Conheça um pouco sobre a história das pessoas com deficiência no Brasil

13 julho, 2017 às 17:16  |  por Manoel Negraes

Um tema recorrente no segmento das pessoas com deficiência é a invisibilidade que enfrentamos nos espaços sociais e nas políticas  públicas. Afinal, apesar de uma legislação específica avançada, ainda falta muito para que nossos direitos sejam garantidos, tanto na área da saúde, no mundo do trabalho e na vida acadêmica, quanto no acesso à cultura, ao lazer e à informação – só para citar alguns exemplos.

Contudo, na história dos movimentos sociais, que desde o período da redemocratização do Brasil, na década de 1980, buscaram voz no campo político e lutaram por direitos na Constituição Federal de 1988, nosso segmento também é invisível.

Assim, o livro e o filme que sugiro aqui são tentativas de combater essa invisibilidade, a partir do resgate e da organização de registros fotográficos, documentos e, sobretudo, de depoimentos de pessoas com e sem deficiência que construíram essa história em uma época na qual as condições de acessibilidade e de comunicação eram muito mais precárias que hoje em dia.

Enfim, são duas fontes de pesquisa importantes, que foram lançadas há alguns anos, mas que, com um olhar crítico, ainda merecem ser conhecidas e interpretadas por todos que atuam na área da deficiência, visto que apresentam elementos significativos para pesquisas e práticas atuais.

 

Filme “História do Movimento Político das Pessoas com Deficiência no Brasil

Livro “História do Movimento Político das Pessoas com Deficiência no Brasil

é possível encontrar o livro também no formato doc na página www.pessoacomdeficiencia.gov.br

Sobre pais e filhos

25 junho, 2017 às 23:22  |  por Manoel Negraes

Todos nós construímos durante todas as fases de nossas vidas, múltiplas relações com a figura paterna e a ideia de paternidade. Isso, sobretudo, a partir de vivências influenciadas diretamente pelos contextos familiares e sociais nos quais estamos inseridos e que apresentam condições materiais e emocionais, bem como concepções culturais determinantes.

Eu, por exemplo, que nasci poucos meses depois do falecimento do meu pai, vivenciei ao longo dos meus 38 anos de idade a ausência, a “saudade do que não tive”, a angústia da eterna pergunta “como teria sido?”, o orgulho pela sua história, o vínculo por meio da palavra escrita (ele publicou dois livros), a revolta por não tê-lo para compartilhar alegrias e tristezas e uma forte e constante vontade de ser pai.

Tudo isso junto e misturado, ao mesmo tempo agora… sim, tudo isso junto e misturado, principalmente desde a minha adolescência, fase na qual tomamos mais consciência de nossos sentimentos e do que queremos para o futuro, até agora, até o momento em que escrevo este texto.

Por outro lado, além da presença e da importância da minha mãe, vivenciei e vivencio tudo isso com as presenças marcantes de algumas figuras masculinas, dentre as quais dois homens que eu tive o privilégio de conviver: o meu avô materno, Ernesto, falecido em 1990, e meu tio Ernesto Augusto, um dos irmãos da minha mãe, falecido em 1996, mesmo ano em que eu descobri a retinose pigmentar.

Com a minha nova condição essas vivências ganharam outras cores e novos sabores, afinal a baixa visão trouxe e traz experiências subjetivas específicas que, a partir das interações familiares e sociais cotidianas, refletiram e refletem, inclusive, na minha relação com a figura paterna e com a ideia de paternidade.

Posso citar, conforme o exposto acima, entre outros pontos, as novas possíveis respostas que surgiram para a pergunta “como teria sido?”, a ausência nos momentos mais angustiantes da aceitação ou, ainda, a ampliação do vínculo pela palavra escrita (minhas poesias visuais). Porém, quero destacar a forte e constante vontade de ser pai.

Da minha parte, essa nova condição nunca interferiu nessa vontade, nunca diminuiu a sua força. Entretanto, o desejo de ser pai com deficiência nos apresenta situações como, por exemplo, a possibilidade do filho ou da filha também ter deficiência e a dúvida “será que vou conseguir cuidar dele sem enxergar?”.

A primeira, para mim, há muitos anos não é um problema e, sinceramente, não me lembro de já ter sido uma preocupação em algum momento. Contudo, essa questão ainda aparece em minha vida, ou por meio de grupos de pesquisa genética, que demonstram pouca sensibilidade para lidar com o tema ao proporem a ideia de “planejamento familiar”, ou nos questionamentos de algumas pessoas, a maioria distante do nosso dia a dia.

