Universidade corporativa descentralizada

11/10/12 às 23:11 Ricardo Wallace das Chagas Lucas

Nos Estados Unidos a palavra “universidade” não possui uma definição legal, mas sim uma forma de desenvolver ensino. E o Brasil, como excelente copista de estrangeirismos, faz uso do termo “universidade corporativa”, sendo até capaz de modificar seus conceitos e desenvolver modelos alternativos aplicáveis à situação caótica do ensino profissional, ou profissionalizante, brasileiro.
As universidades corporativas são qualquer entidades educacionais que possuem ferramentas estratégicas voltadas para o desenvolvimento do aprendizado técnico/profissional, sob determinada demanda. Para o cumprimento desta missão são menos “engessadas” que as universidades formais, seguindo as regras do mercado, e utilizando tecnologias diversas de ensino, como EaD – Educação à Distância.
As universidades corporativas se apresentam como uma tendência crescente em corporações americanas, brasileiras e do mundo. Na década de 90, existiam por volta de 400 companhias americanas que desenvolviam em seu corpo gerencial universidades corporativas. Já em 2001 este número já ultrapassava 2.000, incluindo empresas como a Walt Disney, Boeing, Motorola e a MacDonald com a conhecida “Hamburger University”.
No Brasil as universidades formais são instituições educacionais que conferem graus acadêmicos de graduação e pós-graduação, tendo o seu formato e hierarquização determinados pelo MEC/CAPES. Isto contrasta diretamente com uma universidade corporativa tradicional, cujo foco normalmente se limita a oferecer, ou manter oferecendo, atualizações específicas de conhecimentos, a trabalhadores (também específicos), de uma corporação/empresa.
Em nosso país o ensino acadêmico das universidades/faculdades tradicionais não tem conseguido suprir a demanda do mundo corporativo, tendo em vista a defasagem da produção acadêmica e a necessidade das empresas. Desta forma, as universidades corporativas tem se apresentado como uma ótima opção para as dificuldades competitivas mercadológicas das empresas/corporações. Muitas até fazem parcerias com instituições de ensino formais para que possam certificar seus cursos de acordo com os preceitos MEC/CAPES.
As universidades corporativas são desenvolvidas para uma variedade de objetivos, mas para a maioria das organizações têm as mesmas necessidades básicas. De acordo com Fredo (2007), [...] algumas enfocam o desenvolvimento de competências, outras o desenvolvimento do negócio e outras ainda, são direcionadas para a gestão de mudanças ou direcionadas aos clientes tendo em comum o foco em prover oportunidades de aprendizado para suportar objetivos estratégicos de negócios e disseminar a cultura organizacional [...]. Estas premissas podem ser também utilizadas em qualquer situação de formação e capacitação profissional, mesmo não sendo direcionada a uma “corporação” específica.
Dito assim, entendemos então o crescimento vertiginoso de diversos institutos de cursos livres, capacitadores de trabalhadores/alunos, que se portam verdadeiramente como universidades corporativas desligadas de uma empresa/corporação específica. Muitos destes institutos, que são verdadeiras empresas de cursos, atuam até como “centros de cursos” de instituições acadêmicas tradicionais, tendo em vista o Know-hall que possuem para esta atividade. Esta prática muito se assemelha, de forma invertida, ao exemplo citado de universidades corporativas que certificam seus cursos por instituições de ensino formal. E é aqui que notamos então algumas diferenças entre as universidades corporativas americanas, e as universidades corporativas brasileiras.
Então, há também o modelo de universidade corporativa descentralizada, ou seja, há demanda para muitos objetivos de uma universidade corporativa, como educação continuada, por exemplo, sem necessariamente se vincular a uma empresa alvo. Assim, ter como “corporação” profissionais ou acadêmicos carentes de formação, é o foco das universidades corporativas descentralizadas.
As universidades corporativas descentralizadas podem se apresentar então com diversas denominações: Institutos de Pós-graduação, Centros de Ensino, Núcleos de Ensino, Institutos de Ensino, Grupos de Ensino, e Sistemas de Ensino dentre outros. Muitos iniciaram suas atividades sem eventualmente realizarem a analogia com as universidades corporativas, mas é evidente o crescimento de alguns que já iniciam suas atividades com foco de universidades corporativas descentralizadas, utilizando inclusive o nome de universidade corporativa.
Tais denominações são mais adequadas, pois representam efetivamente a variação da universidade corporativa, com seus objetivos e foco bem definidos. A prova do desenvolvimento desta forma de oferecer capacitação voltada para o mercado de trabalho, de forma livre ou vinculada às instituições de ensinos formais, é que há presente no mercado a união de universidades corporativas descentralizadas para a formação de verdadeiros “centros universitários corporativos”. Estes, assim como as universidades corporativas, possuem então como gestores profissionais que recebem a denominação de reitores corporativos, e a cúpula de decisões são denominadas de reitorias corporativas.
É evidente o descompasso entre o mundo do ensino acadêmico tradicional e a necessidade da formação de nossos trabalhadores. Não deveria ser assim, e tampouco haveria espaço para o desenvolvimento de universidades corporativas e outras formas de ensino/capacitação profissional, se as instituições de ensino formais desenvolvessem um contato mais íntimo com as empresas. Acreditamos que há necessidade de uma simbiose “obrigatória” e regulamentada entre o mundo acadêmico e o mundo corporativo, para que as empresas possam ser escolas e estas possam se portar como empresas, como dito por Antoninho Marmo Trevisan. Pois o crescimento de um país está diretamente relacionado à sua produção científica real, ou seja, aquela capaz de gerar produtos e serviços que agreguem valor e melhorem a vida da comunidade.
Parece-nos então, que todas as modalidades de universidades corporativas não existiriam se as universidades formais fossem bem gerenciadas, e cumprissem a missão primordial de ensinar, pesquisar e estender os resultados das pesquisas para a promoção humana. Da mesma forma, se as empresas, além do lucro, também se preocupassem com a comunidade onde está inserida, considerando seus contratados como o principal elemento da empresa.

Ricardo Wallace das Chagas Lucas é Mestre em Ciências do Movimento Humano (UDESC) e Especialista em Ergonomia (UFSC)

1 Comentário

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Aristóteles Portela dos Santos
boa luquinhas sempre soube que vc é o cara
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