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Onde ir em Barcelona ou pequeno roteiro de restaurantes e bares

2 janeiro, 2012 às 23:51  |  por Jussara Voss

Colocar em dia os assuntos tratados aqui e falar da viagem feita em novembro é a intenção. Hoje faço um resumão, organizando minha agenda, alguns endereços estavam no meu endereço eletrônico antigo. Espero que ajude quem chega na cidade para passar uns dias. Solto a lista e depois dou mais detalhes, principalmente, daqueles lugares que merecem uma visita, é claro. Jacques Trefois foi novamente meu guru e eu só posso agradecer pelas dicas certeiras. Agora quem conhece Barcelona é a jornalista e moradora da cidade Adriana Setti, visite o site dela. Quer informação? Corra para o post de dicas-de-barcelona, tem tudo ali.

A primeira dica não é gastronômica, mas cultural e foi por onde comecei quando cheguei: um espetáculo no Palau de La Música. Depois do show o jantar foi no hotel Banys Orientals, um superachado no El Borne, que tem um bom restaurante de cozinha tradicional da região: Senyor Parellada, bacalhau é uma das escolhas certas. Pode não ser unanimidade e o serviço, às vezes, meia boca, mas nas duas vezes em que estive lá a comida estava muito boa. Na primeira vez, achei o lugar, que frequenta guias da cidade, andando pelo bairro.

Tapaç 24, um dos muitos empreendimentos do famoso chef Carles Abellan, é uma ótima pedida quando o desejo é por boas tapas, as dicas da Adriana Setti se confirmaram. O “biquíni 24″ (foto), tapa com jamon, no dia servido com trufa e não foie gras, que parece uma panquequinha, e a sobremesa de chocolate com azeite de oliva e flor de sal foram fatais. Ah, as batatas bravas também não podem ser esquecidas. Lembrete importante: se não quer agito e nem ficar horas na fila é preciso fugir dos horários de almoço e jantar, o lugar fica aberto das oito da manhã até meia-noite e não aceita reservas. Aproveite para passear na região, tem uma ótima loja de design, que eu sempre esqueço o nome, dentre tantas outras, no Passeig de Gracia, ali pertinho. Calle Diputació, 269.

Já o Comerç, outra casa dele, recomendada como “melhor cozinha de autor” eu não achei tão boa assim. Pedi o menu degustação, o maior, e só fiquei feliz com os pratos de trufas, cobradas à parte, e diga se não estou certa, ovo com trufas, ou ostra, não tem erro mesmo. Tirando os pães e azeites da entrada, quase tudo soou muito artificial. Faíscas na cozinha ouvidas no salão e balcão bagunçado não ajudaram.

Alkimia: faz jus ao nome. Não consegui reserva para o jantar. Foi um dos destaques da viagem. Deu pra ver o talento do chefs Jordi Vilà e competência no salão da sócia Sonia Profitós. Bom preço, casa pequena, serviço e comida impecáveis. C/ Industria, 79

Cal Pep: acho que tive azar, tentei puxar conversa com o chef, pedi indicação e depois, quando já estava instalada no balcão, percebi que era a mesma dada para todos com cara de turistas. O lugar é badalado e o chef famoso, mas não foi nada excepcional. Volto pra ver se tenho mais sorte, vou tentar uma mesa, as recomendações eram as melhores possíveis. Esqueci que tinha tomado nota dos pimentos de padrón e jamón para provar. Experimentei o tartar de atum, que estava bom, mas implico com pratos já prontos. Era tarde quando cheguei para jantar, uma fila enorme nem foi notada com a ajuda do comentário do gerente, “depois do casal ao seu lado, você é a próxima”, estava cansadíssima e por isso também vou dar um desconto. El Xampanyet nos arredores é outra boa dica e não dá pra deixar de visitar os museus vizinhos, o do Picasso, principalmente, bem como as suas lojas.