Nesses casos, busco lidar, no geral, com tranquilidade e, às vezes, de maneira mais incisiva, principalmente quando o tema surge dos grupos de pesquisa. Busco sempre esclarecer o seguinte: se sou bem resolvido com a baixa visão e, sobretudo, se defendo essa condição como um modo legítimo de ser e estar no mundo, ter um filho ou uma filha com deficiência visual será uma situação tratada de forma natural. Aliás, uma frase da minha companheira resume e encerra a questão: “Se eu casei com um homem que não enxerga bem, por que não teria um filho que também não enxerga?”.

A segunda situação, de fato, agora está mais presente do que nunca e, confesso, que quando descobri que a Géssica estava grávida eu pensei “nossa, tenho que pesquisar, tenho que descobri rápido como trocar fraldas, dar comida e banho sem enxergar”. No entanto, logo desisti, abandonei as pesquisas específicas e fiz isso por um simples motivo: quero aprender na prática, quero ser como qualquer outro homem que viveu boa parte da vida com uma constante e forte vontade de ser pai.

E foi a melhor decisão que tomei, pois agora aproveito cada dia dessa gestação com os sentimentos, as dúvidas e as preocupações que acompanham todos os casais que esperam um bebê. Claro, sempre considerando as questões que envolvem a baixa visão, mas não o fato de não conseguir dar banho ou a possibilidade dele nascer com deficiência, e sim a desconfiança dos outros na minha capacidade de cuidar de um filho e o preconceito que, infelizmente, ele também sentirá.

Em novembro o Ernesto Augusto (que nome lindo!) estará entre nós para daqui a algum tempo começar a construir a sua relação com a figura paterna. E eu estarei com todos os meus sentidos e sentimentos abertos para aprender e ensinar, para rir e chorar, para viver intensamente cada instante da paternidade que sempre desejei. Seja bem-vindo meu filho.

Café Filosófico sobre Deficiência e Diferenças

19 junho, 2017 às 22:32  |  por Manoel Negraes

Hoje quero deixar uma sugestão. É uma edição do programa Café Filosófico, exibido pela TV Cultura de São Paulo, em 2016, com a médica Izabel Maior, importante ativista do Movimento Político pelos Direitos das Pessoas com Deficiência.

Entre os temas dessa edição, sobre Deficiência e Diferenças, estão fatos históricos, a questão da invisibilidade das pessoas com deficiência, a desvalorização das diferenças, o preconceito, a distinção entre integração e inclusão, o surgimento do modelo social de deficiência, os avanços em políticas públicas, entre outros.

Um programa esclarecedor para as pessoas com deficiência que, no cotidiano, buscam reconhecimento e efetivação de seus direitos. Mais ainda, um programa esclarecedor para todo mundo que busca construir uma sociedade mais justa e igualitária, que valoriza a diversidade humana.

Assista aqui: Café Filosófico Deficiência e Diferenças 

Eventos importantes sobre deficiência visual, com destaque para a bengala verde

4 junho, 2017 às 22:56  |  por Manoel Negraes

Dica 1

Com alegria divulgo que a escritora Joyce Guerra, homenageada recentemente nesse blog, estará aqui em Curitiba para lançar o seu livro “Muito além da sobrevivência”, obra que apresenta crônicas, diálogos e reflexões baseadas na vivência da autora, com o objetivo de auxiliar pessoas com deficiência visual na busca por autonomia e de promover a comunicação não-violenta como alternativa para a educação de crianças.

No evento a paraibana, que hoje mora em Minas Gerais, fará a palestra “Muito além da sobrevivência: desafios e reflexões sobre inclusão e preconceito”.

Com certeza estarei presente para prestigiar… não percam!

Serviço

Evento: Palestra e lançamento do livro Muito além da sobrevivência, de Joyce Guerra

Data: sexta-feira, 9 de junho

Horário: 14 horas

Local: Biblioteca Pública do Paraná

Endereço: Rua Cândido Lopes, 133, Centro – Curitiba

Entrada gratuita e certificação para os participantes

 

Dica 2

Nos dias 9 e 10 de junho, na cidade maravilhosa, ocorrerão dois eventos simultâneos, o VIII Congresso da Sociedade Brasileira de Visão Subnormal e o I Encontro de Baixa Visão do Instituto Benjamin Constant, voltados a um público multidisciplinar, com foco no atendimento, na qualidade de vida e na inclusão social das pessoas com baixa visão.

