ELEIÇÕES 2018

Beto Richa admite disputar Senado como candidato avulso

(Foto: Franklin Freitas / Bem Paraná)

O ex-governador Beto Richa (PSDB) renunciou ao governo em abril para disputar uma das duas vagas para o Senado, mas não definiu oficialmente em qual chapa vai concorrer, nem quem vai apoiar para sucedê-lo. Com dois aliados – a governadora Cida Borghetti (PP) e o deputado estadual Ratinho Júnior (PSD) – como pré-candidatos à sucessão estadual, ele afirma que essa decisão dependerá dos partidos que compõem seu grupo. E apesar de afirmar que a tendência hoje, no PSDB, é caminhar com Cida Borghetti, ele admitiu na entrevista ao Bem Paraná, que pode acabar lançando-se como candidato avulso, caso não haja consenso sobre quem apoiar.

Alvo de denúncias envolvendo a operação Quadro Negro – que investiga o desvio de recursos para construção de escolas – e mais recentemente, de suspeitas de direcionamento de uma licitação para obras em rodovias em benefício da Odebrecht, o ex-governador garante estar tranquilo em relação a esses processos, e afirma não temer que as acusações prejudiquem sua campanha.

Bem Paraná - O Brasil passou por um processo de redemocratização no qual o seu pai (José Richa), inclusive, foi uma das figuras de ponta, em que havia uma grande esperança de que o País caminhasse para uma sociedade mais justa, igualitária. Trinta anos depois, o País vive uma situação de total descrença nos políticos e na política, com denúncias generalizadas de corrupção em todos os níveis, e pessoas pedindo a volta dos militares ao poder. Na sua opinião, o que deu errado?

Beto Richa - O atual sistema também contribuiu para isso. Pouca responsabilidade de políticos. Um distanciamento dos eleitores. E isso é uma bandeira que o PSDB defende faz tempo, que seria o parlamentarismo. A reforma política que já passou da hora. Muitos candidatos prometem, depois chegam ao poder e não fazem a reforma por conveniências. Enqunto não houver mais responsabilidade de partidos e políticos, tende a permanecer esse estado de coisas, muito embora com esse combate implacável à corrupção, com o fim da impunidade, certamente muitos vão pensar muitas vezes antes de cometer um desvio de conduta ou praticar um ato ilícito. Uma série de coisas que devem mudar para definir que este estado de coisas seja sepultado e melhore a qualidade e a responsabilidade dos políticos na vida pública. Por exemplo: uma reforma política que diminua este grande número de partidos, que servem a outros interesses. Muitos partidos são criados para ter um fundo partidário. Muitos partidos são criados para vender espaço de televisão; partidos de aluguel em época de eleição. Já tem a mudança da lei para a próxima eleição, o fim das coligações na proporcional. Já é um grande avanço para inibir o surgimento de novos partidos. Cláusula de barreira, fim da reeleição, voto distrital misto, onde o eleitor fica mais próximo daquele que foi eleito. Até para cobrar. Acaba também com aqueles candidatos 'pop star', que pegam votos espalhados no Estado todo e acabam sendo eleitos sem o mínimo de responsabilidade com aquele eleitor. Enfim, o fim da impunidade constribui muito com essa mudança. Cabe à sociedade também, cá para nós, votar melhor. Não tem nenhum político nomeado. Está ruim? Todos foram eleitos. O populismo nesses últimos anos contribuiu para isso. Um partido que se achava acima do bem e do mal, que cometeu todos esses desvios de conduta e corrupção para se eternizar no poder. Aí foram pegos no meio do caminho com essas mudanças com relação à cobrança e atitudes do Ministério Público e Judiciário. É importante o eleitor, nesta eleição, fazer a limpa. Como é que julga? Falam: 'em época de eleição todo mundo está em pele de cordeiro, muito simpático, prometendo o combate implacável à corrupção, apresentando propostas agradáveis'. Gente, vamos analisar o passado de cada um, o que cada um fez para a sociedade, o que fez se teve oportunidade de ocupar um cargo público, honrrou seus compromissos, teve um desempenho satisfatório, atendeu os interesses da sociedade, cometeu desvios de conduta. Tem que fazer esse tipo de análise muito criteriosa para definir esta eleição. Essas mudanças de comportamento e atitude dos eleitores são fundamentais.