Suquet de L’Amirall ou Sucett del Admiral
Em plena Barceloneta, dá para se sentir na praia. Ingredientes de primeira. As vieiras que eu comi eram enormes, foram grelhadas e recheadas com jamon da melhor qualidade. Uma dádiva. Turbot de legumes, sepiones… Fui na dica do Guilherme Rodrigues e pedi também o Marquês de Alella, 2009, inesquecível. O chef Quim Marquês entende do assunto, é um craque. Outra pérola da viagem. Passeig Joan de Borbó, 65. Saí com o livro dele embaixo do braço e feliz da vida.

Quimet & Quimet

Bato ponto aí, sempre que puder. A casa é destaque dos especialistas: melhor queijo com geléias, melhor tapas frias, salmão defumado com mel trufado, atum, queijo Torta del Casar e enlatados. Difícil é definir o Quimet & Quimet, meio bar, meio restaurante, meio loja, vi umas mesas no fundo, mas todo mundo estava na frente comendo em pé, fica pertinho do Tickets dos badalados irmãos Adrià, com o qual eu tenho sonhado ultimamente, porque não consegui reserva. Programa garantido. Poeta Cabanys, 25, no Poble Sec. De 2º a 6º das 12h às 16h e das 19h às 22h.

Moments

Quem toca o Moments é Raül Balam filho de Carmen Ruscalleda, a única mulher seis estrelas da Espanha, não será do mundo? Eu quero mesmo é conhecer o restaurante dela que fica pertinho de Barcelona, mas sem sair da cidade, você encontra boa comida ali no chiquérrimo Mandarim, instalado na zona nobre do Passeig de Gracia. Vale a visita ao hotel também, nem que seja para um aperitivo no bar.

Dos Cielos
Dos Cielos, entre o mar e a montanha, no 24º andar do Hotel Me, é para fazer qualquer um esquecer dos problemas, espere por horas de prazer. Merece post especial. Os irmãos Torres são geniais, sem dúvida. Entre no site e tenha uma ideia do que estou falando, também é uma opção para quem não quer menu degustação. Não esqueça de pedir os queijos e fale com o sommelier.

Chocolate

Não saia da cidade sem experimentar os chocolates do premiado Oriol Balaguer e a torta de oito texturas. Não é vendida em pedaços, você terá de comprar uma inteira, mas tem pequena e vale a pena. Coloque na mala pelo menos uma caixinha de chocolates e não se arrependerá. Tem horário especial, eu já bati com o nariz na porta, consulte o site antes de ir.

E se o assunto é chocolate experimente também: Enric Rovira e Cacao Sampaka, que tem uma cafeteria aberta das 9h às 20h.

Outros restaurantes recomendados, que eu não conheci:
Somorrostro.
Bar Velódromo e Asador Bravo 24, hotel W: para conhecer as novas casas do chef Carles Abellan.
Mariona: melhor filé com foie gras e trufas*.
La Paradeta: melhor frutos do mar*.
Kibuka: melhor japonês*.
La Xina: melhor chinês. Mais uma casa do grupo Tragalux*.
Chicoa: especializado em bacalhau e para comer miúdos**.
* Dicas da Adriana Setti
**Dicas do Guilherme Rodrigues

E mais uma dica da Constance Escobar para comprar e comer: Vila Viniteca.

E aqueles que eu conheci de outra viagem.
Los Palillos: para experiências incríveis, ótima comida, fusão de tapas com comida asiática e vanguarda e carta de saquês.Visite o site, veja o filme, saiba como funciona e fique com vontade de conhecer. É preciso reservar com antecedência.
El Glop : para comer galtes, as bochechas de porco. Evite o das Ramblas, por favor.
Moo no Hotel OMM: porque tem a consultoria dos irmãos Roca, não precisa dizer mais nada, é claro. Obrigatório e ainda é badalado. Estive lá há dois anos: sem arrependimentos.
Botafumeiro: frutos do mar com tradição. Produtos frescos.