Entre os temas estão ações educacionais para a deficiência visual, tecnologia assistiva e outros recursos de promoção da acessibilidade. Lei Brasileira de Inclusão e diretrizes para os serviços de reabilitação visual e relatos de experiência.

Destaco a participação da minha amiga e companheira do Coletivo Bengala Verde Fernanda Shcolnik, que fará a palestra “Baixa Visão: Identidade, Orientação e Mobilidade”, na qual apresentará, entre outras questões importantes, informações acerca da bengala verde, instrumento direcionado às pessoas com baixa visão cada vez mais difundido no Brasil!

Informações completas sobre programação, inscrição, horários e endereço no site www.ibc.gov.br

 

Dica 3

A Comissão dos Idosos, das Pessoas com Deficiência e da Acessibilidade, da Ordem dos Advogados do Brasil, Seccional Mato Grosso do Sul (OAB/MS), lançará dia 27 de junho a Cartilha das Pessoas com Deficiência, material inédito após a entrada em vigor da Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Lei Federal nº 13.146, de 2015).

O objetivo é destacar a importância da deficiência na busca por uma sociedade mais igualitária. Mais ainda, segundo a presidente da Comissão, Rita Luz (que como eu tem baixa visão), a cartilha quer mostrar que todos devem ser tratados de forma igual, na medida de suas desigualdades.

Além disso, a cartilha apresenta em seu conteúdo a bengala verde, sendo provavelmente o primeiro documento de defesa de direitos do país a trazer a novidade que tem colaborado com a autonomia e o reconhecimento das pessoas com baixa visão.

Saiba mais no site: www.oabms.org.br

Quer conhecer mais sobre a baixa visão e a bengala verde, leia outros textos nesse blog e procure no Facebook a página do Coletivo Bengala Verde!

Sobre amizades, relacionamentos e o ser humano

25 maio, 2017 às 21:19  |  por Manoel Negraes

Certa vez, no terminal de ônibus localizado próximo da casa onde morava, aqui em Curitiba, ouvi a seguinte frase do rapaz que me auxiliava: “Olha só, vem cá, fica aqui perto do seu amigo”. Surpreso, disse: “Amigo? Qual amigo?”. E ele disse: “Desse moço aqui que também é cego”. Em outras situações, por exemplo, ao atravessar a rua com a ajuda de uma pessoa qualquer, já ouvi algumas vezes a pergunta: “Você conhece o Fulano que também não enxerga?”. Respondo: “Não, não conheço todo mundo que não enxerga”.

Em outras situações ainda, por exemplo, durante uma palestra ou em uma mesa de bar com desconhecidos, após descobrirem que sou casado, já ouvi também algumas vezes a pergunta: “A sua esposa também não enxerga?”. E, sempre com paciência, respondo: “Não, ela não tem deficiência”.

De fato, existem muitos casais e grupos de amigos formados por pessoas com a mesma deficiência, afinal as instituições de reabilitação ainda são, infelizmente, os únicos ou os principais locais de convivência e espaços de socialização. E, assim, da mesma forma que muitos casais e amigos se conhecem no ambiente de trabalho, no clube, na universidade, no caso das pessoas com deficiência não é diferente e muitos casais e amigos se conhecem durante um curso, um passeio, um evento, enfim, uma atividade realizada pela instituição que frequentam.

Ah, isso posto, você vai dizer: “Claro, então as pessoas agem desse modo e fazem essas perguntas porque é comum elas verem na rua casais e amigos formados por pessoas com a mesma deficiência”. E eu pergunto de volta: “será que é apenas esse o motivo? Será que são perguntas justificáveis, mesmo com a convivência entre as pessoas com e sem deficiência aumentando cada vez mais, o que tem possibilitado o surgimento das amizades e dos relacionamentos amorosos entre essas pessoas em diversos ambientes sociais?”.

Pois é… Vou citar algumas situações que já aconteceram comigo ou com pessoas próximas para demonstrar que o tema não é tão simples. De imediato, lembro a pergunta que uma amiga com baixa visão ouviu de um rapaz recentemente, quando saiu para dançar na cidade do Rio de Janeiro: “Você tem amigos?”. Como dizem os cariocas, caraca! Sério mesmo que ainda pensam que nós não temos amigos?

