Os cinco melhores lançamentos curitibanos de 2014

29 dezembro, 2014 às 17:40  |  por Filipe Albuquerque

ruidomm

Os malucos do espertíssimo site Defenestrando me convidaram pra participar de uma votação dos melhores da música de Curitiba. Não sei se podia contar isso, mas foi de fato um prazer elaborar uma relação curta e rápida das coisas mais legais que vi e ouvi este ano criadas na cidade. Até porque reforça a impressão de que Curitiba tem potencial pra mais, já que o volume de produção atual é animador.

Como não pretendo entregar detalhes da votação elaborada pelo site, registro apenas a minha lista de cinco melhores lançamentos do ano da produção local. Alguma coisa boa certamente vai ficar de fora. Porque eu não consigo, sinceramente, acompanhar o ritmo de lançamentos que são publicados a cada minuto na internet, sejam produções locais, nacionais ou estrangeiras. Tenho certeza de que passei batido por uma centena de discos, eps e singles matadores ao longo do ano. Proporcionalmente, devo ter perdido uma penca de boas produções curitibanas/paranaenses. Paciência. Talvez um garoto de 17, 18 anos não deixaria preciosidades passarem ao largo. Já pra alguém pra lá dos 35 — meu caso — me parece inevitável.

Curto e direto, seguem os meus cinco discos/lançamentos curitibanos mais interessantes de 2014. Alguns desses artistas já acenam com produções pro ano que vem.

This Lonely Crowd – Möbius and the Healing Process
O quinteto erra muito pouco. Desde o primeiro, Some Kind of Pareidolia (2011), os fanáticos pelos irmãos Grimm e Lewis Carroll entenderam que era possível viajar no universo etéreo e fantástico dos contos de fadas via barulho e pancadaria. Möbius é um massacre de guitarras à Slayer/Napalm Death, e vozes fantasmas contam baixinho a história da fita de möbius, sem começo nem fim, e da fuga de uma garota que se não é alcançada pelo mal, também não se vê livre dele de uma vez por todas. “Gentle” e “Homeless Dolls” são bons resumos da tormenta.

 


Lindberg Hotel — Lindberg Hotel II
Juntar guitarras e harmonias vocais com qualidade é um desafio pra poucos. Entre os independentes do país, o Lindberg Hotel é um dos casos raros que consegue enfrentar o monstro e dominá-lo. O álbum lançado este ano dá sequência à ideia do primeiro, homônimo, desta vez com mais apuro, ainda que as gravações sejam assumidamente feitas em baixa fidelidade. Beatles, Big Star, Neil Young, Teenage Fanclub e Dinosaur Jr formam o mundo em que Claudio Romanichen e Eduardo Ambrosio querem habitar. Ótimo pra quem está disposto a ir atrás de coisa nova e se depara com eles. “Status Quo” poderia ser o lado b de um single de Grand Prix, do Teenage Fanclub. Falta ao LH apenas a força do ao vivo, e talvez um baterista físico imprimisse à dupla o peso que as músicas pedem sobre o palco. No disco, a bateria eletrônica funciona bem; ao vivo, às vezes pela deficiência dos equipamentos dos bares onde tocam, a percussão parece longe.


ruído/mm – Rasura
Eu sempre tive dificuldade com música instrumental. Sobretudo as muito longas. Faço parte da turma da guitarra retorcida, baixo estalando na cara do ouvinte, bateria pesada, das músicas curtas e certeiras, das que não saem da cabeça por dias. Acrescidas das experimentações certas (pra cada música, não algo pré-estabelecido), são difíceis de não conquistar na primeira dose. É por isso que nem tudo o que é classificado post-rock atualmente me convence. “Rasura” revela o ruído/mm na melhor forma: pegam de surpresa ao acrescentar peso onde normalmente se espera o silêncio; assopram quando a expectativa é a agressão. E mantendo a tradição, são fãs de experimentações. A espetacular “Transibéria” é de botar no repeat e ouvir três, quatro vezes seguidas, com os olhos fixos na capa (uma das melhores já vistas em anos) no volume máximo.


Sonora Coisa — Lon G
O desleixo com que o Sonora Coisa compõe é um trunfo. A banda transpira saudade dos anos 90 e Lon G deixa o saudosismo evidente. Não à toa, o ep foi lançado pelo Patetico Records, selo de Tom Lugo, da banda americana Stellarscope. A abertura, “Arabian Spring”, ressuscita fantasmas do passado, da escola Sleepwalkers e Killing Chainsaw. A versão tristonha de “Friendship”, do Cigarettes, é um tributo verdadeiro à década de 90 e ao que as bandas da época conquistaram via fitas cassetes e fanzines trocados pelo correio.


Veenstra – Eidolons/Dagger
Lorenzo Molossi é a figura mais instigante saída do lado de baixo da cena musical curitibana. Literalmente: ele grava os álbuns da Veenstra (Peope & The Woods e Six Months of Death, ambos 2013, Journey To The Sea, 2012) no porão do escritório de advocacia do pai, no centro da cidade. O single lançado em setembro reforça a ideia de que tem algo errado com a cabeça do garoto. “Eidolons” incomoda e impressiona. Lorenzo conseguiu ser monótono e provocador em uma mesma faixa, em pouco mais de cinco minutos. Talento pra poucos. Com a versão de “Dagger”, do Slowdive, vai na esteira da Sonora Coisa e presta homenagem a um dos grandes nomes dos anos 90, de volta aos palcos e com um fã-clube brasileiro babando de vontade de vê-los no país.

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