 

El Celler de Can Roca

23 novembro, 2011 às 19:25  |  por Jussara Voss

Finalmente, chegou o grande dia: iria mesmo conhecer o restaurante dos irmãos Roca, o chef de cuisine Joan, o sommelier, Josep, e o patisser Jordi, o caçula. Foi como um sonho. Vou contar mais na edição de janeiro da revista Ideias, mas quero mostrar aqui como foi o banquete no El Celler de Can Roca, que começou com “um pouco dos sabores de alguns lugares”, lembrança das andanças dos Roca’s pelo mundo. Foi um sábado inesquecível. Prepare o estômago, o post é enorme, na verdade são três.

Não acreditava, eu tinha cruzado o corredor de madeira e heras da entrada que leva ao jardim com móveis estilosos, depois de passar pela frente da fachada da casa antiga que abriga a cozinha, a pesada porta de madeira tinha se aberto, e eu entrava no hall de circulação de paredes e piso brancos, com uma luminária gigante  - uma escultura suspensa no teto – que parecia dar as boas-vindas.

Eu estava no El Celler de Can Roca. O gerente, atrás do pequeno balcão de madeira, me cumprimentou e checou a minha reserva. Chamou Jordi para me acompanhar até a cozinha, eu já tinha dito que queria conhecer o local, lá dentro vejo que não sou a única, encontro Joan com um casal. Jordi me apresenta para alguns brasileiros que fazem estágio no local, são mais ou menos 20 estudantes, de todas as partes do mundo, por período. Vi todas as praças, fiz algumas perguntas e ouvi explicações. Jefferson Rueda (ex-Pomodori) tinha acabado de sair dali, estava de viagem marcada para a Itália, depois para o novo restaurante de Marcelo Fernandes em São Paulo, podemos apostar nas novidades para a nova casa. Quando me despeço, pronta para entrar na sala de refeições, comento que era uma pena que chovia, pois o lugar era lindo, e minhas fotos seriam prejudicadas pelo tempo. “Cada estação tem sua beleza, podemos tirar proveito do outono, um tempo de recolhimento, contemplação e reflexão”. Segui confiante para almoçar, consciente do privilégio que era estar ali. Uma benção. Durante quase quatro horas, presenciei um espetáculo. Foi como um momento de meditação, único. Sem dúvida, eles são geniais no que fazem. É como vejo e sinto. Exagero, você pode até achar, eu não.

Abre-se o globo e lá estava o “comerse un mundo: Mexico, Perú, Líbano, Marruecos y Corea”, acompanhada por uma taça de cava: Albet I Noya Cava El Celler Brut D.O., do Norte da Espanha.

Começamos devagar, mas com surpresas. Sabores, texturas e formatos inesperados.

Depois da amostra dos sabores do mundo, o banquete seguiu com os aperitivos, que impressionavam pelo formato e também pelo paladar: olivas caramelizadas penduradas em um bonsai; tempura de algas; tortilla de calabacín; calamares a la romana; bombón de trufa de verona; e brioche de percebes. Dentro da pedra encontrei um bombom de trufa envolta em musgo. A natureza sempre presente. Quase todas as pequenas porções explodiam na boca inundando-a de sabor. Muita técnica e criatividade.

Impossível não pedir os vinhos selecionados por Josep, um apaixonado pela bebida. Recomendo visitar a adega e ouvir as explicações dele sobre as suas preferências vinícolas. Um passeio por regiões e aromas, com direito a som e imagens.

 

El Celler de Can Roca (2)

23 novembro, 2011 às 19:21  |  por Jussara Voss

Menu festival: 11 pratos e três sobremesas.
Geralmente as refeições começam com salada, então hora da “ensalada verde”, um espetáculo de texturas e contrastes delicados. Aguacate, lima, melón, pepino, chartreuse, acedera, shiso verde, estragón, rúcula, oxalis, eucalipto, sorbete de oliva y aceite de oliva. Delícia, delícia… vamos limpar o paladar preparando-o para os pratos, foi o suficiente para começar a empolgação e querer mais. Não dá para repetir?