Quando ainda morava em São Paulo, tive um longo relacionamento com uma moça que estudava na mesma faculdade que eu. Lembro, no início do namoro, que ela ouviu de pessoas próximas as seguintes questões: “Poxa, complicado, como vocês vão se sustentar?” e “E aí, como você vai fazer se quiser terminar com ele?”.

Com a minha esposa não foi diferente, pois também logo no início do namoro uma pessoa próxima, ao me conhecer em um evento, ficou horrorizada e foi questioná-la quando eu não estava por perto: “Você está louca?”. E recentemente, já casados, ela ouviu em um bar, durante a comemoração de um aniversário, duas pérolas: “Me cortou o coração quando eu vi você arrastando ele” e “Ele faz o asseio sozinho?”.

As frases acima, todas reais, refletem os diversos preconceitos que muitos ainda têm quando o assunto é relacionamento – de amizade ou amoroso – entre pessoas com e sem deficiência. Em particular, muitas reações descritas demonstram que familiares, amigos e conhecidos acreditam que nós, pessoas com deficiência, somos um peso para as pessoas sem deficiência, pois acreditam que somos incapazes de cuidar da casa  e dos filhos, de cuidar da higiene pessoal, de trabalhar e pagar as contas, de ter uma vida comum.

Além disso, em outras situações, os familiares, amigos e conhecidos revelam outros preconceitos ao demonstrarem acreditar que as pessoas sem deficiência estão fazendo uma caridade, um favor, ao se relacionarem com pessoas com deficiência. Não é raro eu perceber uma admiração gratuita pela minha esposa ou até mesmo ouvir frases como: “Nossa, ela deve ser uma pessoa muito especial, né?”.

Infelizmente, muitos ainda acreditam em tudo isso, ainda acreditam quando eu e a minha esposa estamos de óculos escuros que nós dois somos cegos, enfim, ainda estão presos em preconceitos difíceis de serem quebrados, mas, por outro lado, ainda não acreditam no que há de mais simples na vida, no carinho, no amor, na cumplicidade entre duas pessoas.

Sobre o Dia das Mães em três atos

14 maio, 2017 às 22:06  |  por Manoel Negraes

Neste Dia das Mães gostaria de trazer alguns comentários e dicas em três atos.

 

1º ATO

Pelas redes sociais, no caso o Facebook, tive a felicidade de conhecer os belíssimos textos da paraibana Joyce Guerra Jobis, que atualmente mora em Guaxupé, Minas Gerais. São relatos da vida cotidiana que apresentam, de forma inteligente e acessível, as experiências de uma mãe e seus três filhos.

Joyce escreve, por exemplo, sobre várias situações nas quais enfrenta o preconceito e convive com a falta de informação ainda muito presentes em nossa sociedade. Isso porque ela tem deficiência visual, o que faz com que as pessoas questionem a sua capacidade para cuidar de seus filhos ou cobrem deles atitudes inadequadas.

Porém, os textos que mais gostaria de destacar são os que trazem reflexões sobre a relação mãe e filho, a busca por uma educação adequada, a construção do vínculo familiar sempre com respeito, carinho e profundidade. Tudo isso, independentemente da deficiência visual, tendo como foco principal a riqueza e a complexidade da experiência materna.

Portanto, a minha intenção com essas breves palavras é deixar você curioso. Procure a Joyce no Facebook, conheça os textos dessa mulher e mãe que se coloca no mundo de um modo tão profundo e lindo que aqui eu não conseguiria explicar. Você não vai se arrepender.

 

2º ATO

Já escrevi em outro texto sobre como a questão da deficiência ainda aparece de forma inadequada nos meios de comunicação. Geralmente, são programas que reforçam estigmas e o assistencialismo, barreiras que prejudicam a nossa luta por respeito e dignidade.

No entanto, fiquei surpreso ao ouvir o quadro “Desde Criancinha” da Rádio Band News, em homenagem ao Dia das Mães. Nesta edição, foram entrevistadas crianças que frequentam a Fundação Dorina Nowill para Cegos, em São Paulo.

De maneira natural, as crianças falaram de suas mães, dos pratos preferidos, das broncas, do cuidado, enfim, das questões comuns nas relações entre mães e filhos. A deficiência visual não foi, durante o quadro, o tema principal, surgindo levemente em apenas uma pergunta, como mais um dos pontos da entrevista.

