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Entrevista

Riqueza sem destruição

PV propõe priorizar investimento em tecnologia e educação

Conciliar a necessidade de geração de riqueza para que o Estado possa atender as necessidades básicas da população e ao mesmo tempo implantar um modelo de exploração sustentado e racional dos recursos naturais é o desafio que o Partido Verde se propõe a enfrentar ao se colocar como força política alternativa no atual panorama eleitoral brasileiro e paranaense. Para o candidato do PV ao governo do Estado, Antonio Melo Viana, não há contradição entre essas duas linhas de pensamento. A saída, segundo ele, que há 30 anos é funcionário do Banco Central, está no investimento em ciência e tecnologia de ponta, para que o Paraná deixe de ser um mero exportador de matéria-prima e possa competir de igual para igual com as economias mais avançadas do mundo. Para isso, porém, seria preciso dar um salto de qualidade no ensino público, com a implantação da educação integral, um projeto que ele admite, não é para apenas um governo. Em entrevista ao Jornal do Estado, Viana explica estas e outras idéias que o levaram a disputar o mais alto cargo da política estadual.


Jornal do Estado — Como foi a sua participação no governo Requião? O que aprendeu com ela?
Melo Viana — Em 2002 apoiamos o Requião no segundo turno. Houve o convite para participar do governo. Cogitou-se à Secretaria do Meio Ambiente, mas consideramos naquele momento que não haveria estrutura para implantar o nosso projeto. Acabei sendo convidado para trabalhar como assessor especial do governador, função que cumpri durante um ano, entre 2003 e 2004. Foi gratificante. Aprendi que não é difícil governar, tendo uma boa equipe, é coisa que qualquer pessoa inteligente consegue. Elaboramos o projeto do Review Board – sistema de acompanhamento de projetos, que permite via on line acessar o andamento de cada projeto.

JE — O senhor tem insistido na importância da geração de riqueza. Como fazer isso com a atual política econômica federal?

Melo Viana — Fiz mestrado na Espanha sobre desenvolvimento econômico, e estudei como a Espanha saiu da condição de país de terceiro para primeiro mundo. Eles privatizaram a telefonia, por exemplo, mantendo o controle por empresas nacionais. Depois passaram a comprar empresas de outros países. A Espanha hoje é um País de pais analfabetos e filhos yuppies. A Nokia era uma empresa de beneficiamento de madeira, produção de móveis até o início do século XX. Eles viram que isso não levava a nada e investiram em tecnologia. Hoje é a maior empresa de telefonia móvel do mundo. Maringá, por exemplo, é uma cidade geradora de riqueza, Londrina não é. Maringá tem empresas próprias, como a Cocamar, a usina de álcool. Isso faz com que a riqueza fique na cidade. Londrina não. Maringá não tem nenhuma favela, Londrina tem um grande contingente de população morando em favelas. As empresas que existem na cidade não são de lá. A riqueza produzida por elas não fica na cidade.

JE — Mas por onde e como começar ?

Melo Viana — Investindo em tecnologia. A Coréia fez isso há 30 anos. A partir dos anos 70, passou a bater recordes de pessoas fazendo pós-graduação no exterior. Mas isso só começou a ter retorno há dez anos. Não é algo para retornar amanhã. Por isso, os governantes não pensam a longo prazo. Pensam naquilo que é preciso para se reeleger a curto prazo.  Se investimos 2% em tecnologia, vamos investir 3%, 4%.

JE — Como chegar à população com uma proposta de longo prazo diante do imediatismo e da apatia da maioria?

Melo Viana — É difícil. Como a gente do PV está começando há participar há pouco tempo das eleições majoritárias, estamos entrando na linha de frente dessa discussão. Quando Getúlio Vargas assumiu pela primeira vez, a mulher não votava no Brasil. Ele conseguiu fazer o País sair da era da fazenda para a era industrial.

JE — A geração de riqueza e a chegada em um padrão de consumo dos países ricos não implica em destruição do meio ambiente?

Melo Viana — Nós podemos gerar riqueza sem destruir o meio ambiente. Temos que rever o modelo de desenvolvimento que está aí. Tanto que no nosso programa de governo, a Secretaria do Meio Ambiente tem um papel central, incluindo questões como transporte e outros. O patamar que a gente deve atingir não é o da Suíça, mas o que a gente quer para atender as necessidades da população. Não precisamos ter uma renda per capta suíça, mas se sairmos dos atuais R$ 4 mil para R$ 8 mil já será um grande avanço.

