Publicidade
Exterior

Ao criticar Gleisi Hoffmann, senadora Ana Amélia é acusada de islamofobia

DIOGO BERCITO

MADRI, ESPANHA (FOLHAPRESS) - As declarações da presidente nacional do PT, a senadora Gleisi Hoffmann, à rede árabe Al Jazeera levaram a um ruído na semana passada em torno de termos como “árabe”, “muçulmano” e “terrorista”. Campanhas on-line deram a entender que a petista estava convocando terroristas para defender o ex-presidente Lula. Isso não é verdade.

Gleisi falou à TV Al Jazeera, sediada no Qatar, com um “recado sobre a situação de Lula para o mundo árabe”. A fala levou a críticas e a uma ofensiva via Whatsapp sugerindo que o PT estava “recorrendo até aos muçulmanos”, no que dá a entender que os seguidores do islã deveriam ser a última opção de um político. “Esse canal financia inúmeros grupos terroristas. É antissionista, mas mesmo assim tem sede em Israel”, dizia outra mensagem. As informações são falsas.

O debate se intensificou quando a senadora Ana Amélia Lemos (PP-RS) disse esperar que o vídeo de Gleisi “não tenha sido para convocar o Exército Islâmico para o Brasil”.

Gleisi respondeu: “O incômodo com essa entrevista não foi com o conteúdo da minha fala, mas com o veículo de comunicação onde ela se deu. Só posso reputar isso à ignorância, ao preconceito, à xenofobia contra o povo árabe. Aliás, mais do que isso, chega a ser má fé”. Ana Amélia e Gleisi têm um histórico de discussões.

O Instituto da Cultura Árabe publicou em seguida uma nota de repúdio às declarações da senadora Ana Amélia. “Relacionar uma emissora de TV do mundo árabe a grupos terroristas, além de demonstração de desconhecimento em relação aos países árabes, é prática explícita de preconceito racial e islamofobia. Partindo de uma senadora da República, constitui-se em um constrangimento ainda maior para a nossa sociedade”, segundo a nota desse instituto árabe-brasileiro.

Em seguida à controvérsia, a senadora Ana Amélia foi eleita presidente do grupo parlamentar Brasil-Arábia Saudita, cuja missão é fortalecer os laços entre os dois países. Procurada por meio de seu departamento de comunicação em Brasília, ela respondeu com um e-mail a este blog:

“Em nenhum momento, nas minhas manifestações, fiz qualquer associação entre árabes e terrorismo. A TV Al Jazeera é uma emissora reconhecida internacionalmente. Esteve, inclusive, no Brasil, para cobrir o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. Não houve nenhuma palavra minha que induzisse qualquer ilação à emissora. A tentativa de me indispor com a comunidade árabe, com a qual tenho excelente relação, é de má fé. Assumi recentemente a presidência do grupo parlamentar Brasil-Reino da Arábia Saudita. No domingo (22), estive com a missão do Ministério da Defesa da Arábia Saudita, que visita oficialmente nosso país. Reafirmei minha disposição de trabalhar pelo aumento das relações bilaterais, no campo econômico, comercial, de defesa e cultural.”

Os árabes são uma população associada à península Arábica, no Oriente Médio, e hoje presente também em regiões como o norte da África, sem contar as diásporas em países como o Brasil. Em torno de 450 milhões de pessoas, eles falam sua própria língua, o árabe, e têm uma cultura e história em comum. Quando falamos em “mundo árabe” ou “países árabes” nós simplificamos a situação demográfica de países como o Marrocos, onde há expressivas populações de etnia berber.

Já os muçulmanos são aqueles que seguem a religião do islã, fundada no século 7 pelo profeta Maomé. São estimados em 1,5 bilhão de pessoas, o equivalente a 22% do mundo. Notem que o número de muçulmanos é muito maior do que o de árabes —afinal, os dois não são sinônimos. O Irã é um país de maioria muçulmana, mas a população não é árabe. É também possível ser árabe e cristão, como o presidente brasileiro, Michel Temer, ou qualquer outra combinação.

Quanto aos terroristas, por vezes associados aos árabes e muçulmanos, são aqueles que usam o terror como ferramenta política. Por exemplo, sim, os muçulmanos responsáveis pelo atentado de 11 de Setembro nos Estado Unidos. Mas também o judeu Baruch Goldstein, que matou 29 pessoas em um templo na cidade de Hebron, na Cisjordânia, em 1994. Ou o cristão Anders Behring Breivik, que matou 77 pessoas em Oslo em 2011. Ou seja: isso não depende da religião.

Publicidade

DESTAQUES DOS EDITORES