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Economia

Banco Central condiciona juro baixo a eleições e melhoria do cenário externo

BRASÍLIA, DF, E SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Caso a eleição presidencial ou o cenário externo aumente o risco de uma inflação maior, o Banco Central pode antecipar, de forma gradual, o início de um novo ciclo de aumento da taxa básica de juros, a Selic.

Essa foi a sinalização do Copom (Comitê de Política Monetária) no comunicado da decisão, tomada por unanimidade nesta quarta-feira (19), de manter a taxa na mínima histórica de 6,5% ao ano.

Dos 38 analistas consultados pela Bloomberg, 37 apostavam na estabilidade. Essa é a quarta manutenção seguida da taxa, após o BC encerrar em maio o ciclo de cortes.

"O Copom reitera que a conjuntura econômica ainda prescreve política monetária estimulativa, ou seja, com taxas de juros abaixo da taxa estrutural. Esse estímulo começará a ser removido gradualmente caso o cenário prospectivo para a inflação no horizonte relevante para a política monetária e/ou seu balanço de riscos apresentem piora", escreveu o comitê.

Para economistas, a autoridade monetária está de olho na eleição. O crescimento de Fernando Haddad (PT) nas pesquisas de intenção de voto é encarado pelo mercado como sinal de que as reformas fiscais podem perder peso.

Uma consequência possível seria a alta ainda mais forte do dólar -desde a última reunião do Copom, em 1º de agosto, a moeda já subiu quase 10%.

"Houve uma depreciação cambial forte, com o dólar chegando a um patamar perto de crítico", afirmou o economista-chefe do Santander, Mauricio Molon.

O aumento da divisa americana pode ser transmitido para preços no mercado doméstico por meio das importações.

"Num primeiro momento, não é uma preocupação latente, mas sabemos que ela pode aumentar ao longo do tempo", disse Luis Afonso Lima, economista-chefe da Mapfre Investimentos.

Outro risco citado pelo BC, lembra Mauricio Nakahodo, economista do banco MUFG Brasil, é o de continuidade da redução do apetite do mercado internacional por países emergentes. "O Banco Central deixou a porta aberta para antecipar o ciclo de aperto monetário", afirmou.

Para o Copom, os dois riscos aumentaram.

"Uma frustração das expectativas sobre a continuidade das reformas e ajustes necessários na economia brasileira pode afetar prêmios de risco e elevar a trajetória da inflação no horizonte relevante para a política monetária. Esse risco se intensifica no caso de deterioração do cenário externo para economias emergentes. O comitê julga que esses últimos riscos se elevaram", escreveu o Copom.

Uma conta comum entre economistas é que uma depreciação cambial de 10% elevaria em cerca de 0,5 ponto percentual a inflação. Com a economia em ritmo lento, porém, esse repasse da taxa de câmbio para índices de preços tem se mostrado limitado.

"Esse efeito costuma chegar à economia em seis a nove meses, mas, como a atividade está muito fraca, a capacidade de repasse é menor", diz André Diz, professor de macroeconomia do Ibmec/SP.

Essa foi a última reunião do Copom antes das eleições.

No comunicado, o BC reafirmou que a continuidade das reformas e ajustes é essencial para a manutenção da variação de preços em nível baixo no médio e longo prazos. "O Comitê ressalta ainda que a percepção de continuidade da agenda de reformas afeta as expectativas e projeções macroeconômicas correntes."

Sem leitura clara dos rumos políticos do país, o dia foi de instabilidade no mercado.

O dólar chegou a R$ 4,178, mas fechou em baixa de 0,38%, a R$ 4,129.

O Ibovespa, índice das ações mais negociadas, atingiu 79 mil pontos, mas terminou em queda de 0,19%, a 78.168 pontos.

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