BP - Antes de se desincompatibilizar para disputar o Senado o senhor chegou a cogitar não se candidatar e cumprir o mandato até o fim. O que foi determinante para que o senhor mudasse de ideia?

Richa - Em momentos pré-eleitorais eu sempre tive esse comportamento. Defino na hora certa, sem ansiedade. Porque boa parte da classe política termina uma eleição e já está fazendo projeto para a próxima. Não tenho essa ansiedade nenhuma. Estou na política para servir e no momento adequado, conforme o sentimento das pessoas, é que ajo de uma maneira ou de outra. Eu, como estava ainda em uma série de compromissos com o governo, de investimentos e programas em andamento, demorei para decidir, de fato. Analisava sinceramente a possibilidade de ficar até o final do governo. Andei muito o Estado, aliás, fui o primeiro governador a andar os 399 municípios. Fui conhecer a realidade. Acho que faz melhor quem conhece. Peguei um estado com R$ 4,5 bilhões de dívidas. Contas de água, luz e telefone não tinham sido pagas. Estavam atrasadas. R$ 1 bilhão de Pasep não foi recolhido; R$ 100 milhões de professores não tinham sido pagos. Tive que pagar tudo isso, fazer um saneamento das finanças, modernizar a estrutura do Estado, que estava arcaica, obsoleta. Entre o primeiro e o segundo governo, me deparei com essa gravíssima crise nacional, que me obrigou, de forma muito responsável, a fazer um ajuste fiscal para equilibrar as contas públicas do Paraná. Vocês se lembram dos ataques fortes que sofri, no enfrentamento com os sindicatos e eu dizia na época daquela grande incompreensão. O Paraná será o primeiro a fazer o ajuste e seremos o primeiro Estado a sair da crise. Não aconteceu diferente. Demandou coragem, botei meu patrimônio político em risco para defender o interesse do Paraná, protegendo dos efeitos nocivos da crise. Falei em um determinado momento também, publicamente, reiteradamente: 'vocês vão entender melhor a necessidade do que nós fizemos quando compararem com os demais estados'. Nós fizemos o dever de casa e tem estados que não fizeram. Rio de Janeiro, Minas, Rio Grande do Sul, Sergipe, Distrito Federal e tantos outros. Não estão conseguindo pagar a folha dos servidores, a maior parte. É uma situação extrema. Quando não paga a folha, muitas coisas pararam antes. Obras, pagamento de fornecedores, investimentos nos municípios... E graças a Deus que o ajuste fiscal deu certo. O Paraná tem hoje a melhor situação fiscal, a melhor situação financeira do Brasil. Se não desse certo, também, eu estava morto. Não tinha como recuperar a aprovação do governo e a minha popularidade. E a recuperação é lenta. Enfim, fui responsável, não me arrependo do que fiz. Não agi de forma politiqueira, demagógica, não pratiquei populismo fiscal. Fiz o que era correto. E os resultados estão aí. Atestam as medidas acertadas que nós adotamos. Os números estão aí e atestam o bom momento do Estado do Paraná e mais do que qualquer coisa, comprovam que as medidas que nós adotamos foram acertadas. Em 2017 foi o maior investimento que o Paraná já fez, com R$ 6,8 bilhões. E neste ano já está no orçamento o investimento da ordem de R$ 8,4 bilhões. Então, voltando à pergunta original, analisei essa situação do Estado. Bom, os números comprovam que de fato a missão está cumprida, posso sair. Por outro lado, andando pelos municípios as pessoas me pediam: 'participe das eleições deste ano'. O governo está aí, organizado, com finanças em dia, dinheiro em caixa para as obras para serem continuadas, inauguradas, lançamento de novas obras'. Diante desse quadro, e a necessidade de ter um representante no Senado da República, porque em todas as dificuldades do Paraná não teve um senador que se apresentou para ajudar. Então, faltou uma presença, uma representatividade no Senado e eu me disponho a fazer isso, se for eleito. E assumo aqui o compromisso público: qualquer que seja o governador, aliado político meu, alinhado ou não, vou cumprir minha obrigação de defender o Paraná. Além de outras atribuições.

