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Só quero treinar: Instagram mostra o assédio sofrido por corredoras nas ruas do Brasil

Perfil mostra assédio sofrido por mulheres durante os treinos
Perfil mostra assédio sofrido por mulheres durante os treinos (Foto: Divulgação)

Criado em novembro, perfil já conta com mais de 8 mil seguidores, dando um indício do tamanho do problema vivido pelas mulheres do Brasil

“Eu sempre gostei de correr na rua e toda vez alguém mexia comigo durante o percurso. Teve um dia que eu parei de correr no meu bairro por medo de que acontecesse algo mais sério. Um dia, por volta das 15 horas, eu estava correndo no bairro Água Verde, em Curitiba, e reparei que sempre passava o mesmo carro por mim. Achei que era coisa da minha cabeça e continuei o percurso. Até que em um desses encontros, o homem parou o carro alguns metros antes e, quando eu passei por ele, este colocou o pênis para fora e começou a se masturbar. Fiquei com muito nojo! Voltei para minha casa correndo e passei a usar somente a academia do condomínio depois disso."

Esse é só um dos relatos trazidos pelo Instagram @soquerotreinar, criado em novembro do ano passado pela atleta amadora, professora de Biologia, mãe e esposa Giseli Trento Andrade e Silva, de 39 anos. Com menos de três meses, o espaço já conta com mais de 8 mil seguidores. Infelizmente, os relatos são variados, partindo das cantadas, tentativas de toque/tapas no corpo e chegando a situações de risco.

Mais do que um simples espaço para relatar problemas, o perfil traz dicas de segurança para as atletas e busca gerar uma empatia com os homens – há, também, relatos masculinos e uma tentativa de conscientização para esse público. Em nossa opinião, a solução desse problema passa por uma mudança na educação dos homens, assim como na forma como enxergam as mulheres: eles precisam se conscientizar que a cantada, as buzinadas ou qualquer comentário referente ao corpo não é um elogio.

Nós também já vivemos esse problema. Eu e a Fernanda corremos em ritmos distintos, então é comum não treinarmos juntos. Mesmo em dias nos quais saímos juntos para correr, já vi homens falarem baboseiras para ela em uma separação de poucos segundos: corríamos pela canaleta, eu desviei para um lado e ela para o outro. Também conheço amigas que tomaram “tapas” na bunda enquanto pedalavam pela cidade.

Vale ressaltar que, como corredores, somos todos colegas e, cabe aos homens e as mulheres abraçar e proteger pessoas que se sintam em risco. Se as pessoas se aproximarem e se protegerem, as chances de que algo aconteça diminuem sensivelmente. Que tal ficar mais atento e empático às mulheres durante os seus treinos? Vamos fazer a nossa parte!

Veja, abaixo, a entrevista com Giseli: 

Blog: Como surgiu a ideia do @soquerotreinar?

Giseli Trento Andrade e Silva: A ideia surgiu durante os treinos de preparação para uma meia maratona. No longão, geralmente saio muito cedo e vou sozinha. Durante o trajeto, ouvia várias cantadas, assovios, buzinas e olhares que me incomodavam muito. E pensava: “mas eu só quero treinar. Preciso fazer algo para combater o assédio”. Em conversa com minha cunhada, também corredora, veio a ideia de criar um Instagram sobre este assunto. Alguns dias depois da meia maratona, o IG foi criado, em 28 de novembro do ano passado.

Blog: Qual o objetivo principal do IG?

GTAS: O objetivo principal do @soquerotreinar é servir de alerta para todos que o assédio existe e precisa ser combatido. Ainda: queremos ser um canal para sensibilizar o público masculino a não praticar essas atitudes no seu dia a dia, provocando uma reflexão nas suas atitudes. Também, por meio das publicações, dos relatos de mulheres que já passaram por alguma situação de assédio, alertar para que elas tenham mais cuidado e atenção nos treinos. Há também publicações de estratégias e dicas de segurança.

Blog: Você já teve algum problema nos treinos?

GTAS: Além da corrida, pratico bike e natação (mas ainda não sou triatleta). Na bike, o problema também existe e é bem constante. Já passei por várias situações, mas uma que me deu muito medo, beirando o pânico, foi quando um moço de bicicleta passou por mim na rodovia e ficava olhando para trás com um olhar malicioso. O mesmo fez a quadra e voltou na rodovia pelo acostamento e ficava olhando, fazendo caras e bocas, como se falasse algo. Não sei se a intenção era assaltar ou algo pior, mas, quando ele fez a volta e pela terceira vez passaria por mim, vi crianças saindo de uma casa e lá entrei sem nem conhecer quem morava. Liguei para o meu marido me buscar e não concluí o treino neste dia. Foi uma sensação tão grande de impotência, que chegou a ser sufocante.

Blog: O perfil é super recente e já tem mais de 8 mil seguidores. Você acha que a seriedade/gravidade do assunto contribui para isso? Era um canal que as mulheres precisavam?

GTAS: Com certeza, não imaginava que uma verdadeira corrente do bem seria feita tão rapidamente. É tanto apoio e incentivo que recebo (não só das mulheres, mas de muitos homens também) que nem tenho como expressar tanta gratidão. As mulheres se sentem acolhidas, se percebem nos relatos e apuram mais o seu olhar para os casos de assédio. Um/a vai indicando para outras pessoas, e a causa tem sido levantada bravamente. Muitas mulheres já sofreram assédio nos treinos e ficam com vergonha de contar para marido, namorado, pais. É preciso ter coragem e falar sobre o assunto. Só assim conseguiremos diminuir as ocorrências.

Blog: Dentre os relatos recebidos, qual é o principal problema percebido pelas mulheres?

GTAS: O mais recorrente é a cantada, que geralmente é feita por motoristas que passam de carro. Ainda há muitos relatos de olhares maliciosos e intimidadores em academias, na ida, na volta e durante os treinos, pelo fato de as mulheres usarem legging, short ou top. Também existem relatos com tentativa de estupro, assalto, homens se masturbando em locais públicos. São muitas situações absurdas.

Quem faz o blog

Vinicius Boreki – É jornalista e descobriu a corrida de rua como forma de perder peso e virou paixão. Minhas primeiras provas foram em 2011, ainda com 5 e 10 quilômetros. Parti para os 21 km em 2013 e permaneci nesta distância até 2015. Em 2016 e 2017, concluí os 42 quilômetros da Maratona de Curitiba. Meu propósito é finalizar uma maratona por ano a partir de agora. Maria Fernanda Takahashi – Formada em jornalismo, começou a correr em 2011 – contrariando a orientação dos médicos devido à uma protusão discal. Seguiu fazendo provas de 5 e 10 km até concluir suas primeiras meias maratonas no Rio de Janeiro, em São Paulo e na maratona de Curitiba, em 2017. Sofre com o cardio, não tem a pretensão de correr uma maratona, mas quer levar a corrida para a vida toda.

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