Higos con majorero y guayaba con espuma vegetal.
Figo com queijo típico das ilhas Canárias, “queso Majorero”, cujo segredo é o leite, e goiaba e água de rúcula: eu devorei tão rapidamente que esqueci de fotografar. Várias texturas, diferentes temperaturas e um sabor indescritível. Respeito aos ingredientes e visual atraente. Perfeito.

Sem música, dava para escutar o silêncio do lugar, no meu caso feito de suspiros. Além da comida e da bebida, eu prestava atenção no vento que sobrava devagar quando a garoa dava trégua e derrubava uma folha seca que se juntava as centenas espalhadas no pequeno jardim cravado no meio do restaurante. Parece que ninguém falava, ou falava muito baixo, e os talheres cuidavam para não cair sobre os pratos e interromper a harmonia da sala. Sozinha, eu prestava atenção em tudo.

Ostra al palo cortado con ajo blanco y negro.
Olhei para o diagrama símbolo do yin e yang da filosofia chinesa desenhado no prato, acho que reforçava a sensação de estar vivendo um momento especial. Sabor e beleza de braços dados, complementando-se, masculino e feminino abrindo o caminho aos ingredientes tão bem trabalhados. Dois caldos, um quente (yang) e outro frio (yin) e ostra! O equilíbrio que buscamos e que é tão difícil de atingir.

Toda la gamba.
Gamba a la brasa, arena de gamba, rocas de tinta, patas fritas, jugo de la cabeza y esencia de gamba.
Hora da entrada triunfal do camarão, feito na brasa, não poderia ser melhor. As pernas crocantes contrastavam com o camarão servido quase cru, as carnes e frutos do mar são servidos assim, perto do estado natural, com pouca intervenção do fogo. Verdadeira sinfonia de acordes harmoniosos. Tempo de calmaria no mar.

Lenguado a la brasa a la manera meunière.
Telo de leche, mantequilla tostada, limón y tápenas. Piel de flores y cítricos.

O tradicional prato é reinventado com maestria. Criatividade, mas também gosto. Francês no prato e no copo completando-se. Às vezes o vinho parecia que iria brilhar sozinho, daí entrava o prato e os dois se entendiam em sintonia. Olé! O linguado é grelhado, o molho vem ao lado, a flor da alcaparra dá um toque cítrico. Surpreendentemente saboroso, leve e fresco. A pele, servida em outro prato, estalava ao contato com a língua que recebia as flores como prêmio. A foto não diz tudo o que é o prato.

Bacalao en brandada
Estofado de tripa, espuma de bacalao, sopa al aceite de oliva, escalonias con miel, tomillo ají. Contraste vegetal.
O gosto era tão bom que eu nem me preocupei com a descrição “estofado de tripa”, ou seja, um guisado de tripa. Nunca comi nada igual. Noto que os pratos sempre trazem contrastes, quente e frio, doce e azedo, ou amargo, crocante, salgado, ácido, ou o quinto sabor, umami. Na cozinha, no restaurante e na mesa estão elementos que lembram as formas mais simples de cozinhar e a natureza: fumaça, pedra, madeira. Para acompanhar: vinho do Priorat, ou Priorato, a nova Espanha vinícola, sul da Catalunha despertando paixões e ganhando o mundo ao lado dos já festejados Rioja e Ribera del Duero. Encorpado, forte, elegante. Ostentam a Denominación de Origen Qualificada (D.O.Q.).

