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Maternidade

Amaciante

Era madrugada e o calor de São Paulo me levantou da cama. Entendi que meu corpo seco precisava com urgência de um copo de água fria. Os últimos dias têm sido lindos por aqui e têm sido também desafiadores. Quentes. Muito quentes. O filtro de casa está ao lado da porta da lavanderia que normalmente permanece fechada. Mas a noite  de ontem não era normal e qualquer possibilidade de passeio de vento nos pareceu uma boa ideia. A porta, portanto, estava aberta. E foi este detalhe fora da rotina que me fez experimentar o grande susto.
No escuro da noite vi sorrisos de ponta-cabeça, cabelos longos coloridos balançando, pernas peludas despreocupadamente penduradas, bebês que já não choravam, cachorros, girafas, baleias e ursos. Dez segundos de terror seguidos por um alívio que cheirava a amaciante. Ocorre que a manhã deste dia de verão quase agressivo tinha começado antes do previsto com espirros e tosses. Ficou claro que era preciso se livrar do máximo de poeira possível para continuar respirando por completo. Decidimos que era hora de uma limpeza profunda no quarto das crianças. Tudo que estava lá foi transportado para outros cômodos, limpamos, separamos o que já não fazia mais sentido, o que poderia passar a fazer sentido para novos donos, reorganizamos, recomeçamos. E eu poderia lhes contar sobre a importância destes recomeços. Poderia lhes falar sobre a necessidade de tirar tudo das prateleira e dos armários e olhar para quem somos sobre outra perpectiva, em outro cômodo. Poderia relembrar a urgência de simplicar nossas vidas, de ter menos, de dividir mais. É mesmo urgente. Poderia até gastar parágrafos na existência perigosa, aflitiva e (ui!) íntima dos ácaros que nos rodeiam. 
Mas o que ficou em mim, o que eu gostaria que ficasse em vocês, foi a imagem das crianças na manhã seguinte quando desceram o varal. Abraçaram cada uma das bonecas e dos bichinhos, quando guardaram de volta na prateleira um por um, quando os chamaram pelo nome, soltando, aqui e ali, um “lembra daquele dia?”, “esse foi a vovó que deu”, “dormiu bem querido?”, quando pentearam os cabelinhos já desgrenhados, quando comentaram que a casa estava cheirosa, que o quarto (que confesso, anda precisando de uma série de ajustes, para não mencionar a mais assustadora das palavras, anda precisando de um reforma) estava lindo. Quando me deixaram perceber que valorizam as suas histórias, que gostam de quem são. Recomeçar, olhar para si sem filtros e sem medo, simplificar, dividir, arrumar e até reformar é preciso. É pra ontem. Mas parar um segundo pra pôr a vida que a gente já tem – essa meio descabelada mesmo – na máquina, deixá-la cheirosinha e macia pode ser também um convite para o próximo ano. Eu que sempre desejei para meus leitores o desafio, o novo, o melhor, desejo também – para nós – o conforto do simples e do possível. O conforto de ser quem se é. Até ano que vem queridos.

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