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Após protestos, Hong Kong adia debate sobre lei de extradição

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Após milhares de manifestantes saírem às ruas em Hong Kong para protestar contra um projeto de lei que autoriza extradições para a China continental, o Parlamento local anunciou que adiou para "uma data posterior" o debate que estava marcado para esta quarta-feira (12).

Confrontos violentos foram registrados quando a polícia tentou impedir que os manifestantes, reunidos pacificamente, entrassem no Parlamento local —que tem maioria pró-Pequim. As forças de segurança dispararam balas de borracha e gás lacrimogêneo, e quem protestava jogou de volta garrafas plásticas.

Os manifestantes também usam guarda-chuvas, tanto para se proteger quanto em uma referência ao "Movimento dos Guarda-chuvas", mobilização que, em 2014, exigia que a eleição do chefe do Executivo acontecesse por eleição direta. Pequim não deixou passar.

Os manifestantes "devem parar a violência", disse o chefe da polícia, Stephen Lo, alertando os moradores para que se afastem de uma "situação tumultuosa".

A maioria das pessoas que protestava era formada de jovens vestidos de preto. Eles se reuniram em torno da Lung Wo Road, uma importante via próxima aos escritórios da chefe executiva de Hong Kong, Carrie Lam.

No domingo (9), a ex-colônia britânica foi palco do maior protesto ocorrido desde sua transferência para a China em 1997. De acordo com os organizadores, mais de um milhão de pessoas foram às ruas pedir ao Executivo de Hong Kong que desista de seu projeto de lei.

Na segunda (10), o Executivo do país disse que seguiria adiante com a proposta da lei e que a iniciativa da nova diretriz não havia sido imposta por Pequim.

Mais cedo, nesta terça (11), dezenas de empresas e estabelecimentos comerciais de Hong Kong anunciaram sua intenção —incomum na ex-colônia britânica— de fechar as portas na quarta para protestar contra o projeto altamente controverso do governo local.

O texto da proposta provocou críticas de países ocidentais, bem como o clamor de alguns em Hong Kong, que temem julgamentos politizados na China e afirmam acreditar que essa reforma prejudicará a imagem internacional e a atratividade do território semiautônomo.

Vários comerciantes se mobilizaram nas redes sociais, sob a hashtag que pode ser traduzida como "#greve1206", para anunciar que as lojas fechariam as portas para permitir que seus funcionários pudessem protestar.

São, principalmente, empresas familiares e pequenas lojas locais, raramente ouvidas no debate político. Mais de cem empresas anunciaram sua intenção de fechar as portas, entre elas cafés e restaurantes, lojas de câmeras e de brinquedos, salões de beleza, estúdios de ioga e até mesmo uma sex shop.

"Hong Kong foi construída pelo trabalho duro de gerações", diz o estúdio Meet Yoga em uma rede social.

Pelo acordo de 1984 entre Londres e Pequim, que selou a volta de Hong Kong para domínio chinês em 1997, Hong Kong passou a desfrutar de semiautonomia e liberdades que não existem na China continental.

A ex-colônia britânica tem sido, no entanto, palco de intensa agitação política na última década, devido à preocupação com a crescente interferência de Pequim em seus assuntos internos e com a sensação de que o princípio "um país, dois sistemas" não é mais respeitado.

Mais de 1.600 funcionários de companhias aéreas participaram de um abaixo-assinado pedindo a seu sindicato que entre em greve. Já um sindicato de motoristas de ônibus convidou seus membros a dirigirem muito lentamente na quarta-feira para mostrar apoio aos manifestantes.

Professores, enfermeiros e assistentes sociais também expressaram disposição em interromper o trabalho.

A chefe do Executivo local, Carrie Lam, protestou contra as greves: "Peço às escolas, pais, grupos, empresas e sindicatos, que, antes de convocarem esses atos radicais, perguntem sobre o bem que podem fazer à sociedade e aos jovens de Hong Kong", disse.

O projeto de lei deve permitir extradições para todas as jurisdições com as quais não exista acordo bilateral, incluindo a China continental.

O texto, segundo as autoridades, deve preencher um vácuo legal e fazer com que o território deixe de ser um refúgio para criminosos. Os defensores da proposta afirmam garantir salvaguardas em relação aos direitos humanos e que a China não terá adversários políticos como alvos.

Depois de anos de tensão política, porém, muitos moradores de Hong Kong não acreditam mais nas promessas de seus políticos e desconfiam das intenções do governo chinês.

A oposição ao projeto de lei une segmentos muito diversos da população, incluindo a diocese católica local, que pediu a Lam, uma católica fervorosa, que renuncie.

Por coincidência de calendário, a Justiça da Nova Zelândia se opôs, nesta terça-feira (11), à extradição para a China de um homem procurado por homicídio, evocando o risco de ser torturado.

Os Estados Unidos manifestaram sua preocupação com o ambiente econômico em Hong Kong e com os americanos de passagem, ou instalados localmente, que estarão "sujeitos aos caprichos do sistema judiciário chinês". A China criticou os comentários, chamando-os de "irresponsáveis e equivocados".

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