Um pequeno espaço em um grande canal de comunicação de massa que apresentou depoimentos de filhos com deficiência visual sobre a figura materna valorizando as crianças por inteiro e não aquilo que supostamente falta nelas.

Ouça pelo link: http://bandnewsfm.band.uol.com.br/Colunista.aspx?COD=265

 

3º ATO

E por falar na Fundação Dorina Nowill para Cegos, gostaria de citar o exemplo da minha mãe, que atravessou com força todas as fases que geralmente os pais e as mães atravessam quando descobrem a deficiência de um filho: o luto, a negação, a frustração, a superproteção e, enfim, a aceitação.

Foi após o primeiro contato com essa instituição, em 2000, que ela passou a experimentar essas sensações e a vivenciar esses sentimentos, tão comuns e legítimos, de maneira mais intensa e concreta. Mais ainda, foi nessa instituição que, após o diagnóstico, nós dois descobrimos juntos que havia outros caminhos e inúmeras possibilidades.

Sem dúvidas, Anna Mathilde é a responsável por diversas conquistas que alcancei, sobretudo no início da reabilitação e do convívio com a minha nova condição. E entre erros e acertos, mas sempre com amor e dedicação, ela aprendeu comigo que o problema não estava em mim, mas sim em uma sociedade despreparada.

Assim, deixo aqui a minha gratidão eterna e o meu reconhecimento a todas as mães que fazem o possível e o impossível para que seus filhos com deficiência tenham uma vida com dignidade.

A importância da reabilitação

7 maio, 2017 às 23:41  |  por Manoel Negraes

O excelente depoimento da querida amiga do Rio de Janeiro Fernanda Shcolnik (link abaixo), que como eu tem baixa visão, apresenta de maneira objetiva a importância do processo de reabilitação para as pessoas que adquirem uma deficiência visual. Mais ainda, esse relato de experiência me traz algumas reflexões que envolvem a qualidade de vida das pessoas com todos os tipos de deficiência.

De fato, é durante o processo de reabilitação que nós, pessoas com deficiência, podemos aprender ou reaprender a fazer nossas atividades cotidianas com autonomia. E é também durante esse período que nós passamos a ter mais consciência de nossos limites, das situações nas quais vamos precisar, sempre com independência, da ajuda de outra pessoa.

Conquistar – ou reconquistar – autonomia, sem dúvidas, é fundamental para a nossa auto-estima e segurança, além de estar relacionada diretamente com a aceitação da nova condição. Contudo, o conhecimento de nossas reais dificuldades (por nós e pelos outros que convivem com a gente) possibilita um desenvolvimento mais tranquilo e, ao mesmo tempo, evita a superproteção, tão comum em nossas vidas.

Não é raro as pessoas – inclusive as mais próximas – nos ajudarem mesmo em momentos nos quais não precisamos. Toda a ajuda, quando necessária, é sempre bem-vinda, mas não subestimar nossas capacidades, respeitar nossas vontades e estimular nossa autonomia são atitudes essenciais.

Nesse sentido, Nanda ressalta o papel que os apoios técnicos (bengala) e os recursos tecnológicos (leitor de tela) exercem na vida cotidiana das pessoas com deficiência visual, visto que estes garantem a autonomia para a locomoção ou para o uso de computadores. Um contato com apoios e recursos que, por sinal, pode proporcionar, mais do que o conhecimento de nossas capacidades e de nossos limites, uma melhor compreensão da deficiência a partir das experiências com as inúmeras barreiras impostas nos diversos ambientes sociais.

Em outras palavras, é no processo de reabilitação que nós, pessoas com deficiência, começamos a ter outra consciência do nosso corpo, ou seja, de nossas habilidades e limitações e, com base nas experiências citadas acima, da relação do nosso corpo com o meio social, que pode facilitar ou dificultar a nossa autonomia, dependendo do acesso ou não aos recursos e apoios necessários e da presença ou da eliminação das barreiras físicas, de comunicação, atitudinais (superproteção), entre outras. Um processo, aliás, que começa no período de reabilitação em si e que pode e deve continuar em atividades posteriores, realizadas dentro e fora do ambiente institucional, como um aprendizado permanente, um processo de desenvolvimento contínuo.