Cochinillo ibérico en blanqueta al riesling
Terrina de mango y trufa de verano, remolacha, ajo, concentrado de naranja y pistilo al azafrán.
A mão de Jordi entrou aqui para tentar reproduzir os aromas do riesling, com certeza.Trufas, beterraba, manga, alho. Vontade de lamber o prato, de gritar, de dizer que vale a pena buscar novas experiências. Jordi é conhecido pelo trabalho de extrair aromas, levar as essências para o prato, já fez vários doces inspirados nos aromas de marcas famosas, como Gucci, dentre outras, agora inverteu a ordem e acabou de criar um perfume de limão, o Nüvol, inspirado num doce. Fresco, suave e delicioso como um sorbet de limão.

Salmotene cocinado a baja temperatura
Relleno de paté de su hígado y ñoquis de hierbas anisadas, naranja y azafrán.
Foi o único prato de sabor forte, não estamos acostumados ao gosto do caldo assim. O peixe estava no ponto, cozido em baixa temperatura, mas não consegui comer. O nhoque era macio e saboroso e desfrutei, ainda mais acompanhado por um Tondonia, que fiz questão de fotografar, porque é um gosto que permanece, marcante, e eu já tinha lido depoimentos apaixonados sobre o vinho, não resisti. Fiquei sentindo o aroma por muito tempo antes de beber. Assim foi com os outros vinhos, uma viagem, um capítulo a parte. Obra do sommelier Josep.

Adaptación de steak tartar con helado de mostaza 2009
y patatas souflé, tomate especiado, compota de alcaparras, encurtidos y limón, praliné de avellanas, salsa bearnesa de carne, pasa de oloroso, cebollino, pimienta sechuan, pimentón de la Vera y curry, bolitas de helado de mostaza y hojas de mostaza.
Acho que nunca mais esqueço esse sabor e a textura da batata e das “bolitas de helado de mostaza”. Eu não tinha mais fome, é claro, mas não conseguia parar de comer. Um tempero para cada batata “suflada”, não sei o que será de mim agora. Foi o melhor steak tartar que já comi.

Ventresca de cordero con pimiento y tomate a la brasa
Higado de torcaz con cebolla, nueces caramelizadas al curry, enebro, piel de naranja y hierbas.
Quando foi levantado o vidro, o aroma da “escalibada” e do cordeiro na brasa invadiu meu prato. Sabor e o ponto de cozimento como tem de ser. Ainda bem que tinha pão para raspar o prato, precisei dele durante a refeição e isso não aconteceu apenas uma vez.

Higado de torcaz con cebolla

Nueces caramelizadas al curry, enebro, piel de naranja y hierbas.

Pombo, fígado, cebola, nozes, zimbro, curry, casca de laranja, ervas, uma combinação que exige talento, sem dúvidas. Sabores equilibrados e a genialidade dos irmãos aparecendo no prato mais uma vez.

Cromatismo naranja
Naranja, mandarina, yema de huevo, fruta de la pasión y zanahoria.
Tão bonito que fiquei olhando por alguns minutos, eu acho. Tirava uma foto, olhava. Tirava outra, olhava. Quando, finalmente, provei foi um delírio. Nem precisava ser bom, mas era. Como pode alguém produzir alguma coisa assim, pensei. Novamente a vontade de lamber o prato. Uma sobremesa perfumada e surpreendentemente deliciosa.

Sotobosque
Remolacha, chocolate, mandarina, haba tonka, cacao y shiso.
Crocante, delicado, macio, gostoso de querer repetir. Foi como um passeio outonal regado a chocolate, pode haver coisa melhor? Aliás, outono é a minha estação preferida.

Postre láctico
Dulce de leche, helado de leche de oveja, espuma de cuajada de oveja, yogurt de ove y nube.
Um clássico da casa, fui avisada. Muitas texturas com o mesmo ingrediente. Suave e doce na medida não dá vontade de parar de comer. E o vinho que acompanhou, então, acho que foi um dos mais marcantes.

El Celler de Can Roca (3)

23 novembro, 2011 às 19:01  |  por Jussara Voss

Depois de tantos pratos, ainda tinha a caixa surpresa com um pouco de frutas, caramelos, gelatinas e chocolates. Uma caixa para, antes de comer, olhar, olhar, olhar e descobrir.

