Uns passam fome, outros fazem regime

7 agosto, 2017 às 19:27  |  por Fernando Tupan

Do Ari Cunha

Falar em arte e cultura num país onde nem o básico para a sobrevivência de muitos brasileiros está disponível soa como alienação, despropósito ou assunto de interesse apenas das elites. O contingenciamento imposto pelos seguidos desgovernos local e federal só tem agravado ainda mais o problema da produção de arte no Brasil. Mesmo os poucos recursos oficiais disponíveis acabam sendo destinados para determinados nichos, de acordo com a vontade e gosto pessoal de cada governo, e nunca chegam onde são necessários e úteis.

Muitas galerias conhecem essa realidade e tratam de eleger artificialmente alguns artistas, inflando suas biografias e o valor de seus trabalhos. O grande mercado de arte, que existe em pequena quantidade aqui e ali no Brasil, não tem alma ou coração e segue o comportamento comum em todo o mundo, tratando a arte como um segmento da economia, no qual o lucro é a peça mais bela e fundamental a ser exposta.

Ainda assim, é possível afirmar que nunca faltou entusiasmo a muitos artistas e realizadores para seguir em frente, principalmente para aqueles que, desde logo, entenderam a arte como o ofício da paixão, em que o dinheiro, sempre escasso, nunca teve força suficiente para interromper o processo de criação. Esse tipo de gente é motivada muito mais pela largueza da imaginação do que pelo vil metal. Movem-se por um ideário que, às vezes, não sabem nem de onde vem.

O fato é que o que o público brasiliense tem apreciado costumeiramente nos principais teatros e galerias da cidade, nesses últimos anos, é sobretudo o resultado do esforço invisível de pessoas abnegadas, chamadas, com justiça, de quixotescas, tamanho é o esforço com que operam entre a realidade e o sonho. Um desses casos que chamam a atenção e que bem exemplifica, pelo volume e pela qualidade de realizações de sucesso, vem do Museu da República.

Dificilmente, um espaço cultural desse porte teria a efervescência que tem se não fosse o trabalho dedicado e a motivação de Wagner Barja. Na exposição aberta agora ao público, intitulada Não Matarás – Em Tempos de Crise é Preciso Estar com os Artistas, impressiona a todos como é possível realizar tanto com tão pouco ou nenhum recurso. A questão aqui é que, enquanto uns poucos fazem regime por conta dos banquetes pantagruélicos que sorvem com os recursos dos contribuintes, outros passam fome, mas, ainda assim, dividem o pouco que têm.

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