O dilema do novo mundo: desenvolver-se é inversamente proporcional a salvar o planeta?

1 novembro, 2017 às 15:51  |  por Ana Maria Ferrarini

Dados do Programa Brasileiro GHG Protocol revelados em agosto deste ano, informam que as companhias brasileiras têm avançado na gestão de emissão de carbono. Segundo o projeto, 142 empresas divulgaram seus números compartilhando suas emissões com o programa. Entretanto, ao mesmo tempo, 84,5% relatou não ter meta de redução. Diante do cenário, o diretor de Meio Ambiente da Sanepar, Glauco Requião, alerta: Além de estarmos trabalhando com dados que retratem apenas o início de um caminho a ser percorrido, ainda há a expectativa dessas empresas aumentarem a sua emissão de gases em razão do desenvolvimento urbano, fato que aponta para a necessidade de definições de metas claras de redução.

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“Obviamente que o número que o GHG Protocol obteve é uma amostra muito pequena em relação ao total de organizações que emitem gases de efeito estufa no Brasil. Em se tratando de empresas de saneamento, podemos dizer que elas são um claro exemplo de organização que certamente aumentará seu índice, já que no contexto Brasil apenas a Sanepar participa do programa. Ainda que a ideia é expandir a rede de tratamento de esgoto a cada ano e o tratamento de esgoto implica num dos processos que mais emitem CO2”, explica o ambientalista. Além de ser a única empresa de saneamento  membro do GHG Protocol, a Sanepar ainda conquistou o Selo de Ouro em razão de todos os relatórios terem sido verificados.

Outros dados importantes de serem destacados é que de acordo com o Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS) o esgoto tratado no Brasil alcança a porcentagem de apenas 42,7% e a coleta de esgoto é disponível apenas para 50,3% da população. A situação é tão alarmante que levou o Brasil a ficar na 112ª posição entre 200 países no ranking de saneamento básico realizado pelo Instituto Trata Brasil em 2014. Entre os países da América Latina, somos o 10º, atrás de Equador, Venezuela, Peru e Bolívia.

“Ou seja, apesar do Paraná ser um dos Estados que tem maior cobertura quando falamos em saneamento básico, temos outros locais que sequer atingem 10% de sua população. Obviamente isso precisa aumentar, faz parte do desenvolvimento e de dar condições de vida para as pessoas”, comenta Glauco.

Entretanto, ressalta ele, não há como negar que o desenvolvimento pelo desenvolvimento irá afetar o lado sustentável do planeta, “ainda mais quando a maioria das grandes empresas do Brasil sequer compartilham seus números para fazerem a gestão das emissões, quanto mais se comprometem a reduzi-los”.

Neste aspecto, torna-se mais forte a demanda pela postura sustentável das empresas. “Na Sanepar dizemos que não somos uma empresa de saneamento com responsabilidade ambiental, e sim uma empresa ambiental com vocação para o saneamento”, afirma o diretor de Meio Ambiente da Sanepar.

Energia elétrica também preocupa

Ainda de acordo com dados do GHG, outro indicador que contribui significativamente para a emissão de CO2 é energia, ficando atrás apenas da agropecuária.

Esse dado é bem interessante porque vai de encontro com a mudança no perfil das emissões no Brasil. O lançamento de poluentes decorrentes do desmatamento, em especial para abrir terreno para pasto e plantações, caiu 69% entre 2005 e 2015. No mesmo período, os gases gerados pelo uso de energia cresceram 44%.

“Segundo o Sistema de Estimativa de Emissão de Gases de Efeito Estufa (Seeg), o padrão de crescimento das emissões do Brasil está muito parecido com outros países em desenvolvimento. No mesmo intervalo (de 2005 a 2015) as emissões mundiais de gases estufa cresceram 15%. Ou seja, o lançamento de poluentes no Brasil tem crescido”, ressalta Requião.

Desafios e a importância do compromisso

“O principal desafio contemporâneo da humanidade é reduzir as emissões de gases de efeito estufa de maneira a conter o aumento da temperatura média do planeta nas próximas décadas. E isso só vai ser possível a partir de compromissos sérios que envolvam posturas sustentáveis”, comenta Glauco Requião.

O diretor de Meio Ambiente da Sanepar ainda elogia a iniciativa do GHG Protocol. “Essas iniciativas são necessárias, mas o engajamento precisa ser muito maior. Estamos em um momento em que a lógica que sempre pareceu natural se inverte: Não temos mais que pensar no mudo que vamos deixar para nossos filhos, e, sim, pensar nos filhos que nós vamos deixar para o mundo”, conclui.

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