A invisibilidade cotidiana

31 julho, 2017 às 00:06  |  por Manoel Negraes

Uma das situações mais comuns no cotidiano de quem tem alguma deficiência é o fato das pessoas não falarem diretamente com a gente e sim com quem está nos acompanhando. Isso acontece praticamente todos os dias, no comércio, na família, no trabalho, enfim, em diversos momentos.

Quando relato as minhas experiências de “invisibilidade”, sempre conto uma história engraçada que aconteceu comigo, quando eu ainda morava em São Paulo. Frequentava, às vezes, um bar/restaurante com amigos, geralmente no horário do almoço, momento em que eu ouvia a conhecida pergunta: o que ele vai comer hoje?

Certo dia, já cansado dessa história de ser “ignorado”, entrei no estabelecimento sozinho, cheguei até uma mesa e me acomodei. O garçom passou por mim duas vezes (será que achou que logo iria chegar alguém para me acompanhar?) e ao ver aquele vulto branco se aproximar mais uma vez, tomei a iniciativa:

- Ei, amigão, você pode me atender, por favor?

Sem jeito, ele disse:

- Claro, me desculpe, o que vai querer?

Pedi, lógico, uma cerveja, estava calor naquele final de tarde de uma sexta-feira de verão. Então, ouvi a seguinte pérola:

- Mas, você bebe?

Sem pensar duas vezes, respondi com bom humor:

- Com certeza, faz tempo, ou você acha que eu estou aqui para olhar os outros bebendo?

Ele riu, em seguida eu também, e, naquele instante, percebi que tinha aberto uma oportunidade para tocar no assunto e resolver o que estava me incomodando. Disse a ele que já tinha percebido o seu constrangimento e que o correto era falar sempre com a pessoa com deficiência. Ele pediu desculpas e perguntou algumas curiosidades sobre minha baixa visão, o que nos aproximou. Voltei apenas duas, três vezes ao local antes de vir para Curitiba, mas me lembro bem do novo comportamento do rapaz.

Com esse relato, que pode parecer bobo para alguns ou até absurdo para outros, gostaria de ressaltar uma das principais armas que eu utilizo no meu cotidiano para combater o constrangimento que a deficiência ainda causa nas pessoas: o bom humor. É lógico que experimento diversas situações que exigem um enfrentamento sério, mais duro, às vezes ríspido, da minha parte. Porém, no geral, gosto de usar o bom humor, acredito que ele aproxima, que ele ajuda a romper barreiras e a quebrar preconceitos. Nesse caso, por exemplo, uma grosseria minha provavelmente teria afastado o garçom e ele continuaria a atender as pessoas com deficiência da maneira errada.

Contudo, gostaria de ressaltar também que é fundamental existir mais atenção, mais cuidado, enfim, mais leveza para que possamos romper de vez com esse constrangimento que faz com que as pessoas sem deficiência nos “ignorem”. “Mas, Manoel, imagina, eu nunca fiz isso”. Será? Ninguém que está lendo esse texto já ficou constrangido na presença de uma pessoa com deficiência e deixou de bater um papo bacana na escola, no trabalho, em uma festa, ou deixou de atendê-la da maneira correta no comércio em que trabalha?

Então, que essa besteira toda que eu escrevi aqui sirva para que possamos refletir. Por que isso acontece? Romper com esse constrangimento é demonstrar respeito, é valorizar nossas decisões, escolhas e opiniões, é, sobretudo, nos “humanizar”.

1 Comentários

Uma ideia sobre “A invisibilidade cotidiana

  1. Rafael Braz

    Manu, bela reflexão. Super concordo com tudo. O bom humor é fundamental para aproximar as pessoas e construir uma convivência mais saudável. Vamos assim humanizando as interações.

    Responder

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