Conheci Tsuyoshi Murakami, um dos chefs que participaram do Congresso Internacional de Gastronomia, dentro da programação da Semana Mesa São Paulo, antes da apresentação dele. Murakami optou em não dar uma receita, mas abordar a “evolução do kappo da era meiji para era heisei”. Falando em japonês, uma maneira de descontrair, ou acordar a plateia, já que era a primeira apresentação do dia, no começo da manhã, Murakami buscou transportar o público para o seu país de origem. Se o Claude Troisgros é o carioca francês, Mura, como chamam os amigos, é o carioca japonês. Uma mistura de sotaques, tradições e jeitos peculiares que somam, não os distanciam da origem e os transformam em pessoas especiais e “brasileiríssimos”.

Quem o vê assim não imagina que pode encontrá-lo dando um show no seu restaurante, Murakami canta e não é tão sério como aparece aí, “é que japonês não dá risada”, brincou. A vida dele daria um livro, é uma “viagem”, ou melhor, uma procura. Nasceu no Japão e veio para o Rio de Janeiro ainda pequeno, voltou pra lá depois da expulsão do colégio. Foi trabalhar e “encontrou” a cozinha. Depois do Japão foi parar em Nova York, passou por Lisboa e rumou para Barcelona, onde trabalhou com chefs famosos, como Santi Santa Maria, e passou por muitas experiências gastronômicas, antes de retornar ao Brasil. Aqui, conheceu Susana, filha do dono da primeira casa Kinoshita, na Liberdade, com quem se casou. E foi lá que começou a mostrar seu talento e a praticar a “kappo cuisine” que me encanta, pois vai atrás de “sensações a partir de raras iguarias e exóticas combinações de aromas, texturas e sabores”. Ele explicou que é uma cozinha que mantêm as essências, como a tradição de começar com entradas e depois um, três, ou cinco pratos considerando na elaboração elementos como aroma, textura, cor e volume, por exemplo, até mesmo numa refeição mais simples, “que prepara para a vida”. Então, a refeição terá um caldo, ou sopa, ingredientes crus, depois fritos, ou cozidos, ou feitos no vapor e arroz, e poderá ter ingredientes ocidentais, como manteiga, trufa, alho, até no Japão é assim.

Murakami falou dos ingredientes usados, do preparo do shoyu “vintage” que serve no Kinoshita, da filosofia do restaurante que quer contemplar os sentidos: mental, emocional, físico e espiritual e deu dicas, como a de não ferver o shoyu para não perder o perfume.

Murakami: uma estrela brilhante em terras brasileiras
O Kinoshita estava na minha lista, infindável, dos “tenho que conhecer”, por isso, quando as amigas toparam ir até a nova casa no bairro da Vila Nova Conceição, aberta em sociedade com Marcelo Fernandes, ex-sócio do DOM, eu vibrei. Além de conhecer a comida do chef – eleito o melhor do ano pela revista Veja, na edição de 2009, entre outros prêmios – queria saber mais sobre ele, que circulava pelo evento e participava das palestras. Recebidas pelo mestre, nos instalamos no balcão – lugar perfeito para quem vai a restaurantes de comida japonesa – e comecei a sonhar vendo os pratos que saiam para as mesas.


Com a promessa de que receberíamos a mesma atenção que os chefes franceses participantes do congresso que também tinham escolhido o Kinoshita aquela noite, optamos por um dos menu degustação da casa, é claro, a melhor maneira de conhecer o estilo e o talento do chef. Quem cuidou da nossa refeição, muito bem, aliás, foi o simpático e competente Bjorn Olsson, um sueco que já passou pelo restaurante DOM ocupando a posição de sub-chefe lá. Além da recomendação de como comer alguns pratos, comece pela direita, não mastigue etc., prática mais ou menos comum hoje em dia, Murakami colocou mais uma: “respire”. Algo como, se entregue, aproveite, seja feliz. É isso que o chef quem passar aos seus clientes: emoção. Hoje, Murakami busca, além do aperfeiçoamento, o autoconhecimento, gostei, é claro. A comida? Genial. Ele é criativo, inspirado e talentoso. Vale a pena conhecer e se der, peça para o chef cantar.

Entrada
Atum marinado no missô, levemente grelhado, servido com molho teriaki.


Shot: ostra, ovas de salmão, ovas de ouriço, kauiarê, gema de codorna,
tabasco, molho a base de laranja, limão, shoyu. Instrução: dar uma
leve mexida e comer de uma vez, deixando escorrendo lentamente.

Ramaguri: marisco japonês aquecido com manteiga de trufa. Foi o anotado, mas acho que a foto está trocada.

Pupunha grelhado com molho umeboshi.
Emoção: comida tem que ter movimento.

Carpaccio de robalo com um fio de azeite e a tangerina japonesa que
demora 18 anos para dar o primeiro fruto.


Fechar os olhos e sentir: eu fui avisada, ainda bem. Pode repetir? Da esquerda para a direita…




Ovas de tainha com nabo temperado e bottarga feita em casa, tempurá, salmão, carne empanada e sobremesa para finalizar o banquete! Obrigada mestre.