Somado a tudo isso, Nanda ainda lembra os aspectos que envolvem a convivência com outras pessoas com deficiência em uma instituição especializada. De fato, ao lado das atividades individuais – por exemplo, a Orientação e Mobilidade, no caso das pessoas com deficiência visual –, esses momentos de convivência são importantes para combater a ideia de “tragédia pessoal”, para a troca de experiências com quem enfrenta dificuldades semelhantes, para a nossa aceitação e, com isso, para o entendimento da deficiência como uma questão coletiva, política e social.

Por tudo isso, reafirmo a dica da minha amiga, de que as pessoas com deficiência devem procurar em suas cidades os locais onde possam ter acesso a um programa de reabilitação. Porém, infelizmente, na maioria das cidades brasileiras, sobretudo nas cidades do interior do país, esse acesso é precário ou inexistente.

Nesses casos sugiro que as pessoas com deficiência e seus familiares procurem o poder público, o Conselho Municipal dos Direitos das Pessoas com Deficiência – ou, por exemplo, da Saúde ou da Assistência Social – para cobrar esse direito garantido na legislação. Mais ainda, sugiro também, se for preciso, procurar apoio jurídico e o Ministério Público para fazer valer seus direitos básicos.

Quem tiver dificuldades, podem postar comentários ou enviar e-mails que eu, dentro do possível, posso tentar ajudar. Afinal, juntos somos mais fortes.

Reabilitação: segurança e autonomia para as pessoas com Deficiência Visual

A diversidade da diversidade

29 abril, 2017 às 19:27  |  por Manoel Negraes

Infelizmente, ainda está muito presente no nosso cotidiano uma visão homogênea em relação às pessoas com todos os tipos de deficiência. Não é raro ler, ouvir ou ver nos meios de comunicação ou identificar em diversas situações, inclusive com profissionais que atuam em inclusão social, pensamentos e práticas que reafirmam generalizações que não representam as infinitas realidades que envolvem esse segmento da população.

Por exemplo, é comum ouvir que pessoas com síndrome de Down são mais dóceis ou que pessoas com deficiência visual são ótimas massagistas. Também, é comum ler que as pessoas com deficiência necessariamente sofrem por causa de suas condições físicas ou que as pessoas com deficiência sempre terão mais dificuldades em suas atividades diárias do que as pessoas sem deficiência.

Assim, as generalizações surgem em torno das deficiências em si e das pessoas que vivem com essas condições. Porém, não são todas as pessoas com deficiência visual que usam o sistema braile e que possuem uma audição mais apurada; não são todas as pessoas com deficiência auditiva que usam a Língua Brasileira de Sinais – Libras; as pessoas com deficiência física não enfrentam as mesmas dificuldades e quando as enfrentam, fazem isso de inúmeras maneiras; e as pessoas com deficiência intelectual lidam com suas condições e com as outras pessoas a partir de vários fatores subjetivos e sociais.

Nós, pessoas com deficiência, em outras palavras, formamos um grupo complexo e heterogêneo e, mesmo com algumas semelhanças que de imediato colaboram para o surgimento das generalizações, não temos as mesmas necessidades, capacidades e conhecimentos.

Mais ainda, antes de pessoas com deficiência, somos pessoas, com diferentes características físicas e psicológicas, inseridas em diversos contextos sociais e culturais, cada uma com seu histórico de vida, com seus desejos e sonhos, com seus defeitos e medos. Somos, enfim, o resultado de múltiplos fatores, entre eles a deficiência.

Por isso, é importante não generalizar, não julgar antecipadamente e, sobretudo, construir uma convivência real com as pessoas com deficiência. Isso porque quando não existe convivência, ficamos conhecidos mais por aquilo que, de acordo com significados e interpretações superficiais, nos falta (no meu caso, a visão) do que por aquilo que nós somos de fato, o que preserva e reproduz as generalizações.

Já quando existe a convivência, as pessoas sem deficiência podem conhecer mais nossas características, gostos, defeitos e qualidades. Podem, inclusive, conhecer mais sobre a deficiência e, com isso, perceber que somos cada um de um jeito justamente porque a deficiência não está no corpo, não é um problema individual, e sim uma condição presente na relação entre a pessoa e o meio ao seu redor, isto é, entre a pessoa e as barreiras físicas, o preconceito, as questões de gênero e as condições econômicas, entre outros determinantes de infinitas experiências de vida.

Portanto, é fundamental garantir igualdade de oportunidades e de condições no trabalho, na escola, na universidade, em atividades culturais ou de lazer. Assim, todos poderão dividir espaços físicos e vivências e, desse modo, quem não tem deficiência poderá nos enxergar como seres humanos completos.