BP - O senhor anunciou que é pré-candidato ao Senado, mas ainda não definiu oficialmente em qual chapa vai concorrer e quem vai apoiar ao governo. E tem dois aliados como pré-candidatos: a governadora Cida Borghetti e o deputado Ratinho Jr. Qual a tendência hoje?

Richa - A tendência, sendo muito franco, majoritária no PSDB é caminhar com Cida. Existe um grupo expressivo que quer Ratinho, até porque ele foi parte do nosso governo. E tem alguns que defendem também Osmar Dias. No momento adequado, na convenção nós vamos decidir, respeitando o foro democrático, até para ter união do partido. Que nada seja imposto. Tem também partidos que querem estar juntos conosco, que é importante, assim como PSB e Democratas, que foi a mesma união feita para eleição de Rafael Greca. São partidos expressivos, com grandes lideranças em todas as regiões do Paraná, com bom tempo de televisão. Também é importante pesar as propostas do governo.

BP - Pode ser uma candidatura avulsa?

Richa - Pode. É possível, claro que é possível. Se não houver consenso, é possível, sim, uma candidatura avulsa. Com toda cautela porque é uma decisão importante para o Estado. Quem vai ter a melhor proposta para o governo do Estado? O PSDB vai poder opinar? E os partidos aliados? Não apenas pensar na eleição, quem tem mais força eleitoral. É importante pensar no depois, em quem vai ter melhores condições de conduzir o Paraná. Quem vai ter condições, por exemplo, sem preguiça e sem demagogia, de preservar as conquistas que o Paraná teve a duras penas. O equilíbrio das contas públicas, que permite todo esse investimento que está acontecendo no Estado. Isso tudo vai ser pesado em momento oportuno. Evidente que com a proximidade das convenções, as conversas vão se intensificando. Até agora estava meio morno, agora começa a esquentar. Mas vai ser isso, decisão em convenção. Eu não sou dono do partido. Estou presidente.

FUNCIONALISMO

'Não cabe a mim dizer se tem condições de dar reajuste'

Bem Paraná - Ainda sobre a questão do ajuste, o senhor disse que um dos motivos pelo qual estava deixando o governo era porque confiava que a governadora Cida Borgheti manteria a política de austeridade. O novo governo nessa semana admitiu a possibilidade de retomar a data-base do funcionalismo que foi suspensa e pagar a reposição salarial dos últimos 12 meses. Como o senhor vê essa provável decisão? Acha que pode comprometer esse ajuste que o senhor fez “a tantas duras penas”?

Beto Richa - Tem que fazer um estudo profundo. Eu não sou contra o reajuste aos servidores, não. Tanto é que fui o governador que mais concedeu aumento aos servidores.

BP - Os números mostravam que o Estado permanecia com um gasto com pessoal no limite.

Richa - Mesmo que ela queira, que qualquer governante queira, se passar do limite prudencial não consegue. É proibido dar aumento. No ano passado não demos o reajuste por causa disso. Nós estávamos no limite prudencial. Não só pelos reajustes, mas pela contratação de servidores. Fui o governador que mais contratou professores. Policiais eu lembro dos números. Foram 11 mil contratações de policiais. Nunca um governo contratou algo parecido. Em outros setores, Iapar, Emater, vários outros, precisavam de reestruturação para prestar um serviço melhor à população. Também pelas contratações nós atingimos o limite prudencial. Tem uma folgazinha porque melhorou a arrecadação em função do ajuste fiscal.

BP - Não pode estar havendo o risco de que o atual governo, pelo fato de a governadora ser pré-candidata à reeleição, esteja querendo agradar os servidores?

