Le Chateaubriand
Com uma lista enorme de restaurantes para ir, apelei para as dicas do Jacques Trefois, em quem confio totalmente nesse quesito. Ele foi categórico: “Se fosse um só eu iria no Le Chateaubriand, caso não achasse lugar no Le Baratin. Le Troquet ou Chez Michel são também ótimos”. E eu ainda tinha aquela listinha de quatro bistronomiques imperdíveis, Le Ribouldingue, Lês Papilles, Le Repaire de Cartouche e L’Entredgeu, testados por ele no ano passado. Bem, sem sucesso no Le Baratin, fiz promessa secreta e entreguei o meu pedido aos deuses e protetores dos foodies e gourmets para conhecer o Le Chateaubriand. Na temida ligação para fazer uma reserva a esperada resposta de que o local estava lotado, mas, para o meu delírio contido, havia uma chance na segunda rodada da noite e, seco e direto, o atendente recomendou: “não adianta chegar antes das 21h30”. Mesmo assim, achei que seria prudente adiantar 10 minutos, o que garantiu o terceiro lugar na longa fila que aos poucos foi se formando do lado de fora do restaurante, eles não deixaram entrar mesmo, e olha que o termômetro deveria estar batendo os cinco graus ou menos.
A noite estava fria e nós firmes, porque, afinal, não daria para deixar Paris sem conhecer a comida desse francês criativo, filho de bascos espanhóis, Iñaki Aizpitarte, que faz sucesso por lá. Pontualmente, às 21h30, como por milagre, fomos convidadas a entrar e apesar de quase todas as mesas ainda estarem ocupadas, já poderíamos esperar ao lado do balcão do bar tomando uma taça de vinho e, quem sabe, apressar discretamente os clientes do primeiro turno, tudo bem, já era possível sorrir depois da certeza de que conseguiríamos jantar. Fomos acolhidas, já instaladas numa confortável mesa, pelo Sébastien, um simpático e afônico francês que falava português, aprendido com a namorada brasileira, e que se desdobrou em explicações e gentilezas. O lugar é pequeno, agitado, muito claro, quase sem decoração, como um simples restaurante de bairro e você fica colada na mesa do vizinho. Informadas de que iríamos enfrentar um menu degustação de cinco pratos no escuro sem outra alternativa, senti um calafrio, pois dividia a mesa com quem não aprecia muito a gastronomia moderna, eu sabia disso. Mais promessa para tudo dar certo. O menu a prix-fixe, que muda diariamente, é a única opção e garante o preço baixo para esse tipo de restaurante, 45 euros.


Começamos com os snacks sem tropeços, ao contrário, com exclamações. Gosto de começar com alguma coisa simples e quentinha, como pãezinhos de queijo. Depois foi a vez de uma saladinha de siri, com quinua e raiz-forte, quase caseira e deliciosa. Seguimos com a mozzarella fumée com repolho roxo e coração de pato com cinco sementes: dois snacks com sabores novos e fortes e antes do primeiro prato veio a sopa de salsão, com zest de laranja e trufa. Com a chegada triunfal das vieiras, com beterraba e rabanete, que mais parecia uma obra de arte, dei um acabamento com o pão para a foto final comprobatória do êxito da iguaria, vi que podia relaxar, era impossível não gostar da refeição. Sem estrelas Michelin, Le Chateaubriand subiu 29 posições na lista dos 50 melhores restaurantes da revista Restaurant, como um foguete surpreendente, deixando os tops chefs franceses atrás, está na 11ª posição. Não lembro de fundo musical vindo da cozinha de que tinha ouvido falar, talvez porque o autodidata Inãki estivesse duas casas mais para frente cuidando do novo restaurante, o Le Dauphin, que já foi premiado pela sua arquitetura, projeto Rem Koolhaas, pela Le Fooding. Eu tinha lido que ele abriria outro restaurante, mas não imaginei que estava, naquela noite, ao lado do bar de tapas e comidas tradicionais francesas, como fui perder essa oportunidade de conhecer o lugar, não sei. Ao final do banquete veio o veredicto, a comida do Iñaki, que consegue uma perfeita sintonia entre produtos frescos e técnica, é extremamente delicada e saborosa, tão saborosa a ponto de seduzir até quem tem medo de combinações ousadas.
Vieira com verduras e lichia: foi de fazer perder o juízo e raspar o prato.
Esse prato tinha um peixe do país Basco, um tipo de bacalhau, que chega diariamente ao restaurante, com coentro, abacate e ervas e estava simplesmente perfeito.
O lombo de porco ibérico feito à baixa temperatura, comme il faut, servido com alcaparras crocantes, que eu nunca tinha comido, os queijos excepcionais, um sorvete de leite, com maçã e uma sobremesa de chocolate, que eu esqueci de fotografar, me deixaram completamente feliz. Pequenos pedaços de abacaxi, incrivelmente doces, com temperos indianos, servido como digestivo, finalizaram a refeição. Foi um jantar e tanto! Abaixo, Sébastien, que treinou o seu português e foi extremamente simpático, e os jovens cozinheiros na pequena cozinha do divino Le Chateaubriand.
Le Chateaubriand
129, Av. Parmentier, 75011, Paris, 00 33 1 43 57 45 95
Saiba mais sobre o chef no site http://www.chow.com/food-news/54331/bistronomics-101/










































































