Sobre amizades, relacionamentos e o ser humano

25 maio, 2017 às 21:19  |  por Manoel Negraes

Certa vez, no terminal de ônibus localizado próximo da casa onde morava, aqui em Curitiba, ouvi a seguinte frase do rapaz que me auxiliava: “Olha só, vem cá, fica aqui perto do seu amigo”. Surpreso, disse: “Amigo? Qual amigo?”. E ele disse: “Desse moço aqui que também é cego”. Em outras situações, por exemplo, ao atravessar a rua com a ajuda de uma pessoa qualquer, já ouvi algumas vezes a pergunta: “Você conhece o Fulano que também não enxerga?”. Respondo: “Não, não conheço todo mundo que não enxerga”.

Em outras situações ainda, por exemplo, durante uma palestra ou em uma mesa de bar com desconhecidos, após descobrirem que sou casado, já ouvi também algumas vezes a pergunta: “A sua esposa também não enxerga?”. E, sempre com paciência, respondo: “Não, ela não tem deficiência”.

De fato, existem muitos casais e grupos de amigos formados por pessoas com a mesma deficiência, afinal as instituições de reabilitação ainda são, infelizmente, os únicos ou os principais locais de convivência e espaços de socialização. E, assim, da mesma forma que muitos casais e amigos se conhecem no ambiente de trabalho, no clube, na universidade, no caso das pessoas com deficiência não é diferente e muitos casais e amigos se conhecem durante um curso, um passeio, um evento, enfim, uma atividade realizada pela instituição que frequentam.

Ah, isso posto, você vai dizer: “Claro, então as pessoas agem desse modo e fazem essas perguntas porque é comum elas verem na rua casais e amigos formados por pessoas com a mesma deficiência”. E eu pergunto de volta: “será que é apenas esse o motivo? Será que são perguntas justificáveis, mesmo com a convivência entre as pessoas com e sem deficiência aumentando cada vez mais, o que tem possibilitado o surgimento das amizades e dos relacionamentos amorosos entre essas pessoas em diversos ambientes sociais?”.

Pois é… Vou citar algumas situações que já aconteceram comigo ou com pessoas próximas para demonstrar que o tema não é tão simples. De imediato, lembro a pergunta que uma amiga com baixa visão ouviu de um rapaz recentemente, quando saiu para dançar na cidade do Rio de Janeiro: “Você tem amigos?”. Como dizem os cariocas, caraca! Sério mesmo que ainda pensam que nós não temos amigos?

Quando ainda morava em São Paulo, tive um longo relacionamento com uma moça que estudava na mesma faculdade que eu. Lembro, no início do namoro, que ela ouviu de pessoas próximas as seguintes questões: “Poxa, complicado, como vocês vão se sustentar?” e “E aí, como você vai fazer se quiser terminar com ele?”.

Com a minha esposa não foi diferente, pois também logo no início do namoro uma pessoa próxima, ao me conhecer em um evento, ficou horrorizada e foi questioná-la quando eu não estava por perto: “Você está louca?”. E recentemente, já casados, ela ouviu em um bar, durante a comemoração de um aniversário, duas pérolas: “Me cortou o coração quando eu vi você arrastando ele” e “Ele faz o asseio sozinho?”.

As frases acima, todas reais, refletem os diversos preconceitos que muitos ainda têm quando o assunto é relacionamento – de amizade ou amoroso – entre pessoas com e sem deficiência. Em particular, muitas reações descritas demonstram que familiares, amigos e conhecidos acreditam que nós, pessoas com deficiência, somos um peso para as pessoas sem deficiência, pois acreditam que somos incapazes de cuidar da casa  e dos filhos, de cuidar da higiene pessoal, de trabalhar e pagar as contas, de ter uma vida comum.

Além disso, em outras situações, os familiares, amigos e conhecidos revelam outros preconceitos ao demonstrarem acreditar que as pessoas sem deficiência estão fazendo uma caridade, um favor, ao se relacionarem com pessoas com deficiência. Não é raro eu perceber uma admiração gratuita pela minha esposa ou até mesmo ouvir frases como: “Nossa, ela deve ser uma pessoa muito especial, né?”.

Infelizmente, muitos ainda acreditam em tudo isso, ainda acreditam quando eu e a minha esposa estamos de óculos escuros que nós dois somos cegos, enfim, ainda estão presos em preconceitos difíceis de serem quebrados, mas, por outro lado, ainda não acreditam no que há de mais simples na vida, no carinho, no amor, na cumplicidade entre duas pessoas.

1 Comentários

Uma ideia sobre “Sobre amizades, relacionamentos e o ser humano

  1. Natasha Lopez

    Manu não havia lido este último texto…. lembrei muito da nossa época na ESP correndo pra lá e pra cá fazíamos o que dava la gana….mas dou risadas sozinha quando lembro da confusão que as pessoas faziam gritando no seu ouvido e vc dizia….sou cego e não surdo…

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