Richa - Não acredito. Até porque ela ainda não afirmou, não é? Não estou no governo mais. Imagino que ela esteja ouvindo a equipe econômica, a equipe da Fazenda, para poder tomar essas decisões. Até porque o governante que incorrer na Lei de Responsabilidade Fiscal, o limite prudencial de gastos com servidores, responde pessoalmente por essas infrações. Nem que queira não consegue. Mas eu sou a favor, se tiver condições, de dar o reajuste ao funcionalismo. Em 2017 nós não demos. O último foi em 2016, foi o único Estado do Brasil que deu reajuste – 10,67%. Não foi pouco, não. E nós estávamos analisando, se eu ficasse no governo, a possibilidade de dar o reajuste de novo, agora em 2018, conforme o comportamento da arrecadação, essa conta que ela (Cida) deve estar fazendo de forma responsável para conceder o reajuste aos servidores. Não sou contra, não. Aliás, deixei R$ 6,7 bilhões em caixa.

BP - A divisão da base do governo, de Ratinho e Cida, não pode beneficiar os adversários?

Richa - O momento é outro. Uma das razões eu mostrei para vocês aqui. Tem dinheiro em caixa. Não tinha antes. Deixei o Estado em ordem. Não cabe a mim dizer se tem condições de dar reajuste ou não. Tem que observar as questões da Lei de Responsabilidade Fiscal e limite prudencial. Agora, é época de eleição. É normal isso. Sempre foi assim e sempre vai ser. Os ânimos vão se acirrando, a disputa começa a esquentar. Só espero que tudo aconteça dentro de um limite de respeito, de responsabilidade, de ninguém se exceder. Até porque qualquer excesso agora, mesmo de medidas, impensadas, mal planejadas, compromete o próximo governo.

PRESIDÊNCIA

'Alckmin tem problemas, mas vai crescer'

Bem Paraná - Em relação à eleição presidencial, como o senhor vê a situação da pré-candidatura do ex-governador Geraldo Alckmin? Mesmo no PSDB há quem duvide da capacidade de Alckmin “decolar” e defende que ele seja substituído por João Dória? Como o senhor vê essa possibilidade?

Beto Richa - Muitas pessoas admitem e eu penso assim, que Alckimin é o melhor candidato nestas eleições. É o mais preparado, o mais equilibrado, experiente, de valores e princípios, justamente pare este momento turbulento que atravessa o país. Com capacidade de articulação, de apoio político. Não adianta ganhar a eleição se não tiver governabilidade. Tem que manter entendimento, de alto nível evidentemente, no Congresso Nacional, para reestruturação, para as mudanças profundas que o Brasil precisa para a retomada do crescimento, do desenvolvimento, da geração de emprego e renda, porque sem crescimento econômico, esqueça. Não tem como melhorar a vida das pessoas. Vejo nele essa capacidade. Afinal de contas tem quatro mandatos em São Paulo, maior estado do Brasil, com todas as complexidades e tudo mais. Tem dificuldades? Tem. O momento turbulento da política, a demonização da classe política e da política também; já era previsto o surgimento de salvadores da pátria, de políticos com discurso fácil e atraente aos ouvidos daqueles que estão revoltados com a classe política. Então, isso é um risco. As pessoas têm que pensar bem. Mas eu acredito que começando a campanha, no embate direto entre os candidatos, na apresentação nos debates eleitorais, acho que fica muito clara a capacidade de Alckmin, a diferença deles dos demais candidatos, aí eu aposto que vai crescer. Em muitas eleições, muitos sairam lá de trás e venceram. Um exemplo é João Dória. Tudo bem, era um nome novo na disputa. Ninguém apostava que ele ganharia as eleições, ainda mais no primeiro turno. Então acredito nessa possibilidade. O que tem atrapalhado também são muitos pré-candidatos que se apresentam agora disputando a mesma faixa, candidatos de centro. Isso trouxe um prejuízo pro Alckmin também, muito grande. Além da candidatura do Alvaro (Dias) no Paraná que sempre foi um reduto forte do PSDB.

