Sobre pais e filhos

25 junho, 2017 às 23:22  |  por Manoel Negraes

Todos nós construímos durante todas as fases de nossas vidas, múltiplas relações com a figura paterna e a ideia de paternidade. Isso, sobretudo, a partir de vivências influenciadas diretamente pelos contextos familiares e sociais nos quais estamos inseridos e que apresentam condições materiais e emocionais, bem como concepções culturais determinantes.

Eu, por exemplo, que nasci poucos meses depois do falecimento do meu pai, vivenciei ao longo dos meus 38 anos de idade a ausência, a “saudade do que não tive”, a angústia da eterna pergunta “como teria sido?”, o orgulho pela sua história, o vínculo por meio da palavra escrita (ele publicou dois livros), a revolta por não tê-lo para compartilhar alegrias e tristezas e uma forte e constante vontade de ser pai.

Tudo isso junto e misturado, ao mesmo tempo agora… sim, tudo isso junto e misturado, principalmente desde a minha adolescência, fase na qual tomamos mais consciência de nossos sentimentos e do que queremos para o futuro, até agora, até o momento em que escrevo este texto.

Por outro lado, além da presença e da importância da minha mãe, vivenciei e vivencio tudo isso com as presenças marcantes de algumas figuras masculinas, dentre as quais dois homens que eu tive o privilégio de conviver: o meu avô materno, Ernesto, falecido em 1990, e meu tio Ernesto Augusto, um dos irmãos da minha mãe, falecido em 1996, mesmo ano em que eu descobri a retinose pigmentar.

Com a minha nova condição essas vivências ganharam outras cores e novos sabores, afinal a baixa visão trouxe e traz experiências subjetivas específicas que, a partir das interações familiares e sociais cotidianas, refletiram e refletem, inclusive, na minha relação com a figura paterna e com a ideia de paternidade.

Posso citar, conforme o exposto acima, entre outros pontos, as novas possíveis respostas que surgiram para a pergunta “como teria sido?”, a ausência nos momentos mais angustiantes da aceitação ou, ainda, a ampliação do vínculo pela palavra escrita (minhas poesias visuais). Porém, quero destacar a forte e constante vontade de ser pai.

Da minha parte, essa nova condição nunca interferiu nessa vontade, nunca diminuiu a sua força. Entretanto, o desejo de ser pai com deficiência nos apresenta situações como, por exemplo, a possibilidade do filho ou da filha também ter deficiência e a dúvida “será que vou conseguir cuidar dele sem enxergar?”.

A primeira, para mim, há muitos anos não é um problema e, sinceramente, não me lembro de já ter sido uma preocupação em algum momento. Contudo, essa questão ainda aparece em minha vida, ou por meio de grupos de pesquisa genética, que demonstram pouca sensibilidade para lidar com o tema ao proporem a ideia de “planejamento familiar”, ou nos questionamentos de algumas pessoas, a maioria distante do nosso dia a dia.

Nesses casos, busco lidar, no geral, com tranquilidade e, às vezes, de maneira mais incisiva, principalmente quando o tema surge dos grupos de pesquisa. Busco sempre esclarecer o seguinte: se sou bem resolvido com a baixa visão e, sobretudo, se defendo essa condição como um modo legítimo de ser e estar no mundo, ter um filho ou uma filha com deficiência visual será uma situação tratada de forma natural. Aliás, uma frase da minha companheira resume e encerra a questão: “Se eu casei com um homem que não enxerga bem, por que não teria um filho que também não enxerga?”.

A segunda situação, de fato, agora está mais presente do que nunca e, confesso, que quando descobri que a Géssica estava grávida eu pensei “nossa, tenho que pesquisar, tenho que descobri rápido como trocar fraldas, dar comida e banho sem enxergar”. No entanto, logo desisti, abandonei as pesquisas específicas e fiz isso por um simples motivo: quero aprender na prática, quero ser como qualquer outro homem que viveu boa parte da vida com uma constante e forte vontade de ser pai.

E foi a melhor decisão que tomei, pois agora aproveito cada dia dessa gestação com os sentimentos, as dúvidas e as preocupações que acompanham todos os casais que esperam um bebê. Claro, sempre considerando as questões que envolvem a baixa visão, mas não o fato de não conseguir dar banho ou a possibilidade dele nascer com deficiência, e sim a desconfiança dos outros na minha capacidade de cuidar de um filho e o preconceito que, infelizmente, ele também sentirá.

Em novembro o Ernesto Augusto (que nome lindo!) estará entre nós para daqui a algum tempo começar a construir a sua relação com a figura paterna. E eu estarei com todos os meus sentidos e sentimentos abertos para aprender e ensinar, para rir e chorar, para viver intensamente cada instante da paternidade que sempre desejei. Seja bem-vindo meu filho.

1 Comentários

13 ideias sobre “Sobre pais e filhos

  1. Márcia Peçanha Gonçalves

    Parabéns pelo texto, perfeito,preciso e sensível. Você escreve como todos se sentem com relação aos filhos, sejamos nós pais videntes ou não. E também quanto à questão das ausências, pelas perdas prematuras. Como teria sido? Talvez tivesse sido mais fácil, mas talvez não tivessemos chegado tão longe.Nunca saberemos!
    Mas sosseguem, aproveitem a gestação e verão que logo,nos primeiros pontapés ,esses temores irão embora. O Ernesto Augusto trará muitas certezas e reconhecerá em você um pai amoroso, um homem inteiro, que só não enxerga perfeitamente, mas que desenvolveu outras maneiras de enxergar, além do olhar, o que será uma grande inspiração para ele. Felicidades!!!

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  2. Natasha

    Manu, que vengam los niños….que seja da maneira que for o mais importante é o amor da sua paternidade que passará pelos seus braços para os que virão….tenho a impressão que outros virão kkkk…bjs saúde para Géssica e muito amor pra vocês

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  3. Nilda dias amengual

    Não só lindo, mas emocionante e incentivador. Dando uma lição de vida as pessoas que estão sempre a reclamar da vida por qualquer motivo. Parabéns pela linda mensagem!

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  4. Patricia

    Manoel,

    Ser pai e mãe é uma experiência única nessa vida… a mais próxima de se conhecer a si mesmo. É especial, lindo e sábio. Nossos filhos são nossos mestres… as estrela que caem do céu em nosso colo e vem exatamente para nós ensinar como deve ser, o que deve transformar, o olhar interior… este, certamente você tem de sobra. Sou amiga da Gessica, fiquei imensamente feliz com a notícia e faço um brinde a sua família que do jeito que for será única, especial e abençoada. Um grande abraço nos três.

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