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Entrevista - ruído/mm: "o absurdo reina absoluto"

Poucas bandas causam tanto interesse mesmo em hiatos entre um trabalho e outro. A ruído/mm é uma dessas. Para além da sonoridade ao mesmo tempo exigente e contemplativa (e agora talvez até apaziguadora), outros predicados ajudam a fornecer argumentos para a tese de que o sexteto, com 15 anos de estrada (aqui uma matéria sobre o aniversário de 10 anos), é inimitável: as conversas com os chapas da banda sempre fogem do ramerrame, e as entrevistas fornecidas à imprensa desaguam em reflexões saborosas, com pitadas de física quântica, filosofia e poesia, refletindo em palavras a proposta musical do grupo.

Quatro anos depois do ótimo “Rasura”, a ruído/mm divulga “A É Côncavo, B É Convexo”, disco de oito faixas produzido por Rodrigo Stradiotto (ex-Woyzeck) – o álbum já está nas plataformas digitais e há edição em vinil. Ao ouvir, você irá perceber: o caixote do pós-rock não se aplica mais à banda, que agora caminha por outros jardins e infernos, ora complementares, ora paradoxais, mas nunca excludentes.

A capa é de Jaime Silveira sobre gravura de Maikel da Maia. Este é o primeiro álbum desde que André Ramiro, um dos guitarristas da banda, mudou-se para os Estados Unidos. “Se falta mão pra fazer algum arranjo, compensamos com intensidade e, de toda forma, o espírito Ramiresco sempre paira sobre nós, energizando a barulheira”, conta o baixista Rafael Panke.

Ainda no time, estão Alexandre Liblik (teclados), Ricardo Pill (guitarra), Felipe Ayres (guitarra), e Giva Farina (bateria). Serão eles os responsáveis pela execução ao vivo do álbum, às 20h de domingo (25), no Teatro da Reitoria (serviço completo abaixo).

Sobre o novo disco, nossos tempos e o show de domingo, bati um papo por e-mail com Rafael Panke e André Ramiro - “a verdade é uma falácia, o paradoxo é real”:

- Qual a última música que vocês ouviram?
Ramiro: Low - “Dancing and Blood”
Panke: Tears for Fears - “Advice For The Young At Heart”

- São quatro anos desde “Rasura”. Como foi esse interlúdio por aí, em termos de banda, de carreira, de projetos, de vida?
Panke: O ápice da divulgação do Rasura foi em 2016, quando participamos do SXSW e fizemos uma mini tour texana (o Ramiro havia se mudado para os EUA naquele ano). Em 2017 gravamos uma versão de "Buenos Aires, Hora Cero", do Piazzola, e fizemos mais alguns shows (CCSP, Show Livre, Sescs de SP). Desde então, nos fechamos em nós mesmos tentando dosar o quanto de cada um seria posto na caixinha comum ruidosa, que posteriormente seria chacoalhada e reaberta, reorganizada na forma de um disco novo.

Ramiro: Vida loca nos EUA esperando o ruído fazer um tour em 2019.

- O novo disco me parece mais “urgente” e assertivo, e também tem um tempo menor de duração do que o último trabalho. Sinal dos tempos, opção estética?
Panke: Acredito que mais tempo tenha sido empregado dilapidando o caos de arranjos, ideias e desconstruções possíveis para as músicas, em busca do mínimo múltiplo comum de cada uma. Já manter a duração total do álbum abaixo dos 40 minutos foi algo planejado: desta vez teremos uma edição em vinil! Gostaríamos muito de ter feito isso também com o “Rasura”, mas a longa duração do álbum exigia um disco duplo, algo não muito viável para baixas tiragens independentes.

- Entretanto, o título e a capa do trabalho provocam diversas reflexões. A mais direta é a de que o côncavo e o convexo se encaixam, se completam, como o “autoabraço” que há na arte do álbum. Este disco vem para ajudar a apaziguar também, depois da esquizofrenia violenta das eleições e de seu resultado?
Ramiro: As eleições mostram a fraqueza do pensamento crítico, porém isto vem sendo observado em todo o mundo. Talvez caminhos sombrios estão por vir e discos como este são obras necessárias para acalentar nossos corações.

Panke: Com certeza. Depois de um experiência social aterrorizante como essa, podemos ver representada aqui uma jornada que vai da irresistível tentação ao niilismo, quando nada mais parece real, até a conquista de uma reconciliação universal, de um ideal entendimento coletivo (novamente, outro tipo de mínimo múltiplo comum).

Mas é importante lembrar que o conceito do álbum vem sendo lentamente desenvolvido há alguns anos, desde antes mesmo do lançamento do “Rasura”. A temática dos pares de opostos (e toda gama de possíveis realidades entre os mesmos) sempre nos fascinou; portanto, definitivamente, a inspiração não se resume a isso. Miramos em conceitos universais, em uma obra de arte atemporal, não datada. Cabe aqui um texto que eu estava preparando para o release do disco:

O álbum evoca uma reflexão sobre perspectivas, paralaxes, a aparente dualidade entre diferentes enfoques: um mesmo objeto pode parecer maior ou menor dependendo de que lado da lente esteja o observador; um cilindro, visto ortogonalmente, pode ser percebido tanto como um retângulo quando como um círculo. Percepções distintas podem ser igualmente válidas - pares de opostos são complementares, não excludentes. A verdade é uma falácia, o paradoxo é real. O absurdo reina absoluto.

No microcosmo da banda, a jornada de produção envolveu um distanciamento da sua zona de conforto, uma desconstrução de métodos e a consequente atribulação com que costumam se deparar os que decidem trilhar caminhos não-familiares. Os pontos de referência e o senso de individualidade de cada integrante foram em boa parte substituídos por arranjos e sutilezas que a banda não consegue mais distinguir a fonte de origem. “A é Côncavo, B é Convexo” é o resultado de um processo de encontros e desencontros, de entrelaces e solturas e da angústia em tornar algo de si algo de todos.

SERVIÇO
ruído/mm – lançamento de “A É Côncavo, B É Convexo”
Domingo (25/11) às 20h.
Teatro da Reitoria – Rua XV de Novembro, s/n.º.
R$ 15

 

Quem faz o blog

Cristiano Castilho é jornalista, pós-graduado em jornalismo literário. Tem mais discos que amigos, já fez uma playlist com Stan Getz e Green Day na sequência. E, sem brincadeiras, acha que a cultura é a melhor forma de resistência.

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