 

Tinha até maria-mole. Deliciosas surpresas muito bem-vindas: doces, cremosas e refrescantes, um mimo antes da despedida.

Ao final do banquete, pareceu tudo muito simples, feito despretensiosamente, ao acaso… claro que não, “há muita intenção”, como escutei. Esse é o segredo. Eles querem agradar e conseguem. São pessoas simples demais. Josep me contou que eles cresceram no restaurante dos pais, que funciona ao lado do El Celler até hoje, onde a equipe toda almoça. Embaixo a cozinha, em cima os quartos e  a sala da casa era o restaurante. Quer dizer, conviveram nesse ambiente desde crianças, deu no que deu. Visite o site do restaurante para conhecer um pouco mais, e, se puder, vá até lá. A foto da abertura mostra a comemoração deles quando alcançaram o segundo lugar na The World’s 50 Best Restaurants. A terceira estrela Michelin chegou em 2010. A minha recomendação é pedir o menu mais completo, o chamado “festival”, para conhecer um pouco mais da cozinha e da adega dos irmãos Roca, que merecem mesmo estar comemorando as vitórias.

O menu de vinhos que vale cada gota e acompanhou o menu “Festival”:


Albet I Noya Cava El Celler Brut D.O.
Niepoort Navazos 10 D.O. Jerez
Alphonse Mellot Génération 06 A.O.C. Sancerre
Colet Navazos Extra Brut 06 D.O. Cava
Viladellops 10 D.O. Penedès
Baillot Millot Les Narvaux 05 A.O.C. Meursault
Nelin 09 D.O.Qa. Priorat
Dr. Bürklin-Wolf Kirchenstück 05 V.D.P. Pfalz
Tondonia 97 Blanc D.O.Ca. Rioja
Oloroso del Puerto Lustau Almacenista D.O. Jerez
Valdeolmos 09 D.O. Ribera del Duero
Idus Vall Llach 05 D.O.Qa. Priorat
B-Jordan Rieslaner Auslese VDP Pfalz
Niepoort Colheira 84 D.O.C. Porto
Ino Jaume Serra D.O. Emporda

Mais uma vez, depois de muitas alegrias, não resisti a foto com eles.

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Viagem até Girona e ao El Celler de Can Roca

20 novembro, 2011 às 22:38  |  por Jussara Voss

Pensei em dar um descanso aos leitores e para mim também mas, na verdade, não apareci por aqui por conta de uma série de fatores, e também porque depois de um grande banquete sempre fica um vazio, não sei por onde começar, fico sem fome e com a sensação de que não vou conseguir expressar tudo o que quero. Estou em Curitiba, mas minha cabeça ainda gira pela Catalunha tamanho foi o impacto com o que comi, vi e senti. Agora é preciso colocar a panela no fogo e seguir. Essa divagação levou-me até Mário Quintana. “A gente pensa numa coisa, acaba escrevendo outra e o leitor entende uma terceira coisa e, enquanto se passa tudo isso, a coisa propriamente dita começa a desconfiar que não foi propriamente dita”. Tudo isso é apenas uma introdução ao post sobre os irmãos Roca. O motivo da minha viagem: conhecer o El Celler de Can Roca. Fazia tempo, antes mesmo de eles alcançarem o segundo lugar na lista The World’s 50 Best Restaurants, que eu sonhava com esse dia. Fiquei impressionada com eles no evento da Prazeres da Mesa em 2009. Pesavam também os comentários de que seria “o melhor do mundo”. Então decidi que não dava mais para esperar. Desembarquei em Barcelona, depois de uma excelente viagem e fui de trem até Girona, paguei menos de 7 euros pelo bilhete, mas fui sacolejando e parando em todos os povoados do caminho, deu tempo de quase ler um livro inteiro. Tive a sorte de um jovem atencioso levantar a minha mala, pois nada de rampas para ajudar o embarque. Nem indicações sobre as paradas. O trem era para locais. Na volta, ainda com muita água desabando dos céus, resolvi encarar um táxi, afinal eu merecia conforto depois da experiência vivida no dia anterior. Dividindo por dois, ida e volta, valeu a pena. Não achei o trem direto que deve ser um pouco mais caro, porém mais confortável e recomendável.