Quem não enxerga?

21 abril, 2017 às 20:41  |  por Manoel Negraes

Uma das dificuldades de locomoção enfrentadas pelas pessoas com deficiência visual no dia a dia é atravessar a rua. O que parece uma ação simples para todos, para nós se mostra muito complicada, já que apresenta enormes riscos. E estes aumentam em uma sociedade onde as pessoas cada vez mais enxergam menos as outras.

É comum quem tem deficiência visual ficar parado nas esquinas esperando ajuda para atravessar a rua – sobretudo em bairros mais desertos e em horários mais tranqüilos. Porém, não é menos comum estas ficarem esperando ajuda em lugares movimentados. É incrível, mas isso acontece! Muitos pedestres passam por nós, pessoas com deficiência visual, e não oferecem ajuda.

Eu, que tenho baixa visão, percebo por muitas vezes esta atitude, mas ao mesmo tempo sinto receio em parar a pessoa para pedir ajuda. Isso porque a falta de informação em relação à baixa visão gera desconfiança. O fato de eu vê-la a faz pensar que não tenho deficiência, que estou fingindo, que quero esmola, assaltá-la etc.

Outra situação que gera esta mesma desconfiança é o fato de eu e outras pessoas com baixa visão atravessarem ruas e avenidas, sobretudo quando existe a faixa de pedestre, sem precisar de ajuda. Já escutei comentários maldosos nas duas situações, o que me faz “vestir” o papel social do cego tão esperado por todos, principalmente para assegurar minha integridade física.

No entanto, o que quero sublinhar neste texto, não é esta desconfiança e sim o fato dos outros não oferecerem ajuda. Esta falta de atitude, observada por mim nos últimos anos, me faz refletir sobre quem não enxerga de verdade, sobre a que ponto está o individualismo cada vez mais difundido nas escolas e na mídia. Com certeza, a distração, a pressa, o receio, a falta de educação de muitas pessoas com deficiência visual colaboram para este tipo de atitude. Mas, mesmo querendo acreditar que estes são os motivos principais da “cegueira social”, não consigo deixar de observar que a suas causas extremas são a ignorância, o individualismo e o egoísmo.

Infelizmente, pessoa que tem esta postura pelos motivos negativos acima, é a mesma que fecha os olhos e finge dormir no ônibus para não ceder lugar. Fecha os olhos e não enxerga a miséria escancarada na janela do seu carro. Fecha os olhos e não compreende que as pessoas com deficiência não formam um grupo homogêneo e que o mundo é bonito, rico e transformador justamente porque é formado pela diversidade humana. Então, quem não enxerga?

Live sobre bengala verde no YouTube

14 abril, 2017 às 22:42  |  por Manoel Negraes

Desde março, eu e dois queridos amigos, Nanda, do Rio de Janeiro, e Rafa, de Porto Alegre, que como eu possuem baixa visão e usam a bengala verde, conversamos frequentemente sobre nossas experiências com a deficiência visual e a bengala verde, tema de um texto publicado recentemente aqui e ainda pouco debatido no Brasil.

Dessas conversas surgiu uma sintonia muito bacana entre nossos pensamentos e práticas cotidianas e, a partir disso, um convite para uma ação conjunta pela internet que possibilite divulgar mais o tema para as pessoas com e sem deficiência.

Assim, convidamos você a assistir, no próximo dia 18 de abril, às 21 horas, a Live “As pessoas com baixa visão e a bengala verde”, iniciativa do Mundo Cegal, na qual abordaremos as características da baixa visão, origem e objetivos da bengala verde e outras questões importantes para esse debate.

A Live poderá ser acompanhada em tempo real e o público poderá fazer perguntas. O link para assistir é: https://www.youtube.com/watch?v=VmwOepqTmhc

 

Quem estará comigo?

 

Rafael Braz.

Graduando do 8º semestre do curso de Psicologia da Universidade Unilasalle Canoas – Pesquisador de iniciação científica na área de Saúde e Desenvolvimento Humano da Universidade Unilasalle Canoas – Consultor/Revisor em Audiodescrição para produções artísticas e culturais.

 

Fernanda Shcolnik.

É professora de português e literatura, Doutora em literatura comparada pela UERJ e diretora de comunicação da Associação dos Deficientes Visuais do Estado do Rio de Janeiro – ADVERJ.