Jorge Ferlin: aula de mestre
Talvez os alunos do curso de Tecnologia em Gastronomia da Universidade Positivo não saibam avaliar a aula que tiveram recentemente no restaurante Durski com um dos mais talentosos profissionais do vinho em Curitiba, mas quem conhece um pouquinho sobre o assunto soube valorizar as horas passadas com Jorge Ferlin, consultor e responsável, juntamento com Júnior Durski, pela adega mais premiada e completa do Brasil.

Itália
O tema da aula foi a Itália, um dos países mais tradicionais, ao lado da França, quando o assunto é vinho. São os dois maiores produtores e consumidores de vinho. Na Itália a produção é de 60 milhões de litros de vinho, consumo de 58 litros per capita. Ferlin fez vinhos até os 18 anos na casa da família. Empresário, passou para o outro lado e começou a viajar e a beber os melhores vinhos em cada país visitado, sem esquecer de provar a comida do lugar. “A melhor maneira de aprender a harmonizar com comida é no lugar em que o vinho é produzido, eles sabem o que combina”, ensina o mestre, que comprovou na prática a diferença entre fazer e beber e aprendeu a importância do terroir. “É preciso conhecer as peculiaridades de cada país”, afirmou. “Na Itália são 20 regiões e cada uma tem seus grandes vinhos”, complementou, descrevendo região por região e seus vinhos principais. Na Sicília o Nero Dávila, a uva Talrasia na Campania, que dão vinhos encorpados. Na Toscana, o vinho que deu fama ao local, o Chianti, é a maior produção do país. Aqui começa a revolução dos vinhos italianos com o San Giovesi. Entre Siena e Florença, os elegantes Brunellos, que, um pouco mais abaixo, disputam a supremacia dos vinhos italianos com os Barolos – o primeiro vinho que os reis tomaram. No Piemonte, os Barbarescos e Barolos. No Piemonte e na Lombardia também, é o vinho Asti. A cidade é Asti e o processo é Asti, onde o mosto é separado e centrifugado a baixa temperatura para não fermentar, o que é feito na hora da venda, quando é engarrafado. Com a uva Moscatel o resultado é um vinho doce e suave. “Sempre é hora de tomar, harmoniza com bolo de morango”, exemplifica Ferlin. A Lombardia é o local de grandes espumantes fabricados com o método champenoise e com uvas francesas, a segunda fermentação é feita na própria garrafa. Veneto é a região dos Valpolicelo e Bardolinos, vinhos leves e frutados para serem tomados jovens. O grande vinho do Veneto é o Amaroni, que chega até os 16 Cº e é macio. “Acompanha pratos mais estruturados. Um vinho para meditar. Vale a pena experimentar”, provocou. Emília-Romana é lugar dos Lambruscos. É o Prosecco, um vinho suave, levemente gaseificado, com mais de dois mil anos de história. Ferlin falou também sobre a fiscalização do governo italiano e sobre as quatro denominações de mesa, que não aparecem nos rótulos. Começando com o vinho da Távola, que não tem muita qualidade para exportação. Depois o DOC – denominação de origem controlada – produzidos em determinadas regiões, com uma uva e processo específicos. DOCG – denominação de origem controlada e garantida. Treze produtores têm essa qualidade. Ano, região, produtor, uva, além de um vinhedo próprio. IGT – indica que é de uma região e safra determinada. A Toscana também dá os grandes vinhos de sobremesa, como o Vin Sant. Outro vinho de sobremesa é o Passito de Panteneria feito em uma ilha próxima da Sicília e da Sardenha. Os vinhos italianos são gastronômicos, pedem comida, “abrem aromas e sabores”, dá a dica o professor, por isso, a melhor forma de conhecer é viajando para o país, que tem mais de 70 mil receitas registradas.
Combinando
Usamos os vinhos italianos também na gastronomia, em marinadas, reduzidos, ou flambados e como combinar vinho com comida? “É só seguir um princípio básico. Você harmoniza por contraste, ou por similaridade, isso é, no mesmo estilo do prato, ou totalmente diferente”, ensinou. “Uma taça tem mais de 600 substâncias vivas que se alteram e se modificam, é precido decifrar os componentes do sabor para realçá-los ou contrastá-los. Às vezes, pode-se também tentar uma novidade”, disse. Os participantes deram suas contribuições: um espumante português da Bairrada (uva baga) com feijoada, garantiu a jornalista e blogueira especializada Marian Guimarães. Churrasco com brut rosé: “as papilas vão agradecer”, surpreendeu Ferlin. Um vinho pesado, com taninos fortes vai destruir um peixe, por exemplo, e também comidas salgadas, “é uma das piores harmonizações, não vai dar nem para comer, nem beber”, explicou o especialista, que também ensinou como servir, “nunca colocar mais de uma terço da taça, pois o vinho precisa respirar”, e deu dicas de como montar uma carta de vinhos num restaurante, “80 a 120 rótulos já pode fazer uma carta brilhante”, de como segurar a garrafa e a taça, o que fazer com a rolha depois de o vinho aberto, quem experimenta primeiro e ainda falou sobre os vinhos do império Durski, é claro, para matar a curiosidade dos participantes da aula.
A carta do Durski tem mais de 1.700 rótulos e cerca de 72 mil garrafas, sendo que muitos vinhos, os mais raros, principalmente, tem apenas um exemplar. Quase todos os países estão representados, pelo menos, os “grandes” de cada local. Um dos mais caros é um Chateau D’Yquem, 1904, R$ 56 mil. Um Petrus foi o mais caro vinho vendido no restaurante. Mesmo com tanta escolha é possível trazer um vinho de casa, a rolha é de R$ 50,00. Mas use o bom senso, traga só se for um vinho especial, afinal, a casa certamente terá uma opção que vai agradar. Ferlin disse que recebe clientes de outros Estados, que vem aqui por causa dos vinhos e não se preocupam com o que pagam, mas são poucos. A adega está avaliada em cerca de US$ 1,7 milhão e está segurada, naturalmente. O sommelier, que aprendeu tudo o que sabe na prática, disse que foi preciso elaborar uma versão resumida para atender os clientes mais assíduos que não gostam de perder tempo nas escolhas mais simples. Achou muita informação? Isso foi só uma pincelada, a aula teve muito mais. Depois, um jantar, excelente, como sempre, no Madero. Antes de terminar, reproduzo a última dica do mestre: a melhor maneira de desenvolver o paladar é experimentar vinhos diversos. “O maior erro é tomar sempre o mesmo vinho”, concluiu.
A aula prática sobre vinhos para estudantes da Universidade Positivo aconteceu no restaurante Durski, que é parceiro da escola, como o Madero, o Senac Paraná, a MM Vinhos e a Casa da França. O coordenador do curso superior de Tecnologia em Gastronomia da Universidade Positivo, Dario Paixão, comentou o crescimento da área em 300% no último ano, avisando: “estamos formando especialistas para um mercado em expansão”. Recentemente, a escola ampliou a estrutura do curso e investiu em novas parcerias.
Um dos vinhos provados.

