Cheguei ao hotel chamado “Bellavista” numa sexta-feira à noite. AC Palau de Bellavista é um hotel da rede Marriot. Perto do bairro murado pelos judeus para se protegerem das perseguições, o local faz jus ao nome. O lugar de dormir é acolhedor, confortável, com ótimo preço pelo o que apresenta e a principal qualidade, além da vista da cidade, é que tem um excelente café da manhã, essencial para mim, e ainda contava com um balcão, ideal para aqueles que tomam o desjejum sozinhos. Porém, antes do café eu precisava mesmo jantar e dormir bem para o almoço no dia seguinte. Os irmãos Roca administram outros restaurantes. Que risco, pensei. Acredito que qualidade mesmo só se tem quando os donos estão perto, no comando. Como já tinha experimentado em Barcelona o Moo, no hotel Omm, e tinha gostado muito, achei que, uma vez estando em Girona, deveria também conhecer o Numun. Adivinha onde? No subsolo do hotel. Que feliz coincidência.

O jantar começou com pequenas panquecas, leves e boas, nada demais. Seguiu com foie gras e manzana. Opa, começa a aparecer o talento dos Roca’s. O foie frio coberto por finas fatias de maçã foi uma grata surpresa, tudo bem, era uma salada, mas que sabor. Era apenas o primeiro prato e já achava que tinha valido a pena viajar 11 horas para comer aqui. O serviço era muito rápido, pensando bem, talvez rápido demais.

Terceiro prato. Apesar de alguns sabores diferentes e de a pele estar crocante, o peixe não emplacou, parecia pronto há muito tempo, um crime. Foodies detestam isso.

O quarto prato demorou, achei que era bom sinal e foi. O aroma já agradou, bom, muito bom. Gostei do corte da apresentação, diferente. Pedi ao ponto e veio de acordo, mas comendo achei que poderia ser mal passado. Tinha cravo, tamarino, especiarias, muito saboroso. Sempre acho o magret meio insonso. Ainda bem que tinha pão, o molho era perfeito, assim como a combinação dos sabores. Deixa o pessoal descobrir essa nova apresentação do pato…

A sobremesa ganhou pontos. Só conseguia pensar que no dia seguinte encontraria Jordi Roca pessoalmente. Nota do jantar? Acho que 2.5 – da escala de 1 a 5 – o chocolate e a castanha crocante ajudaram. Não posso mais tomar café à noite, mas não deixo de pedir, se tiver descafeinado melhor, quero ver o que vai acompanhar a bebida. Hora de ir dormir. Acho que o restaurante não diz nada do que é o El Celler de Can Roca, mas se considerar que você vai jantar, beber e subir um lance de escada para dormir está mais do que bom.

Restaurante Numun
Menú gourmand
Aperitivos
Timbal de manzana y foie com emulsión de manzana y perifollo, aceite de vainilla y reducción de gamacha
Suprema de dorada salvaje com alioli de menbrillo y salsa de granada
Magret de pato com salsa de naranja y clavo
Turrón de frutas secas com su garrapiñado y reducción de Pedro Ximenez
39€ IVA incluído

