessa grande empreitada científica que é a missão Rosetta perdure, conforme ela promete revolucionar a forma como compreendemos os cometas”, declarou Fred Jansen, coordenador do projeto. Os cientistas ainda analisam a estabilidade da sonda, além do exato local de pouso dela, devido a um problema no momento da aterrissagem.

Rosetta foi lançada em 2 de março de 2004 e viajou mais de 6,4 bilhões de quilômetros para chegar ao cometa 67P em agosto deste ano. Foram necessários mais de cinco meses para que a missão escolhesse um local de pouso no estranho corpo espacial, cujo formato lembra o de um patinho de borracha. A equipe passou a madrugada de quarta-feira tomando as últimas decisões e se certificando de que tudo estava em ordem para o arriscado pouso sobre um objeto que está percorrendo o espaço a mais de 55 mil km/h.

A espaçonave liberou a sonda aproximadamente às 7h03 (horário de Brasília), meia hora depois do planejado. “Foi uma noite bastante ocupada para nós aqui na sala de controle e também para a equipe no centro de controle no DLR (centro espacial Alemão). Nós tivemos de repetir algumas atividades e, na verdade, tivemos problemas com o sistema de gás frio do lander, mas tudo está normal agora”, contou Stephan Ulamec, responsável pela missão de pouso do Philae, pouco depois que o pouso havia sido autorizado.

A agência espacial norte-americana (Nasa), que também participou do planejamento da missão, parabenizou a ESA pelo feito histórico: “Representa um momento de avanço na exploração do nosso sistema solar e um marco para a cooperação internacional”, ressaltou o comunicado divulgado pela agência.

A descida foi lenta, a uma velocidade estimada de um metro por segundo — o cometa é tão pequeno que a gravidade dele é praticamente inexistente. Todo o processo foi autônomo e não contou com a ajuda de nenhum tipo de motor. A sonda amorteceu o impacto com o objeto usando as três pernas articuladas, que se prenderam à superfície com parafusos. O equipamento disparou dois ganchos para assegurar a sua permanência firme no cometa, mas um problema com a hélice que deveria recolher o cabo e firmar Philae no solo foi percebido pela equipe de comando.

Durante a descida e nas primeiras horas sobre o corpo espacial, Philae já estudou a estrutura interna do objeto, coletou dados sobre a superfície dele, analisou o campo magnético e tirou fotos em alta resolução. Os primeiros dados enviados pelo equipamento ao comando da missão foram imagens que mostram as células solares da espaçonave Rosetta. Horas depois, o equipamento produziu fotos do cometa que se aproximava. As mensagens levaram quase meia hora para chegar à estação Malargüe da ESA, na Argentina, já que a sonda está a mais de 500 milhões de quilômetros de distância.

A missão deve divulgar ainda hoje uma foto panorâmica e, nos próximos dias, o equipamento também deve produzir imagens tridimensionais e análises de amostras colhidas do interior do cometa. A sonda terá 64 horas para concluir uma verdadeira bateria de exames, até que sua bateria tenha de ser recarregada. “Estamos fazendo as melhores análises científicas de um dos mais antigos remanescentes do nosso Sistema Solar”, ressaltou Alvaro Giménez, diretor de exploração científica e robótica da ESA. Os dados colhidos por Philae também vão orientar as próximas medições feitas pela espaçonave Rosetta do alto da coma (nuvem de gás) do cometa.

 

Retrato do universo

Cometas são alguns dos objetos mais antigos que existem e, por isso, os cientistas acreditam que eles sejam feitos da mesma receita que formou o universo no início dos tempos. Os pesquisadores esperam usar os 10 instrumentos da Philae para descobrir o que o núcleo desse objeto esconde e, talvez, encontrar pistas das origens do Cosmos. “É um grande passo para a civilização humana (…) Com Rosetta, estamos abrindo uma porta para a origem do planeta Terra e fomentando um melhor entendimento do nosso futuro”, assegurou Jean-Jacques Dordain, diretor-geral da ESA.

“É muita emoção, algo de extrema importância. Para quem trabalha na área, tanto do ponto de vista científico quanto do tecnológico, é um feito fantástico”, comemora Orthon Winter, professor da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp). Ele é um dos pesquisadores brasileiros que trabalham há muitos anos na teoria de que parte da água do nosso planeta teria vindo dos cometas que atingiram a Terra há milhões de anos. Com base nos dados colhidos pela missão Rosetta, eles poderão confirmar ou confrontar esse conceito.

Espera-se que a sonda continue em operação até março do próximo ano, quando o calor deve atrapalhar o funcionamento dos seus instrumentos. Rosetta deve continuar circulando o cometa enquanto seus sistemas funcionarem, se aproximando e se afastando do corpo celeste conforme ele faz sua volta de 6,5 anos pelo espaço. Espera-se que o 67P atinja a menor distância do Sol em 13 de agosto de 2015, quando a espaçonave ainda deve acompanhá-lo para medir os gases expelidos pelo corpo celeste aquecido.

 

Epopeia no espaço

Março de 2004

A nave Rosetta é lançada ao espaço

 

Março de 2005

Primeira passagem pela Terra

 

Fevereiro de 2007

Rosetta recebe um empurrão gravitacional de Marte

 

Setembro de 2008

A espaçonave se aproxima do asteroide Steins

 

Julho de 2010

Encontro com o asteroide Lutetia

 

Julho de 2010

Começa o período de hibernação de 957 dias

 

Janeiro de 2014

Rosetta é acionada novamente

 

Agosto de 2014

A espaçonave chega ao cometa 67P/Churymov-Gerasimenko

 

Novembro de 2014

Pouso da sonda Philae no cometa

 

Dezembro de 2015

Rosetta acompanhará o cometa em torno do Sol, chegando ao fim da missão

“É um grande passo para a civilização humana”

Jean-Jacques Dordain, diretor-geral da Agência Espacial Europeia

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