BP - O PSDB teve atuação decisiva no impeachment da presidente Dilma, colocando o combate à corrupção como uma das principais pautas do partido. Mas hoje, boa parte da cúpula do partido é alvo de acusações de corrupção: o senador Aécio Neves se tornou réu no STF, Alckmin é acusado de caixa dois de campanha, Paulo Preto, apontado como operador financeiro do partido chegou a ser preso. Esses fatos não compromente o discurso de moralidade do partido? Isso também não pode estar pesando contra o Alckmin?

Richa - Pode ser também. Não dá para negar esta situação. Partidos que estavam no poder são mais atacados. Outros que não ocuparam o poder, evidentemente não tem nem como ser atacado. São partidos grandes, com maior número de políticos, senadores, maior número de governantes, seja governadores ou prefeitos, então óbvio que ficam mais expostos a esse tipo de coisa. Mas em linhas gerais, evidente que cada um paga sua conta. O partido não tem compromisso com erro de ninguém. Cada um está se defendendo. Eu acredito no PSDB com as propostas que tem, com os governos que exerceu, os resultados que apresentou à sociedade, seja com prefeitos, governadores, mesmo a gestão hoje reconhecida como eficiente, competente de Fernando Henrique Cardoso na Presidência da República. O Brasil é outro hoje. Eu sou a favor do combate implacável à corrupção, de todas essas operações que acontecem, da Operação Lava Jato, sou a favor. Até por uma mudança brusca e repentina de um país que tinha impunidade para agora um combate implacável. Excessos são cometidos também. Quantas pessoas foram presas? Quantas pessoas são inocentadas? Agora fica o trauma da prisão também. Então tem que haver um bom senso, um equilíbrio, atá para que não se comprometa, nenhuma dessas operações. Sou a favor, sim, que tudo seja investigado com profundidade, que as punições ocorram, mas sempre com equilíbrio e respeito, e observância das leis.

DENÚNCIAS

'Todos os suspeitos foram demitidos'

Bem Paraná - O senhor teme que as denúncias que surgiram nas últimas semanas relacionadas à operação Quadro Negro e à questão da participação da Odebrecht na PPP da PR 323 pode prejudicar sua candidatura ao Senado?

Beto Richa - Lógico que trazem algum prejuízo. Mas eu não temor e receio de nenhuma delas. A Quadro Negro, por exemplo, que é a única denúncia até agora que envolve dinheiro público – as outras, nenhuma delas. A Odebrecht não fez nenhuma obra no Estado do Paraná, nenhum centavo de dinheiro público – quero lembrar que na Quadro Negro quem abriu investigação fui eu. Foi o meu governo. Isso que setores da imprensa esquecem de dizer, omitem. Quando houve a primeira denúncia de superfaturamento da construção de um muro, da Escola Amáncio Moro, no Jardim Social, coinscidentemente onde eu voto, encaminhamos rapidamente, imediatamente para a Secretaria de Educação para investigação, para abertura de inquérito. Ali se apurou que as irregularidades eram maiores. Mandamos para a polícia do Estado, foi para o Nurce (Núcleo de Repreensão a Crimes Econômicos) da Polícia Civil. Ali se deu o nome 'Quadro Negro', não foi o Ministério Público. Foi o governo. Todos os suspeitos foram demitidos. Alguns foram presos pela polícia do Estado. Pedimos para a Procuradoria Geral do Estado que abrisse procedimentos de ações de improbidade. Todos os suspeitos com bens bloqueados para o ressarcimento aos cofres do Estado. Todas as investigações realizadas foram encaminhadas para o Ministério Público, para o Tribunal de Contas do Estado e para a Controladoria do Estado. O Ministério Público entrou meses depois do nosso governo nas investigações. Então ninguém foi poupado. Não sei qual é a dúvida. O que não pode hoje é dar a um criminoso fé pública nas suas palavras. O cara quer se livrar da cadeia, quer se livrar das garras da Justiça. E o único meio é tentar terceirizar seu problema. Esse Eduardo (Lopes de Souza) da Valor (Construtora investigada na Quadro Negro) eu nem conheço. O tempo todo, nos depoimentos dele, se observar bem, (ele diz) em relação a mim: 'ouvi dizer'. Vá para o inferno com 'ouvi dizer'. E esse sujeito também, ninguém foi investigar a vida dele. Me chegaram informações de que ele deu golpe em vários estados do Brasil, sobretudo na Bahia. Ele foi preso no meu governo. Me vieram informações também que a empresa dele foi montada no governo Requião. Ele prestou serviço na Sanepar. De repente parou. Quem sabe não teve uma irregularidade cometida ali e varrida para debaixo do tapete. No meu foi tudo investigado.