“Temos que pensar na escola integral”

JE — O PV, como outros partidos, não corre o risco de se descaracterizar a medida que chegar ao poder?

Melo Viana — O risco há, não vamos ser hipócritas. Agora precisamos lutar muito para que haja uma reforma política profunda, pois o modelo é corrupto. Mesmo assim, muitos governantes chegam lá e conseguem fazer um grande trabalho, sem comprometer seus princípios. De qualquer maneira, se não houver uma reforma política, será muito difícil consertar o País. O presidente jamais consegue maioria suficiente para governar.

JE — Há quem o acuse de estar a serviço do Requião por conta da atuação no último debate.

Melo Viana — Conheço o Requião desde antes dele ser deputado estadual, há 30 anos. Sempre mantive uma boa relação com ele. Mas a relação do PV com o governo Requião é menor do que a do PT, que está enfronhado de corpo e alma no governo, inclusive com uma secretaria, a do Trabalho. Até há pouco tempo o líder do governo na Assembléia era o deputado Natálio Stica e depois o Ângelo Vanhoni, ambos do PT. É estranho que agora o presidente do PT faça essa acusação. No debate, quem fez pergunda para levantar a bola para o Requião foi o (Flávio) Arns (PT). O próprio PPS participou do governo Requião com a Secretaria de Obras e diretoria do BRDE. Saíram agora antes da eleição. O próprio Rubens Bueno teve cargo em Itaipu em negociação que envolveu o Requião e o Lula. Mamaram na teta até agora e estão cuspindo no prato em que comeram.

JE — E qual a sua avaliação do governo Requião?

Melo Viana — Tem coisas boas. Evidentemente o PMDB não pensa como o PV. A questão da reforma administrativa, por exemplo, é difícil para um governante pensar nisso, ao invés de acomodar seu grupo nos cargos comissionados. Esse é o ponto a ser atacado.

JE — E o Pedágio?

Melo Viana — Tem dois aspectos. Primeiro a criação: houve um erro estratégico para o Estado. O contrato foi mal feito. Deram estradas prontas para as concessionárias construírem praças de pedágio e cobrarem a tarifa. Deixou-se nas mãos delas a definição do preço. O outro aspecto é que há um contrato, e se esse governo tentou de todas as formas derrubá-lo e não conseguiu é sinal de que é um contrato muito bem amarrado. A solução é negociar. Repactuar. Em uma negociação em que cada uma das partes ceda. Seja aumentando o prazo de concessão, ou de outras formas. Mas colocando o contrato em outras bases, que não prejudiquem a economia do Estado.

JE — Qual sua proposta para a segurança ?

Melo Viana — Tem que encarar isso. Entender que não estamos em um estado de normalidade. Acho que as forças armadas já deviam estar nas ruas há muito tempo. Sem perder os princípios do estado democrático, mas justamente para dar-lhe sustentação. A Colômbia, por exemplo, enfrentou o crime organizado assim, com o Exército nas ruas. Fechamento de bares à meia-noite. É ruim para a população em um primeiro momento, mas é necessário para que se enfrente essa situação no início para melhorar em seguia. Partir para uma solução emergencial para fazer a população voltar a ter confiança inclusive em denunciar.

JE — Educação?

Melo Viana — A educação, como a segurança, não está na normalidade. Até fiquei assustado quando fui levantar os dados para o programa de governo e descobri que na pré-escola e ensino primário, 90% das crianças estão em escolas públicas. E a educação dada nessas escolas é insuficiente para que o País entre no estado de geração de riqueza que ele precisa. Precisamos, de certa forma, de uma solução de força. Por isso propomos a Secretaria do Saber. Temos que pensar na escola integral. Não vai ser no primeiro de janeiro que teremos a escola integral em todo o Estado, mas no primeiro de março teremos a primeira escola. E não é preciso dobrar o orçamento ou o número de escolas, mas ampliar, e dar condições para o desenvolvimento da criatividade. Também não é um processo de quatro anos, mas no final dos quatro anos teríamos um bom porcentual de escolas integrais. Não acho que levaria dez anos para concluírmos isso. (IS)

 

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