El Celler de Can Roca: poderia estar em primeiro

8 novembro, 2011 às 20:04  |  por Jussara Voss

Juro, eu ainda estou digerindo o que eu comi e bebi, não consigo acreditar, você vai ver a lista e as fotos depois. Foi demais. Não falo de quantidade, falo de qualidade. Também não sei como será a minha vida daqui em diante, sei que terei um bloqueio fatal, sem me atrever a colocar os pés na cozinha por um bom tempo, no mínimo. Nunca mais brandade de bacalhau, nunca mais um linguado meunière, nunca mais steak tartar. Passei umas quatro horas mais ou menos comendo e bebendo e pelo menos umas duas suspirando a cada garfada ou gole. O começo do banquete foi mais visual digamos, os snacks davam uma pista do que estaria por vir. Quando entrou o menu “festival”, o maior que é servido no El Celler de Can Roca, aí sim veio o delírio. Eu pensei em chorar, mas, convenhamos, sozinha na mesa, já bastavam os suspiros, baixinhos, é claro. Os irmãos Roca são artistas, chef, sommelier e patissier por acaso. Dizer que são geniais é pouco, são sensíveis e talentosos, transformam alimentos e escolhem e combinam os vinhos com os pratos de maneira soberba. Fazem parte da elite de profissionais que vem se dedicando à gastronomia, não tenho dúvidas. Eu ainda volto a falar deles. Juro, mais uma vez, meu almoço foi incrível, um dos melhores dos últimos anos. Não esqueci o René Redzepi, nem o Andoni Luiz Aduriz, muito menos Ferran Adrià, dentre poucos outros que conheço, mas definitivamente os irmãos Roca estão no mesmo patamar e poderiam estar em primeiro lugar na superlista dos 50 melhores restaurantes do mundo, sem dúvidas. Se alguém me perguntar, mas o El Celler é melhor do que o Noma? Difícil responder, são diferentes. Vou tentar definir. O Noma é mais exótico, o Mugaritz é mais intelectual e diferente, e o El Celler de Can Roca é o que tem mais sabor que lembra sabores mais conhecidos para nós, todos têm técnica e criatividade de sobra, muito bom gosto e refinamento também, enfim, destacam-se, e o El bulli, que não existe mais, esse é hors concours, foi o precursor desse movimento que elevou a gastronomia ao estrelato.

Dicas de San Sebastian

20 fevereiro, 2011 às 22:25  |  por Jussara Voss

Atendendo pedidos. San Sebastian, no País Basco, é um paraíso para quem gosta de comer bem, sem dúvida. Lá é só ficar andando pelo centro velho que encontrar dezenas de casas que servem tapas não será difícil. Para conhecer  a comida do local basta repetir a fórmula: entrar-comer-sair. Várias vezes: entrar-comer-sair. É isso. Bacalao con pimientos, os grelhados e o jamón ibérico estão entre os meus preferidos. Alguns bares têm mesas, mas na maioria o cliente fica em pé, no balcão, ou na rua, se o tempo permitir. Não olhe para o chão e siga em frente. Você vai entender o porquê. Para um programa menos turístico, a minha preferência, sugiro uma passada no Dickens e no El Whisky. A Ale Forbes diz que o melhor restaurante, fora os estrelados do Michelin, é o Bernardina. Ainda não conheço. Não deixe de ler o post dela sobre a cidade aqui. Eu sugiro também  o Nestor, para um chuletón com tomates, a Casa Vergara e o pequeno restaurante do Martín Berasategui, o Bodegón Alejandro, onde o chef começou. Chegue cedo nos outros e reserve no Bodegón. Mugaritz, Arzak, Martín Berasategui e Asador Extebarri estão na minha top lista. Não ficam no centro da cidade e estão entre os melhores restaurantes do mundo. Também é preciso reservar com antecedência. Ainda não fui no Elkano para comer frutos do mar grelhados e no Akelare, do Pedro Subijana, e sei que preciso ir na próxima viagem. Para saber mais, pesquise no blog em Espanha, ou coloque “San Sebastian”, ou ainda o nome dos restaurantes listados na caixinha “pesquisa” à direita, para saber mais detalhes. No meu antigo endereço (aqui) também tem algumas referências. Bom apetite e boa viagem!