BP - Maurício Fanini era seu amigo, viajou com o senhor.

Richa - Para você ver a que ponto eu levo esse tipo de coisa. Sendo meu amigo, vá lá, ele foi punido. No meu governo. Não tenho nada a esconder.

BP - Além de Fanini, Nelson Leal Junior estaria negociando delação. Eram pessoas que o senhor tinha confiança, que trabalhavam com o senhor desde a primeira Prefeitura.

Richa - Nunca ouvi nenhum comentário, nem dele, nem do Maurício, que desabonasse a conduta. Nunca. Pode perguntar para consultor, empresários, que a gente conversa, nunca ninguém falou um 'a' desse rapaz, nem do Maurício. De repente esse estado de coisas. Mas nunca deixei de apurar. E esse é um bom exemplo. Até pessoas ligadas a mim não são poupadas. É um bom exemplo, na verdade. A questão da Odebrecht, faço questão de voltar ao assunto. Um dos poucos estados do Brasil, não sei se tem outro, nessas questões da Odebrecht, não tem um centavo de dinheiro público. Pode observar, não tem um centavo de dinheiro público, não tem uma obra, um aditivo, não tem nada. Estou completamente tranquilo. O que tem aí é uma orquestração política nas redes sociais, setores da imprensa requentando esse tempo todo. Esse caso da Valor foi um telejornal inteiro. E se você for ver o depoimento dele de um ano e meio atrás diz exatamente a mesma coisa. Não acrescentou uma vírgula no que ele tinha dito. Outro exemplo que faço questão de dizer é a Operação Publicano.Fiquei dois anos e meio apanhando. Eram telejornais inteiros, dois anos e pouco. Prenderam quarenta. Ninguém tinha nada para falar de mim. Foi arquivado agora, dia 2 de abril. Quem cata as penas levadas ao vento. Esse excesso que não posso concordar. Você demora uma vida para construir uma reputação, uma imagem, todo mundo tem honra para defender. Então não podem se acusações assim baseadas apenas em delações de um criminoso. Em Londrina, por exemplo, o delator está na rua. Ele estuprou dezenas de crianças. Réu confesso no descio de R$ 20 milhões da Receita. Está na rua. O que ele apresentou de prova até agora, nada.

BP - Na questão da gravação, o senhor disse que conversou com Deonilson (Roldo – ex-chefe de gabinete) e ele teria dito que explicaria as razões. Como o senhor vê essa dificuldade explicar isso?

Richa - Vamos aguardar. Não teve direcionamento da obra, não teve nenhum direcionamento. Esta empresa, Bertin, não participou porque não conseguiu as garantias bancárias para participar da obra.

BP - Mas o senhor concorda que a gravação mostra que pelo menos houve uma tentativa de indução da obra?

Richa - Vamos aguardar para ver em que circunstâncias ele falou isso. Vamos aguardar.

BP - O que o senhor sentiu quando ouviu?

Richa - Eu não gostei. Óbvio. Não gostei nenhum pouco. Até porque não houve nenhuma orientação minha para aquela conversa.

BP - O ex-deputado Toni Garcia disse que levou essa gravação ao senhor em março de 2014.

Richa - Eu não ouvi essa gravação.

BP - Então ele está mentindo?

Richa - Eu não ouvi essa gravação.

BP - Qual o interesse dele nessa história?

Richa - Não quero fazer avaliação em relação a isso. O que leva ele a fazer isso não me diz respeito.

BP - Como o senhor viu a decisão da governadora de demitir Deonilson do cargo na direção da Copel?

