Do capítulo: eu só queria entender
Dois textos me ajudaram a entender certas pessoas e me fizeram rir muito da loucura de algumas. Esses também não posso deixar de compartilhar com vocês. Um é do jornalista José Carlos Fernandes publicado na Gazeta do Povo. Aguardo ansiosamente às sexta-feiras para ler as histórias que ele vai contar. São incríveis, sempre. Ainda por cima, na última, falou o que eu sinto. Outro texto deliciosamente escrito é do Érico Veríssimo, que eu ainda não consegui, apesar de ter assinado a versão digital do jornal para ter acesso. Prometo continuar tentando. Saiu na edição da última quinta-feira (28) no O Estado de São Paulo. Se alguém se interessar pelo assunto, apesar de não ser gastronômico, aproveito para incluir na lista dos gurus de Fernandes a colunista do Financial Times, Lucy Kellaway. Ela é ótima. Sua coluna é reproduzida na edição de fim de semana do Valor Econômico também. Sense and Nonsense in the Office é um dos seus livros e pelo título dá ideia do que essa especialista é capaz. E já que falamos de “nonsense”, a repórter Silvana Arantes contou que a presidente da Argentina, Cristina Kirchner, recomendou à população consumir carne de porco para “incrementar a atividade sexual”. Bem, sem entrar no mérito da questão, acho que a representante do governo vizinho deveria cuidar de outras coisas antes de relatar suas intimidades como fez ao povo de seu país, mas se o leitor quiser tirar a prova eu recomendo o leitão, perfeito, pururuca e saboroso como deve ser, servido no restaurante Durski, em Curitiba. “E aquele abraço pra quem fica”, como escreveu o jornalista curitibano, e um abraço pra você Zé, que me faz sentir viva.
José Carlos Fernandes
O que Espinosa diria sobre isso?
O discurso sobre produtividade e eficiência virou a conversa do século
21. Dá sono. Dá pena. O filme de Jason Reitman, Amor sem escalas,
mostra em que fria nos metemos.
Fiquei triste, confesso, e assim permaneço. É uma limitação. Não vejo
lugar para a diferença, para o estilo e para as grandes paixões por
trás dos tailleurs e terninhos maneiros dos novos ideólogos. Bocejo à
simples menção da palavra “organograma”. Acho avaliações uma tortura.
O desencanto diante da nova ordem me levou a tomar uma decisão: abrir
uma banca de jornais, repetindo os passos de meu pai. Terminaria
parecido a ele, exceto no bigode. E aquele abraço pra quem fica. Mas
eis que em meio à espera pelo Dia D – o tal em que somos convidados a
procurar novas oportunidades no mercado – desenvolvi um vício secreto.
Passei a acompanhar matérias da imprensa sobre as grandes corporações,
de modo a entender como pensam os que nos dão a conta. Tem sido um
exercício de indignação, mas também de humildade.
Meus gurus nessa empreitada são o consultor Max Gehringer e o
jornalista Heródoto Barbeiro. Vou ao pé do rádio para ouvi-los. Do
cínico Gehringer tenho recolhido lições práticas, como a de antes de
tudo olhar o banheiro de uma empresa. Se nem o problema do papel
higiênico foi resolvido, fuja. O WC é o melhor dispositivo para medir
qualidade.
Do ilustrado Barbeiro aprendi que tem muita gente preparada entre os
papas da gestão, como mostra nas reportagens que faz para a CBN. E
também ignorantes convictos, que se entregam logo às primeiras falas.
Lembro de ouvir um bam-bam-bam arrotando Espinosa para defender suas
teses. Me senti a própria besta quadrada. Ora, existe meia dúzia de
especialistas nesse filósofo em todo o mundo, incluindo a brasileira
Marilena Chauí. A regra é citá-lo já se desculpando pela cara-de-pau.
Mas que nada – uma das coisas mais chatas dos novos mandachuvas é que
eles podem tudo, inclusive falar de Espinosa.
De todas as falas, a que mais me marcou foi a da consultora que
analisou o caso Van Gogh. Com pose, disse que o pintor holandês é
cultuado por sua loucura, mas o que lhe faltava mesmo era “marketing
pessoal”. Dominasse essa técnica, não teria passado pela vida na
pindaíba. Imaginei-o usando uma orelha de silicone e trajando Armani.
Vertigem. Van Gogh jamais seria aprovado num teste de seleção.
O cinema, vale lembrar, também tem feito muito para desnudar o mundo
corporativo. Aconselho três filmes. O primeiro é a comédia macabra O
corte, de Costa-Gravas, sobre um executivo que sai matando,
literalmente, todos os caras aptos a ocupar o cargo do qual foi
dispensado. O segundo é o delicioso Em boa companhia, no qual o
veterano Dennis Quaid oferece a mão ao garoto cheirando a leite que o
substitui numa agência.
Por fim, não perca Amor sem escalas, em cartaz. É de todos o mais
cruel. Ainda estou lá, preso à poltrona, vendo, impotente, os
figurantes que representam trabalhadores mal avaliados sendo postos na
rua pelo personagem de George Clooney. É um filme de gente grande. Não
assopra, não adula. Mostra em que fria nos metemos. Nem o mago vivido
por Clooney se safa: vê tudo de cima, voando entre uma cidade e outra
onde tem de demitir. Dá-se bem – acumula milhagens e amores fortuitos.
Mas um dia o expediente acaba para ele também. Fico pensando no que
Espinosa diria sobre isso. Me desculpem, mas acho que nada.




31 January, 2010 às 03:38
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