Richa - Uma decisão dela. Eu tive vários casos também. Demiti, ouvi explicações, pedi que se licenciasse, depende da circunstância.

BP - Isso criou algum tipo de desconforto?

Richa - Não. Viajei com ela agora, sexta-feira. Fizemos um roteiro por Castro, Carambeí, Jaguariaiva, caminhamos juntos o dia inteiro.

BP - O senhor pediu para ela manter alguém no governo, alguém da sua equipe?

Richa - Ninguém. Não pedi a manutenção de ninguém, de ninguém. Nem da minha mulher.

BP - De Ezequias Moreira (secretário de Cerimonial) também não?

Richa - Não.

SENADO

'Maior desafio é o combate à corrupção'

BP - Qual serão as suas prioridades no Senado? Na sua opinão qual o principal desafio dos próximos governos e Congresso no plano nacional?

Richa - O maior desafio seria o combate a corrupção. A gente tem visto as manifestações populares, todo mundo com expectativa enorme que o Brasil mude seu comportamento. Acho que o maior desafio seria isso. Dar contribuição na Câmara Alta de todas as medidas possíveis de combate à corrupção. Daí, sim. Aí tudo melhora no país.

BP - Muitos dos políticos investigados por corrupção, de alvos da Lava Jato, dizem que não participam de questões partidárias, de financiamento. Muita gente fala em nome de políticos nas negociatas. O senhor vai passar a tomar esse cuidado?

Richa - Se você for avaliar tem depósitos diários na conta de um deles. O outro tem compra de imóveis, de veículos, se for avaliar, está ali o desvio de R$ 20 milhões (da Quadro Negro).

BP - O senhor pretende acompanhar mais de perto a partir de agora?

Richa - Nunca atuei. Não tenho nem tempo para captar recurso. O que eu orientei às pessoas de minha confiança, por sinal, não ponho qualquer um, é que sejam recursos de captação para campanha de origem lícita e sejam contabilizados. As pessoas que captam pra mim, que fazem parte do comitê financeiro são de confiança.

BP - O programa Brasil Urgente, da Band, mostrou uma gravação de um homem, sócio da Gestor Político de Sistemas, chamado Eduardo Carmona, que afirmou que a empresa trabalhou com a disseminação de notícias falsas – as chamadas fake news – para beneficiar duas campanhas suas e a mais recente do prefeito Rafael Greca. O partido nega. O que o senhor sabe sobre isso? Conhece Eduardo Carmona?

Richa - Eu nunca contratei esse sujeito. Se alguém contratou eu não sei. Eu não contratei esse sujeito para fazer esse tipo de coisa. Nunca fiz campanha suja. Ao contrário. Tenho sido alvo de campanhas sujas. Posso citar exemplos. Correu no Brasil inteiro, aconteceu ano passado, não sei como conseguiram, a guerrilha digital, para conseguir disseminar no Brasil inteiro que aquela Ferrari, último modelo, que nem sei qual é, que desembarcou aqui no aeroporto Afonso Pena era minha. As pessoas me ligavam. Alguns, claro, que me conhecem, já sabiam que era plantação. Quatro anos atrás eu tinha filho nascendo no Paraná inteiro. Tinha engravidado tudo quanto é miss no Paraná. Esses dias me disseram que eu estava em um acidente aqui, que tomou proporções no Brasil inteiro, acidente do Carli Filho, que eu estava fazendo racha com ele. Cadê? Alvo tenho sido eu. Em 2004 eu fui intimado por um oficial de Justiça para reconhecer paternidade. Contratei advogados, detetives, foi a campanha inteira. No final, nas vésperas da eleição, descobriram. Era uma menina, obesa, numa favela de Piraquara, com transtorno mental. Pegaram o nome dela, esconderam ela lá longe, para requerer reconhecimento de paternidade. É assim minha vida. Vocês nem sabem. Eu tenho tudo guardado em casa, fitas, o pessoal filmou o pai dela, a mãe tentando acha-la. Foi um inferno, aquela tensão, a campanha inteira.